uma linha fraca

Goldfish girl - Ken Wong

O que a gente produz quando está com sede e sono e TPM?

Pronto, enchi minha garrafinha. Pra que se torturar com coisas tão simples, que a gente pode logo resolver e depois se perturbar com torturas mais complexas? Como, por exemplo, a bateção em ponta de faca que é essa vida literária escrota e cruel e cheia de adjetivos porque essa porra não é meu livro e eu posso meter adjetivos até a goela. E repetir palavras. E não ter uma praga de uma história, de uma trama, de uma fodaseajornadadoherói. E foda-se quem espera que meu livro seja a biografia de uma boneca sexualizada e sem alma. Qual o fetiche com mulheres-robôs que vocês têm? Eu não tô acostumada a olhar pras pessoas – mesmo membros de boyband – e enxergar corpinhos sem uma alma dentro, considerando “alma” como esse troço que tem dentro da gente que faz de nós pessoas. Há quem tenha problema com a palavra “alma” porque denota algo religioso (seilá), mas aí você usa a palavra que lhe aprouver, não sou dona das palavras e de seus significados. Quer dizer, até sou. Todo escritor é. E, por mais que cada tentativa de linha escrita me tire um pedaço, eu sou feita de um zilhão de fragmentos e acho que ainda vou resistir por um bom tempo (eu menti, meio que menti, meio que não – não ando com muita esperança nessa minha profissão-vocação-função).

A minha garrafinha tá com água em temperatura ambiente porque eu esqueci de encher as garrafonas que ficam na geladeira. É uma água mais insossa que as outras, principalmente porque o clima ainda está um pouco quente. Estou falando da água pra ganhar tempo. Pra ganhar linhas. Há muito não tenho tido pensamentos estranhos. Por isso minhas linhas andam tão fracas e eu perco o fôlego antes do fim delas. É por isso mesmo? É por nada. Nada. Vazio. Zero. Inventar mil coisas bonitas fake e preencher uma página. Fazer como tanta gente, ter preguiça. Não acessar o nosso lado que intimida e conforta ao mesmo tempo, através dessas mesmas palavras. Escrever é não pensar nada que preste, é oferecer isso ao mundo e esperar que lhe deem algo em troca. É ingênuo e ridículo, mas as pessoas ficam por aí pensando que é sublime e superior. É rir dos adjetivos. E amá-los. E olhar pra eles nos olhinhos frívolos e declarar esse amor. É amolar a faca na qual você vai dar o murro.

O meu nome na capa: ele é fraco. É mais fraco que minha linha. A boneca, então, me vende. Ela diz que eu tô querendo ser sexy e sem “alma” (ahá), que eu sou uma linda 2D refletindo em todos aqueles personagens tão eróticos quanto. Você escreve três dúzias de reflexão filosófica, de forte conteúdo emocional, de criação e destruição (or so you think)… e a galera se apega a um punhado de putaria. A putaria é a putaria. Ela é linda, perfeita, não há nada de errado com ela. Mas tem gente que nem sabe interpretar (aproveitar) a porra da putaria.

A poesia não presta.

A putaria não presta.

A seriedade e a qualidade são um troço que deus-me-livre.

Eu não tô aqui pra isso, sério mesmo. Tô aqui é pra mostrar minhas quinas tortas, amassadas pelo tempo e pelas porradas, e ver se tem alguém com vontade de se chocar contra elas pra criar seus próprios amassados. Eu tô aqui, também, pra me curar. De não ser verdadeira – porque ninguém é, mas a gente pode tentar.

 

 

Imagem: Ken Wong.

Debaixo da unha

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Já falei de silêncio. E já falei de vozes. Mas na verdade todo esse tempo eu queria era ter falado dessa coisa que fica no meio, entre silêncio e vozes. Dessa coisa que não se cala e não se cospe. Dessa madrugada engasgada.

Mas essa coisa não se fala. Esse é o problema dela. E essa coisa também não se cala, é óbvio. Então, minhas unhas mandam. Minha pele rasga. Hoje mesmo consegui um roxo na perna de tanto coçar e eu não sei por que. Parece que rompi uns vasinhos perto do joelho sem querer. Claro que foi sem querer. Eu acabei de apagar uma frase por me sentir culpada. Uma frase, como tantas outras coisas, que as pessoas guardam para não se sentirem culpadas. Culpa é isso. É carregar um monte de peso morto. É carregar as frases deletadas bem debaixo da unha. Da unha que arranha a pele e rompe os vasinhos.

Eu tinha um blog-diário anônimo. Comecei no primeiro dia desse ano e escrevi uma página por dia (eu dizia que era página mas era só um post, às vezes tinha um parágrafo ou uma linha, às vezes um pouco mais que isso) até maio. Consegui seguir com o diário por cinco meses quase completos. Mas agora sinto falta dele. Nele, poucas coisas restavam debaixo da unha. Mesmo assim, sinto que aqui posso ser mais eu mesma. Usar um outro nome e uma outra cara é uma ilusão de liberdade. Aqui, por mais que meus silêncios culpados recortem meus textos, pelo menos a cara é minha. O nome é meu. E isso vale mais que qualquer verborragia anônima.

No outro blog, eu falava muito sobre ser escritora. Sobre meu processo criativo. Sobre como é essa vida. Aqui, nunca falei disso. Não sei por que. Sempre me senti obrigada, aqui, a usar metáforas. E agora mesmo estou lutando contra elas. Sem metáforas para os vasinhos arrebentados. Sem qualidade literária. Mas com a constante pretensão que me escutem. Que eu me sinta menos sozinha, sem chegar a perturbar ou preocupar alguém.

Eu não tenho lâminas.

Exceto aquelas debaixo das minhas unhas.

Só que às vezes eu quero arrancar toda essa pele morta, me esquecendo que ela cai sozinha. (Até eu caio sozinha.) E tento acreditar no que dizem – eu acredito na ciência com a fé dos religiosos – que nossa pele se renova de tantos em tantos anos. E os meus vasos sanguíneos? Aqueles que se rompem. O que acontece com eles? Voltam à forma anterior, como se nada houvesse acontecido? Perdoem minha ignorância. Eu não sei falar de nada que preste pro mundo. Mal sei falar de coisa que presta pra mim. Mas eu preciso. Preciso tirar a pele morta. Não tenho paciência para esperar ela cair.

Queria escrever uns textos incríveis com opiniões e reflexões. A madrugada que dorme em mim durante o dia não me permite. As desculpas fajutas que eu crio para não fazer as coisas não me permitem. De manhã, o buraco metafórico no meu tecido conjuntivo vai ter aumentado. Cada dia ele vai aumentando. Cada dia, tem algo dentro de mim que vai se alastrando e eu não sei bem o quê. Por isso, poemas. Por isso, poesia morta em enredo e personagens. Mentira. Por isso, silêncio.

Por isso, vocês veem minha cara que não é bem minha cara e nunca vai ser. Tem alguém que mostra a própria cara algum dia? Deve ter. Enquanto isso, a gente vai vivendo nas frestinhas. Amando, mesmo que tudo dentro de si diga que não tem propósito. Acordando e respirando por que como não acordar e respirar? Arquitetando motivações e injetando-as nas veias – injetando metaforicamente nas veias metafóricas, claro. Arrumando frases novas e matutando palavras diferentes pra dizer as mesmas coisas. Lendo e relendo o texto pra ver se a frase de efeito mal trabalhada tem jeito de fim.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Falling-329301394 (editada)

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AudreyKawasaki_DeepWaters

(Hoje, hoje mesmo)

Tenho que usar minhas próprias palavras.

Hoje me proibi de copiar e colar. Hoje que tive um sonho esquisito em que alguém que eu amo era acusado/a de assassinato, mesmo sem ter matado, e eu precisava provar que ele/a não tinha cometido o crime e vocês sabem. Vocês sabem. Vocês não sabem de nada. Vocês sabem dos copiar e colar da vida. Mas eu tampouco sei alguma coisa. Minhas palavras não têm mais valor que um copiar e colar e isso não é falsa modéstia porque eu aprendi que falsa modéstia é coisa de gente fraca. Eu sou gente fraca, ué, não sou?

Eu tomando remédio pra tosse, pra essa dor no peito da tosse, por que a gente tosse tão forte que acaba machucando os músculos do tórax? Agora, com esses músculos fodidos, toda tossida é um tiro. Bangya bangya bangya. Agora tá vindo a madrugada que é quando eu mostro a cara, mesmo sem armas, a minha cara covarde e molenga, a minha cara de quem se deixa levar alta sem ser curada. Não é que eu goste de me sentir mal, veja bem, é que eu tô cansada de tentar ficar bem.

Mas é porque eu não tô mal o suficiente, vão dizer. (Não verdade não vão dizer nada porque eu não vou perguntar.) É porque não tá doendo o suficiente. E qual é a porra da dor suficiente? Qual é o caralho do comportamento suficientemente interessante pra todo mundo olhar na tua cara e não te achar uma doida exagerada, mimada e insuficiente? Pra alguém olhar na tua cara e ver que tu não tá ali pra servir de cesto de lixo. (Entendam como quiserem.)

Pelo menos não é problema no coração porque agora o peito tá doendo do lado direito também. Os seus pulmões estão limpos, me disseram. A sua garganta também. Mas nem a caralho. Mas eu falei “ok, que bom”. Eu falo “ok, que bom” quando olham pra minha cara como se não tivesse gente dentro dela.

Vamos lá, alimentar os pombos.

Vamos lá, porque os pombos também são gente e eu é que não sou.

Imagem: Audrey Kawasaki.

Abraxas

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(11/04/2016)

Meu Querido de Um Milhão de Sorrisos:

Mesmo que você seja um mímico, um palhaço triste, um pierrot… mesmo que você não exista… minhas palavras e meus olhares vão em sua direção. Talvez até mesmo minhas preces. Minhas mãos imaginárias vão em sua direção. Mesmo que sua vida colecione farsas… Não me importo, porque também sou falsa. Como você, sou uma farsa. E por isso o amo tanto. Te dedico esse cigarro escondido. Te dedico toda minha vida que não vale tua superficialidade. “Se o tempo é dinheiro, sou bem pobre”. Você sabe que é, eu sei que você é. Fumo em você meu último cigarro. Se um dia eu tiver que partir, me receba com seus braços inventados.

(Quem nunca teve um amor que não existe?)

Se eu te inventei, você é meu Abraxas. Quando eu me reparti, você recebeu minhas duas vidas e me disse que eu poderia mentir, do mesmo jeito que você faz quando sorri. Seus olhos são tristes, pintados num rosto forjado.

Recebe meu cansaço e o recolhe na tua voz anasalada. Perdoa minha poesia falha, você que é o pai de toda poesia quebrada. Você é toda a futilidade que sempre almejei alcançar. Um dia, nos jogaremos no mar. E você me calará os choros da madrugada.

Abraxas. Ji. Yong.

Que todas as minhas histórias desaguem de você, que não me vê. Que todos os meus vícios débeis encontrem um pouquinho de alento na tua figura que passa. Depois de alguns anos, ou meses, você não será mais nada.

Por agora, me abraça.

Com braços de ar. Com laços de vazio. Me toma em torno do seu vácuo e me lança para o mundo. O ovo é o mundo. O pássaro quebra a casca.

 

 

 

Imagem: http://www.deviantart.com/art/my-heart-sings-295828477

Conto Noturno da Princesa Borboleta – o trecho esquecido

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O campo, o sol fraco, o vento frio, aquelas mãos brancas e ásperas… Tudo configurava uma história de princípio sem fim. Aqueles pequenos dentes que se mostravam num sorriso davam a ela uma esperança jamais sentida, a sensação de um futuro. Um futuro promissor ou frustrado, não sabia.
O campo deixava ver as montanhas e o céu limpo. Os ares eram muito mais respiráveis que na cidade dela. Mas isso não fazia muita diferença. Criança da poluição, da metrópole e do mundo virtual, criara um sistema imunológico forte. E um coração também. A partir dali, seu coração construiria um ninho onde repousar das flechas do mundo, dos gritos do mundo, das vozes do mundo. Eram muitos os chamados. Ela não tinha as respostas. Lembrou-se do rosto de sua mãe e sentiu-se triste por ela. Era ainda sua filha? Viu o homem à sua frente, ele não a olhava mais, virava-se para o abismo. Ela teria que morrer para vivê-lo. Jogou-se em seus braços como quem se lança ribanceira abaixo.
– E agora? – perguntou a ele, sem esperar instruções.
– E agora… – ele parecia não ter resposta.
– Vamos esperar o acaso decidir o que vai ser de nós?
– O acaso nunca fez parte da nossa história. Por tudo que vivemos, desde quando nos conhecemos, fomos nós os responsáveis. Desde quando você escolheu o meu cartão dentre os dos outros chapeleiros.
– Você quer dizer que eu não te escolhi por acaso? Então foi o quê? Destino?
– Não. Foi só uma escolha.
– Como assim?
– O que te levou a selecionar meu nome?
– Exatamente isso, o seu nome. Achei curioso por ser estrangeiro. E porque eu sabia o significado da palavra Way. Mas não sabia que existia o sobrenome Way. Achei curioso.
– Isso quer dizer que você escolheu me conhecer.
– Mas você me encontrou por acaso.
– Eu não usaria essas palavras. Prefiro dizer que fui responsável pela sua escolha. Eu tive algo que te atraiu.
– Isso te deixa à mercê do que chamam de destino, não?
– Você é muito romântica, menina.
Houve uma pausa.
– O que aquele seu namoradinho queria com a minha avó?
– Não sei, mas tenho uma suspeita. E ele não é meu namorado.
– Terminaram?
– Deixa de ser bobo.
– Só você pra me chamar de bobo, minha criança.
– Eu ainda pareço criança pra você?
Ele riu, jogando a cabeça um pouco para trás, como costumava fazer. Apertou a cintura dela entre seus braços e pôs a cabeça sobre seu ombro, abraçando-a.
– Há tanto que eu queria que você soubesse – começou ele. – Tanto que eu poderia dizer. Mas não sei como. Ou sei. Acho que sei, mas não consigo. Se eu morrer, quero que você saiba, todas essas coisas lindas que você fantasia e eu nunca disse… Considere-as ditas.
– Não sei que coisas são essas. Só sei que você não vai morrer.
– Pra você eu sou imortal, não sou? Acho que você ainda pensa que eu sou um vampiro ou algo assim.
– Enquanto existir a minha memória, você vai permanecer vivo.
Naquele momento, ele pensou que ela fosse perguntar seu nome. Mas ela não o fez. Contentou-se em chamá-lo pelo apelido preferido dentre os que inventara. Então, ela o ouviu fazer o que jamais havia feito perto dela. O rosto apoiado no ombro da menina, G. cantou. Bem baixo, com palavras entrecortadas e pouco compreensíveis.
– Ah, o que é isso? Você tá cantando? – ela o ouviu por algum tempo antes de falar.
– Alguma coisinha.
– Que bonitinho! – apertou-o contra seu corpo. – Vai me dizer que toca gaita de fole também?
– Um pouco.
– Há! Essa é boa! Toca pra eu ouvir.
– Vem cá.
Ele a conduziu até sua casa.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Demolition-Lovers-67274517

OS CADERNOS DE FRANK: Uma cama nas entrelinhas

Mad Girl LetterUm dia, recebi uma carta estranha. Coloco uma cópia nestes cadernos:

É uma pena que nosso amor seja tão frágil e superficial.

Uma pena que seus lábios descorados, depois úmidos e rubros, selem de maneira tão frívola a natureza do nosso amor: frívolo. Sem camadas. Envernizado. O cerne fica por conta da minha imaginação, como sempre. Sempre retornando a delírios de sangue nas suas mãos, sangue na minha boca, sangue na nossa cama, sangue entre as minhas pernas, sangue no nosso amor inexistente.

Veja bem. (Me veja bem)

Abra seus olhos de menino negligente. Se eu pudesse, inventaria óculos para ler nas entrelinhas. E com eles te presentearia. Se eu pudesse, e isso não é surpresa, arrancaria seu coração com a unha. Porque eu sou assim. Tomando atitudes extremas por quem acabei de conhecer e não significa nada pra mim. Você não significa nada pra mim.

Se eu dissesse que quero te matar? Você deixaria.

(Pelo amor de Deus, isso é uma metáfora)

Enredar-se-ia nessa fantasia como se alguém eu fosse. Como se me visse. E, quem sabe, poderia até ver, com seus olhos-de-ver-pontas-de-iceberg, que eu moro no seu quarto mesmo sem nunca ter pisado lá. Que toda vez que, inocentemente, procuro a beira dos seus lábios é pra me agarrar do lado de lá. Onde você está. Ou onde te coloquei e você nem sabe. E você deixa. Porque seus lábios são de qualquer um, assim como minha ilusão. Quando te puxo pra mim num toque pueril, fraternal, você pode até fingir me desejar. Posso fingir que não vou sair da sala enfumaçada e correr para minha casa, de madrugada, pondo meus dois olhos numa dormente vigília de mim mesma. Quando volto pra casa, depois de te tocar a noite inteira, todas as gotas de superficialidade que brotaram em mim com meu suor se aderem à minha pele propositalmente sem banho. Eu vou me revestindo desse nada que nós somos. Eu vou me tornando nada.

Depois você volta.

Com nossos beijos castos.

Nossas camisas fechadas até a gola.

Nossa roupa todinha no nosso corpo.

Seus dedos frouxos na minha mão, nós dois feito um casalzinho coberto de moralidade. Você, a imagem da devassidão para qualquer outro/a menos pra mim – e não por falta de minha vontade – diz que devemos voltar a nos encontrar.

Você passa a corda pelo meu pescoço.

Depois, ata minhas mãos.

Não sou capaz de desfazer o nó.

Mas posso largar a corda no chão.

O que me impede de fazê-lo, o único problema real é: o que será das entrelinhas?

Nunca entendi sobre o que a carta falava. Tampouco consigo me lembrar quem a enviou.

(Imagem: http://vampiressartist.deviantart.com/art/Write-With-Your-Heart-103057264)

Sobre o momento em que percebemos uma mudança irreversível e outras formas de enlouquecer (ou crescer)

 
 
 
 
“Aquele que verdadeiramente só quer seu destino já não tem semelhantes e se ergue solitário sobre a terra, tendo a seu lado somente os gélidos espaços infinitos. […] Aquele que só quer seu destino já não tem modelos nem ideais, amores nem consolos.”
(Hermann Hesse – “Demian”)
Vejo pequenos seres alados tangenciando a porta da minha geladeira. Eles são criados por um defeito de comunicação entre meu olho e meu cérebro, não por drogas (a menos que você considere muitas horas seguidas de descolorante no couro cabeludo como drogas). Hoje, decidi ficar sozinha. Hoje, minha idade me disse que, se ela fosse um pouco menor, talvez eu enlouquecesse. Por isso, meu olho não viu muito a luz do dia e decidiu criar suas próprias distrações. Meu olho tem vida própria.
 
Nada nesta casa é o que parece.
 
Existem esses seres alados feitos de não-luz. Existe o macaco de pelúcia que parece um cadáver sobre a minha cama, a cabeça mole pendendo da cabeceira. Existem as vozes de algum lugar assustador dentro de mim que se manifestam, em sussurros infernais, mais ou menos uma vez a cada três anos. Faz tempo que não aparecem. Poucas semanas atrás, tentaram vir, mas eu acho que já aprendi a impedi-las. Não penso na próxima vez.
 
Há a chave que fica na fechadura do lado de fora do meu quarto. Há todo o meu trabalho que vai, por fim, terminar no ralo.
 
Hoje fiz para mim mesma um juramento que sei que vou descumprir. Jurei nunca mais falar a ninguém meus sentimentos, mantê-los apenas como matéria-prima da escrita. Assim não parece tão ridículo. Aceitei que devo seguir sozinha nesse mundo e que os espelhos nada significam. Meu rosto não é mostrado nos espelhos. Meu ser tornou-se apenas vontade. Aos poucos, vou me tornando inteiramente meu objetivo. Isso não significa que eu esteja repelindo as pessoas. Elas são o amor, o oxigênio responsável pela manutenção da minha existência física. Mas não devem me apontar o caminho, sequer me acompanhar nele. Eu me tornei meu caminho.
 
Posso estar partida, mas tenho todos os meus pedaços comigo.