Untitled, 2017

Triune - Margaret Keane

Quantas frases eu gastei até chegar aqui? Minha mente as consome e não sobra nada. Morar na própria mente e ela ser a casa errada. Guardar citações de Anne Sexton, Sylvia Plath, Sarah Kane. Todas essas mulheres que sucumbiram. Endeusar as mulheres que sucumbiram como se elas fossem heroínas. Ter nervoso da minha própria cara oleosa, do meu sono, pensar em me drogar com um remédio prescrito. Pensar em me calar mais um pouco. Tem limite pro quanto conseguimos nos calar? Tentar resistir à força das paredes que se fecham. Quem já lutou contra a própria mente defeituosa que sabe. Não há como saber de outra forma. Eu não tenho que ser interessante. Eu não tenho que ser forte. Eu não tenho que ser uma companhia divertida. Eu não tenho nada. Eu só não queria ficar sozinha na minha mente. As portas se fecham. Principalmente de madrugada. E na hora do almoço. E no trabalho. E quando eu tenho que subir num palco, bem assim, reduzida a nada, e olhar pra cara das pessoas tentando suprir expectativas que duram, pra elas, dois segundos. Pra mim, uma vida. Dois segundo depois, já não se lembram de mim. Dois segundos depois sou eu e minha mente pra sempre. Sem um alívio. Com os dedos doendo de digitar. Perdida entre os toques do teclado. Tentar entrar na mente das pessoas porque a minha já me expulsou. Ouvir as pessoas falando comigo e o som de suas vozes ecoando dentro da minha cabeça vazia, sem ser absorvido, sem ser compreendido. Se isso tem nome, se é doença, não sei. Só sei que não é saudável. Mas vamos parar de demonizar as doenças, principalmente as da cabeça. Vamos parar de esperar que as pessoas sejam fortes. Louvável não é só ser forte. Louvável é conseguir fazer tudo que eu faço estando em pedaços.

Não vamos adornar a dor.

Não vamos colocá-la num pedestal. Isso só parece tentador pra quem nunca se contorceu de dor. Devo estar falando bobagem. Cada um lida com a dor do jeito que dá. Devo estar repetindo outras palavras, parafraseando tantas escritoras que tenho lido ultimamente, tantos fragmentos de frases, tantas outras que tentam não sucumbir, como eu. Tantas que são grandes. Eu não sou grande. Eu sou grande. A gente é as duas coisas ao mesmo tempo. Uma porção de coisas. Aos poucos. Aos bocados. A gente é aos bocados.

Eu não quero enlouquecer.

Não tem nada bonito em perder o controle, em se desfragmentar, não tem nada romantizável. Mas a gente não pode esconder quem é. Se esconder é como morrer. Eu quero mostrar minha cara, minha alma pulverizada. Quero bater nas teclas enquanto eu ainda for capaz de mandar nos meus dedos e de coordenar meu pensamento, mal e porcamente, para dentro da página. Bater nas teclas com força. Fazer barulho. Com raiva. Com dor. Com a lágrima barrada no lábio. Ou com os olhos secos da madrugada.

Eu quero a proximidade das pessoas que amo. Eu admiro as que não recuaram. As que se assustaram eu perdoo. As que não se importam eu não posso julgar. Não posso querer. Eu sempre tentei ser boa. Mas agora não dá mais pra tentar. Não vou me desculpar pela minha dor.

Imagem: “Triune”, Margaret Keane.

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I need somebody. I ain’t got nobody. (Hello?)

Eu luto com isso. Com a distância das pessoas, com não conseguir entender, com não ser entendida, com o medo de falar. Eu luto contra estar sempre em outro lugar. Deveria ser adulta, na idade do amadurecimento, coisa que é natural pras outras pessoas pra mim é bloco de cimento. Uma parede d’água. Hoje eu vi as cataratas. Hoje vi você nas cataratas. Senti o cheiro que inventei pra você e lutei mais um pouco pra minha mente não pifar. Estou lutando agora. Você está? Está em algum lugar?

Não dormi, não chorei. Ontem, ao te ver no palco, eu amei. As outras pessoas que eu amo se tornaram uma sombra. Eu me tornei uma sombra. A gente, nós, mulheres, a gente nasce aprendendo a ser sombra e foi isso que eu virei. Te disseram que você seria luz. Eu quero ser luz. Eu quero lutar, mas transformada em luz. Isso não faz sentido. Nós deveríamos ser iguais na luta e na solidão.

Num ônibus saindo de Niagara, onde você provavelmente (foi coincidência, juro) está hospedado, e a chuva cai. Eu queria a chuva. É verão e aqui faz calor de verdade. Pelo menos, hoje fez. Eu encontrei minha voz no curto circuito mental. Minha voz ecoa nessas planícies fantasmágoricas, minha voz não deixa que eu me apague.

I need somebody. I ain’t got nobody.

Sou uma estrela ao contrário. Estou perfeitamente misturada no meio de tanta gente. Você, isolado de tanto brilhar. Eu, apartada de mim mesma e do meu rosto igual a tantos outros. Sem destaque. Irreconhecível.

Quero gritar. Talvez esteja doente. Minha idade me diz que, se for depressão de novo, dessa vez não vou aguentar. Tenho alguém que eu amo do outro lado dessa cortina ilusionária. Alguém que ainda não desistiu de mim. Fui sendo desistida por quem me amava. Só sobrou ele. Minha vida com ele é clara e feliz. Mas, no momento, estou separada de mim mesma e não posso tocá-lo.

Quanto tempo mais ele vai aguentar? Talvez ele não tenha ciúme de você porque você é só um brilho distante, um amor febril. Um algo que não se pode chamar de amor. Essa estrada a milhares de quilômetros a qual eu percorro sozinha e que já se descaracterizou, não sou mais eu. Minha cara de novo desbotada pela chuva.

Ontem, depois de te ver no palco voltei sozinha pro meu apartamento alugado. Ele fica numa área bem residencial de Toronto, quieta, perto de um parque. Caminhei pelas estradas solitárias que cortam o bairro, a partir do metrô, e quis me perder no meio das árvores. Você fez com que eu quisesse me embrenhar na morte verde e me deixar pra lá. Por lá. As palavras também começam a pifar. Tenho sono. Dormi quatro horas essa noite e o ônibus voltando de Niágara está preso no trânsito. Amanhã eu volto pra casa. Acho que parou de chover. Você está dormindo?

Não pensei que fosse ficar tão abalada. Obrigada.

Faz diferença quando você pode colocar sua dor num pedestal e transformá-la em espetáculo? Quando você pode projetar o próprio rosto num telão e tentar se confessar em meias palavras à multidão. Quando parece que alguém escuta.

uma linha fraca

Goldfish girl - Ken Wong

O que a gente produz quando está com sede e sono e TPM?

Pronto, enchi minha garrafinha. Pra que se torturar com coisas tão simples, que a gente pode logo resolver e depois se perturbar com torturas mais complexas? Como, por exemplo, a bateção em ponta de faca que é essa vida literária escrota e cruel e cheia de adjetivos porque essa porra não é meu livro e eu posso meter adjetivos até a goela. E repetir palavras. E não ter uma praga de uma história, de uma trama, de uma fodaseajornadadoherói. E foda-se quem espera que meu livro seja a biografia de uma boneca sexualizada e sem alma. Qual o fetiche com mulheres-robôs que vocês têm? Eu não tô acostumada a olhar pras pessoas – mesmo membros de boyband – e enxergar corpinhos sem uma alma dentro, considerando “alma” como esse troço que tem dentro da gente que faz de nós pessoas. Há quem tenha problema com a palavra “alma” porque denota algo religioso (seilá), mas aí você usa a palavra que lhe aprouver, não sou dona das palavras e de seus significados. Quer dizer, até sou. Todo escritor é. E, por mais que cada tentativa de linha escrita me tire um pedaço, eu sou feita de um zilhão de fragmentos e acho que ainda vou resistir por um bom tempo (eu menti, meio que menti, meio que não – não ando com muita esperança nessa minha profissão-vocação-função).

A minha garrafinha tá com água em temperatura ambiente porque eu esqueci de encher as garrafonas que ficam na geladeira. É uma água mais insossa que as outras, principalmente porque o clima ainda está um pouco quente. Estou falando da água pra ganhar tempo. Pra ganhar linhas. Há muito não tenho tido pensamentos estranhos. Por isso minhas linhas andam tão fracas e eu perco o fôlego antes do fim delas. É por isso mesmo? É por nada. Nada. Vazio. Zero. Inventar mil coisas bonitas fake e preencher uma página. Fazer como tanta gente, ter preguiça. Não acessar o nosso lado que intimida e conforta ao mesmo tempo, através dessas mesmas palavras. Escrever é não pensar nada que preste, é oferecer isso ao mundo e esperar que lhe deem algo em troca. É ingênuo e ridículo, mas as pessoas ficam por aí pensando que é sublime e superior. É rir dos adjetivos. E amá-los. E olhar pra eles nos olhinhos frívolos e declarar esse amor. É amolar a faca na qual você vai dar o murro.

O meu nome na capa: ele é fraco. É mais fraco que minha linha. A boneca, então, me vende. Ela diz que eu tô querendo ser sexy e sem “alma” (ahá), que eu sou uma linda 2D refletindo em todos aqueles personagens tão eróticos quanto. Você escreve três dúzias de reflexão filosófica, de forte conteúdo emocional, de criação e destruição (or so you think)… e a galera se apega a um punhado de putaria. A putaria é a putaria. Ela é linda, perfeita, não há nada de errado com ela. Mas tem gente que nem sabe interpretar (aproveitar) a porra da putaria.

A poesia não presta.

A putaria não presta.

A seriedade e a qualidade são um troço que deus-me-livre.

Eu não tô aqui pra isso, sério mesmo. Tô aqui é pra mostrar minhas quinas tortas, amassadas pelo tempo e pelas porradas, e ver se tem alguém com vontade de se chocar contra elas pra criar seus próprios amassados. Eu tô aqui, também, pra me curar. De não ser verdadeira – porque ninguém é, mas a gente pode tentar.

 

 

Imagem: Ken Wong.

Debaixo da unha

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Já falei de silêncio. E já falei de vozes. Mas na verdade todo esse tempo eu queria era ter falado dessa coisa que fica no meio, entre silêncio e vozes. Dessa coisa que não se cala e não se cospe. Dessa madrugada engasgada.

Mas essa coisa não se fala. Esse é o problema dela. E essa coisa também não se cala, é óbvio. Então, minhas unhas mandam. Minha pele rasga. Hoje mesmo consegui um roxo na perna de tanto coçar e eu não sei por que. Parece que rompi uns vasinhos perto do joelho sem querer. Claro que foi sem querer. Eu acabei de apagar uma frase por me sentir culpada. Uma frase, como tantas outras coisas, que as pessoas guardam para não se sentirem culpadas. Culpa é isso. É carregar um monte de peso morto. É carregar as frases deletadas bem debaixo da unha. Da unha que arranha a pele e rompe os vasinhos.

Eu tinha um blog-diário anônimo. Comecei no primeiro dia desse ano e escrevi uma página por dia (eu dizia que era página mas era só um post, às vezes tinha um parágrafo ou uma linha, às vezes um pouco mais que isso) até maio. Consegui seguir com o diário por cinco meses quase completos. Mas agora sinto falta dele. Nele, poucas coisas restavam debaixo da unha. Mesmo assim, sinto que aqui posso ser mais eu mesma. Usar um outro nome e uma outra cara é uma ilusão de liberdade. Aqui, por mais que meus silêncios culpados recortem meus textos, pelo menos a cara é minha. O nome é meu. E isso vale mais que qualquer verborragia anônima.

No outro blog, eu falava muito sobre ser escritora. Sobre meu processo criativo. Sobre como é essa vida. Aqui, nunca falei disso. Não sei por que. Sempre me senti obrigada, aqui, a usar metáforas. E agora mesmo estou lutando contra elas. Sem metáforas para os vasinhos arrebentados. Sem qualidade literária. Mas com a constante pretensão que me escutem. Que eu me sinta menos sozinha, sem chegar a perturbar ou preocupar alguém.

Eu não tenho lâminas.

Exceto aquelas debaixo das minhas unhas.

Só que às vezes eu quero arrancar toda essa pele morta, me esquecendo que ela cai sozinha. (Até eu caio sozinha.) E tento acreditar no que dizem – eu acredito na ciência com a fé dos religiosos – que nossa pele se renova de tantos em tantos anos. E os meus vasos sanguíneos? Aqueles que se rompem. O que acontece com eles? Voltam à forma anterior, como se nada houvesse acontecido? Perdoem minha ignorância. Eu não sei falar de nada que preste pro mundo. Mal sei falar de coisa que presta pra mim. Mas eu preciso. Preciso tirar a pele morta. Não tenho paciência para esperar ela cair.

Queria escrever uns textos incríveis com opiniões e reflexões. A madrugada que dorme em mim durante o dia não me permite. As desculpas fajutas que eu crio para não fazer as coisas não me permitem. De manhã, o buraco metafórico no meu tecido conjuntivo vai ter aumentado. Cada dia ele vai aumentando. Cada dia, tem algo dentro de mim que vai se alastrando e eu não sei bem o quê. Por isso, poemas. Por isso, poesia morta em enredo e personagens. Mentira. Por isso, silêncio.

Por isso, vocês veem minha cara que não é bem minha cara e nunca vai ser. Tem alguém que mostra a própria cara algum dia? Deve ter. Enquanto isso, a gente vai vivendo nas frestinhas. Amando, mesmo que tudo dentro de si diga que não tem propósito. Acordando e respirando por que como não acordar e respirar? Arquitetando motivações e injetando-as nas veias – injetando metaforicamente nas veias metafóricas, claro. Arrumando frases novas e matutando palavras diferentes pra dizer as mesmas coisas. Lendo e relendo o texto pra ver se a frase de efeito mal trabalhada tem jeito de fim.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Falling-329301394 (editada)

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AudreyKawasaki_DeepWaters

(Hoje, hoje mesmo)

Tenho que usar minhas próprias palavras.

Hoje me proibi de copiar e colar. Hoje que tive um sonho esquisito em que alguém que eu amo era acusado/a de assassinato, mesmo sem ter matado, e eu precisava provar que ele/a não tinha cometido o crime e vocês sabem. Vocês sabem. Vocês não sabem de nada. Vocês sabem dos copiar e colar da vida. Mas eu tampouco sei alguma coisa. Minhas palavras não têm mais valor que um copiar e colar e isso não é falsa modéstia porque eu aprendi que falsa modéstia é coisa de gente fraca. Eu sou gente fraca, ué, não sou?

Eu tomando remédio pra tosse, pra essa dor no peito da tosse, por que a gente tosse tão forte que acaba machucando os músculos do tórax? Agora, com esses músculos fodidos, toda tossida é um tiro. Bangya bangya bangya. Agora tá vindo a madrugada que é quando eu mostro a cara, mesmo sem armas, a minha cara covarde e molenga, a minha cara de quem se deixa levar alta sem ser curada. Não é que eu goste de me sentir mal, veja bem, é que eu tô cansada de tentar ficar bem.

Mas é porque eu não tô mal o suficiente, vão dizer. (Não verdade não vão dizer nada porque eu não vou perguntar.) É porque não tá doendo o suficiente. E qual é a porra da dor suficiente? Qual é o caralho do comportamento suficientemente interessante pra todo mundo olhar na tua cara e não te achar uma doida exagerada, mimada e insuficiente? Pra alguém olhar na tua cara e ver que tu não tá ali pra servir de cesto de lixo. (Entendam como quiserem.)

Pelo menos não é problema no coração porque agora o peito tá doendo do lado direito também. Os seus pulmões estão limpos, me disseram. A sua garganta também. Mas nem a caralho. Mas eu falei “ok, que bom”. Eu falo “ok, que bom” quando olham pra minha cara como se não tivesse gente dentro dela.

Vamos lá, alimentar os pombos.

Vamos lá, porque os pombos também são gente e eu é que não sou.

Imagem: Audrey Kawasaki.

Abraxas

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(11/04/2016)

Meu Querido de Um Milhão de Sorrisos:

Mesmo que você seja um mímico, um palhaço triste, um pierrot… mesmo que você não exista… minhas palavras e meus olhares vão em sua direção. Talvez até mesmo minhas preces. Minhas mãos imaginárias vão em sua direção. Mesmo que sua vida colecione farsas… Não me importo, porque também sou falsa. Como você, sou uma farsa. E por isso o amo tanto. Te dedico esse cigarro escondido. Te dedico toda minha vida que não vale tua superficialidade. “Se o tempo é dinheiro, sou bem pobre”. Você sabe que é, eu sei que você é. Fumo em você meu último cigarro. Se um dia eu tiver que partir, me receba com seus braços inventados.

(Quem nunca teve um amor que não existe?)

Se eu te inventei, você é meu Abraxas. Quando eu me reparti, você recebeu minhas duas vidas e me disse que eu poderia mentir, do mesmo jeito que você faz quando sorri. Seus olhos são tristes, pintados num rosto forjado.

Recebe meu cansaço e o recolhe na tua voz anasalada. Perdoa minha poesia falha, você que é o pai de toda poesia quebrada. Você é toda a futilidade que sempre almejei alcançar. Um dia, nos jogaremos no mar. E você me calará os choros da madrugada.

Abraxas. Ji. Yong.

Que todas as minhas histórias desaguem de você, que não me vê. Que todos os meus vícios débeis encontrem um pouquinho de alento na tua figura que passa. Depois de alguns anos, ou meses, você não será mais nada.

Por agora, me abraça.

Com braços de ar. Com laços de vazio. Me toma em torno do seu vácuo e me lança para o mundo. O ovo é o mundo. O pássaro quebra a casca.

 

 

 

Imagem: http://www.deviantart.com/art/my-heart-sings-295828477

Conto Noturno da Princesa Borboleta – o trecho esquecido

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O campo, o sol fraco, o vento frio, aquelas mãos brancas e ásperas… Tudo configurava uma história de princípio sem fim. Aqueles pequenos dentes que se mostravam num sorriso davam a ela uma esperança jamais sentida, a sensação de um futuro. Um futuro promissor ou frustrado, não sabia.
O campo deixava ver as montanhas e o céu limpo. Os ares eram muito mais respiráveis que na cidade dela. Mas isso não fazia muita diferença. Criança da poluição, da metrópole e do mundo virtual, criara um sistema imunológico forte. E um coração também. A partir dali, seu coração construiria um ninho onde repousar das flechas do mundo, dos gritos do mundo, das vozes do mundo. Eram muitos os chamados. Ela não tinha as respostas. Lembrou-se do rosto de sua mãe e sentiu-se triste por ela. Era ainda sua filha? Viu o homem à sua frente, ele não a olhava mais, virava-se para o abismo. Ela teria que morrer para vivê-lo. Jogou-se em seus braços como quem se lança ribanceira abaixo.
– E agora? – perguntou a ele, sem esperar instruções.
– E agora… – ele parecia não ter resposta.
– Vamos esperar o acaso decidir o que vai ser de nós?
– O acaso nunca fez parte da nossa história. Por tudo que vivemos, desde quando nos conhecemos, fomos nós os responsáveis. Desde quando você escolheu o meu cartão dentre os dos outros chapeleiros.
– Você quer dizer que eu não te escolhi por acaso? Então foi o quê? Destino?
– Não. Foi só uma escolha.
– Como assim?
– O que te levou a selecionar meu nome?
– Exatamente isso, o seu nome. Achei curioso por ser estrangeiro. E porque eu sabia o significado da palavra Way. Mas não sabia que existia o sobrenome Way. Achei curioso.
– Isso quer dizer que você escolheu me conhecer.
– Mas você me encontrou por acaso.
– Eu não usaria essas palavras. Prefiro dizer que fui responsável pela sua escolha. Eu tive algo que te atraiu.
– Isso te deixa à mercê do que chamam de destino, não?
– Você é muito romântica, menina.
Houve uma pausa.
– O que aquele seu namoradinho queria com a minha avó?
– Não sei, mas tenho uma suspeita. E ele não é meu namorado.
– Terminaram?
– Deixa de ser bobo.
– Só você pra me chamar de bobo, minha criança.
– Eu ainda pareço criança pra você?
Ele riu, jogando a cabeça um pouco para trás, como costumava fazer. Apertou a cintura dela entre seus braços e pôs a cabeça sobre seu ombro, abraçando-a.
– Há tanto que eu queria que você soubesse – começou ele. – Tanto que eu poderia dizer. Mas não sei como. Ou sei. Acho que sei, mas não consigo. Se eu morrer, quero que você saiba, todas essas coisas lindas que você fantasia e eu nunca disse… Considere-as ditas.
– Não sei que coisas são essas. Só sei que você não vai morrer.
– Pra você eu sou imortal, não sou? Acho que você ainda pensa que eu sou um vampiro ou algo assim.
– Enquanto existir a minha memória, você vai permanecer vivo.
Naquele momento, ele pensou que ela fosse perguntar seu nome. Mas ela não o fez. Contentou-se em chamá-lo pelo apelido preferido dentre os que inventara. Então, ela o ouviu fazer o que jamais havia feito perto dela. O rosto apoiado no ombro da menina, G. cantou. Bem baixo, com palavras entrecortadas e pouco compreensíveis.
– Ah, o que é isso? Você tá cantando? – ela o ouviu por algum tempo antes de falar.
– Alguma coisinha.
– Que bonitinho! – apertou-o contra seu corpo. – Vai me dizer que toca gaita de fole também?
– Um pouco.
– Há! Essa é boa! Toca pra eu ouvir.
– Vem cá.
Ele a conduziu até sua casa.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Demolition-Lovers-67274517