ANUNCIAÇÃO – 1. Paris (35 – 33)

ANUNCIAÇÃO

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais
Tu vens, tuvens
Eu já escuto os teus sinais

(Alceu Valença)

Quando você está fraco, você fala sozinho.

Você me disse uma vez que nunca deixa de se sentir sozinho, que só eu amenizo a sua desconexão com o mundo. Mas, pra mim, nós somos como dois pontos em retas paralelas. Dois pontinhos minúsculos como todo ponto, por mais que você se veja como um sol e a mim como outra estrela de igual magnitude. Eu não me vejo além do espaço em branco entre duas linhas cheias de letras. Letras, letras. Vírgulas, espaços. Na sua língua existem vírgulas? E espaços? Nos comunicamos em inglês. Sempre. Um idioma que não é meu nem seu. Por isso, nos entendemos pouco por palavras.

A milésima vez que te vi foi a primeira que você me viu.

Foi em Paris, uma cidade da qual não gosto e você finge gostar. Talvez eu finja também. Só parei em Paris porque decidi que não queria pegar outro avião para ir de Londres a Turim. A melhor opção era o trem que fazia uma parada em Paris. Você foi pra lá porque se escondeu. Nunca lembro o nome dos bairros; além de não gostar da cidade, não falo francês. Gare de Lyon. Um hotelzinho safado perto da estação de trem. A Europa é cheia de hoteizinhos safados que cobram os olhos da cara. Deveria ter ficado uma noite lá e partido para Turim. Mas seu rosto, mais uma vez, me atrasou.

A primeira vez que te vi – digamos oficialmente – foi em Hong Kong.

Você tinha vinte e oito anos e estava no auge. No palco, o rosto com a mesma expressão da estátua de Buda que vi certa vez na antiga casa de Jim Thompson transformada em museu, em Bangkok. Um Buda sereno, olhando pra baixo, num quase sorriso. Você, sem tirar nem pôr. Seu rosto tão, tão, tão asiático. Mesmo que “asiático” seja genérico para falar de você, é tão perfeito quanto “sul-americana” para me descrever. Essas duas características abrem uma brecha intransponível entre nós dois. Supostamente. Porque nós a transpusemos.

A primeira vez que você me viu foi em Paris.

Na porta de um restaurante coreano na Bastille. Você fumava um cigarro, a cabeça enfiada em uma touca de lã, a barba rala por fazer, óculos redondos de aro dourado que eu não sabia se eram por miopia ou por estilo. Não tinha mais vinte e oito anos. Pro resto do mundo, talvez a idade tivesse começado a enfear seus traços lapidados de ídolo. Não pra mim. Seus olhos naturalmente semicerrados, felinos, me sacudiram inteira.

Precisava dar um jeito de falar com você, ignorando seu desconforto por alguém o ter reconhecido, ou não seria capaz de seguir meu caminho. Nem tinha um caminho, pra começar. Na manhã seguinte, um trem para Turim. Pra que um trem para Turim? Pra que um hotel meia-boca em Gare de Lyon? Pra que um avião de volta pro Brasil dali a não sei quantos dias? Pra que qualquer lugar que não fosse a calçada do restaurante coreano, que não fosse seu cigarro, que não fosse sua touca preta de lã e seus óculos dourados?

Mesmo desconfortável, você me olhava.

E eu me sentia voltando no tempo, até Hong Kong, até dias um pouco mais jovens.

Acendi também um cigarro. Te pedi um isqueiro, ainda que tivesse um na bolsa.

Quantas pessoas o haviam reconhecido nos últimos anos? Ali, longe do seu país, longe da sua era de glória internacional. O cigarro foi queimando rápido demais. O seu. O meu era puxado com nervosismo todinho para dentro do meu pulmão. Eu imaginava meu pulmão preto ganhando mais um pontinho escuro. Aspirei também o final da sua fumaça. Rezei pra que ela me matasse um pouco.

Você deu um passo.

Seu sapato era um Dr Martens básico, seguro, que refletia vagamente seu passado de ícone da moda.

Chamei seu nome – não o artístico, o real – sem o sufixo honorífico que sua língua determina, e assim ele me pareceu cru, errado. Íntimo demais. Você se virou para me olhar e eu quis engolir a palavra de volta, as seis letras romanizadas escritas dentro da minha cabeça como se existissem de verdade, como se não fossem impostoras, forjadas pela linguagem para que eu fingisse compreender e ousasse pronunciar uma palavra que jamais me pertenceria.

Hoje, esse encontro me parece impossível de ter acontecido.

Você me respondeu com um arquear de sobrancelhas.

Eu disse meu nome e ofereci minha mão.

Nem um sorriso. Mesmo assim, não havia frieza na sua boca. Tampouco nas suas sobrancelhas.

Mais tarde, eu descobriria que seu esbanjar de sorrisos dos anos de fama o havia transformado num homem sério. Não fechado ou taciturno. Mas agora você preferia guardar o sorriso do lado de dentro. Ele continuava existindo, só que virado do avesso e confortavelmente acomodado junto ao forro de veludo da sua alma. Tinha certeza que você era todo forrado de veludo – seu tórax, suas costelas, até seu crânio. Um interior acolchoado e bem-acabado em veludo de seda como os sobretudos que você costumava vestir.

De certa forma, antes de você chegar, escutei seus sinais. De longe. De longe no tempo, que é ainda mais longe que no espaço. Você já havia me inspirado tantos livros, tantas noites despertas e tantos passos deliciosamente errados. Acabou que você, durante todos aqueles anos de espera unilateral, se enfiou também entre as linhas pretas e a página branca. Minha página. Minhas linhas. E, quando aceitou apertar minha mão estendida, seu passado e seu presente dançaram entrelaçados num só corpo diante dos meus olhos. O fracasso que eu era, estranhamente, tornou-se menos romântico. Ficou claro o amálgama decadente que nos últimos anos atendia pelo meu nome. Porque seus olhos refletiram com primor a luz de uma estrela morta. Senti-me brilhar.

Você me perguntou se eu queria beber alguma coisa. Sugeri o restaurante coreano logo ali, você negou. Levou-me a um bar na esquina da mesma rua, as pessoas francesas bonitas e jovens ignorando o frio nas mesinhas do lado de fora. Você queria sentar na área externa e eu tive que lhe dizer que sou brasileira, que era a única por ali de luvas, que o máximo de frio no meu Rio de Janeiro atingia dez graus a mais que aquele fim de outono em Paris. Você riu um pouquinho, de leve, com o canto da boca e ficaram bem nítidos os dois anos a menos que você tinha em relação a mim. Diferença irrelevante, mas dá pra ver numa hora dessas. Eu te olhei sendo um garoto por dois segundos naquele sorriso, depois se convertendo no homem de trinta e três anos novamente ao tirar os óculos e coçar os olhos cansados. Nós estamos nos tornando uma juventude exausta, afirmando que os trinta são os novos vinte, mas querendo desistir de tudo aos vinte e cinco. Chegar à minha idade é uma vitória.

Seus olhos ficaram ainda menores depois de vermelhos, os cílios curtos como se nascessem para dentro, mesmo assim nada maculava meu desejo por aqueles olhos colados ao meu pescoço. Até sua quase imperceptível falta de simetria, que eu considerava um atrativo, detinha a harmonia necessária a pôr ordem no mundo. Todas as vezes que escrevi sobre você, falhei miseravelmente em descrever sua beleza. Todas as vezes que criei subterfúgios diegéticos para falar de você sem falar de você, sua foto na tela do meu computador permaneceu injustiçada.

Queria poder discorrer sobre as cores daquela noite. Sobre os sons fragmentários daquela língua estranha, arranhada, da qual entendíamos pouco ou nada. A ambientação que permitiu nossa aproximação. Mas eu me lembro só do seu rosto e do frio. Não o frio em si, que a calefação do bar não nos permitia sentir, mas do frio presumido e antecipado. Do quanto eu quis pegar sua mão no caminho até meu hotel e enfiá-la dentro do meu casaco. Do cigarro que dividimos – o meu último, o seu já havia acabado – à espera de um táxi.

Tão logo entramos no carro, minha cabeça tombou no encosto e meus olhos se fecharam.

É aqui que tenho medo de continuar e parecer tola ou frívola. Mas preciso dizer que cometi o primeiro erro de todos dentro daquele táxi. Em minha defesa, é imprescindível assumir esse erro, por menor que seja. Deixei minha mão escorregar do colo e roçar a lateral da sua. Aquele toque banal lembrou minha adolescência, quando aproveitava qualquer brecha para provocar contato físico com o garoto de que gostava. Um braço apoiado no ombro fingindo cansaço, um ajeitar da gola da camisa. Agora, depois de adulta, voltava a me deixar envolver por tal tentação pueril. Quase o ouvi dizer: “Você sabe que vai pra cama comigo hoje, por que está tentando me cortejar?”

A verdade é que eu ainda não sabia se seria capaz de te seduzir, por mais que você já tivesse entrado no táxi comigo e permitido que eu te levasse a qualquer lugar de minha preferência. Você aproximou o nariz do meu pescoço, depois os lábios, sem chegar a encostar, aproveitando-se do meu cochilo fingido. Saltei no banco, de susto e desejo, e você riu. Fiz sinal de silêncio, dedo em riste sobre os lábios, os olhos ainda fechados. Minha mão foi arrastada pela sua, senti as unhas roídas na minha palma que logo foi pousada entre suas coxas. Dentro das minhas pálpebras, você nos seus vinte e pouquinhos anos correndo com seu cabelo descolorido pelas ruas de Londres num clipe musical. Em cerca de cinco páginas, cuspi tantos nomes de cidade que vão começar a pensar que sou uma mulherzinha mimada que mal tem dinheiro para pagar o aluguel do conjugado onde vive, mas esbanja viajando pelo mundo. Até certo ponto, é verdade. Por outro lado, grande parte do mundo descobri através dos seus olhos – e de um outro meio de transporte peculiar, mas isso deixo como assunto para páginas futuras.

Minha mão apertou os músculos da sua coxa sobre o tecido grosso da calça jeans. Aquelas pernas ainda deveriam ser as mesmas, musculosas e quase femininas, tatuadas e lindas. A unha roída do seu indicador raspou nos pelos do meu braço, o que certamente o colocou a par da minha situação vergonhosa. Você sabia que me tocar daquele jeito, ali dentro do táxi, não levaria a nada além de elevar meu desejo a níveis dolorosos. Os dez minutos do trajeto se desdobraram em outros tantos e parecia que o tempo, em vez de avançar, dava passos para trás.

Quando chegamos ao meu quarto, você tirou a touca e passou a mão pelos cabelos. Pretos, longos na frente, bem batidos nas laterais – o corte muito semelhante ao de antigamente. Larguei minha bolsa na mesa franzina que fazia vezes de escrivaninha e te ofereci uma cerveja do frigobar. Fiquei pensando se você não estaria incomodado pela falta de espaço e de luxo.

– Nós esquecemos de comprar cigarro – foi a primeira coisa que falou.

Ri porque você usou a palavra “nós”.

Vasculhei minha mala e encontrei dois maços de Lucky Strike, daqueles que a gente aperta uma bolinha no filtro se quiser mentolado; empilhei-os sobre a pretensa escrivaninha junto ao isqueiro que tirei da bolsa. Você acompanhou meus gestos com satisfação, mas não fez menção de apanhar os cigarros. Em vez disso, tirou a jaqueta de couro. Primeiro a touca, depois a jaqueta e, então, a camisa. Olhei-o se despir, petrificada, e me arrependi de não ter pegado uma cerveja ou qualquer coisa para engolir naquela hora. Você ficou nu na minha frente e eu ainda vestida, embasbacada, tentando lidar com minha falta de ação perante seu corpo disponível.

Amava suas tatuagens de gosto duvidoso. Uma referência a um anime japonês no ombro esquerdo, escritos em italiano logo abaixo da junta interna dos cotovelos, dois “x” sobre o umbigo, uma carinha sorridente na mão esquerda entre o polegar o indicador, uma frase em inglês nas costelas, a obra de um artista nova-iorquino no antebraço direito, a linha de uma coroa no esquerdo, duas palavras imensas em letra serifada, uma em cada coxa. Porém, a mais impressionante era a de um anjo sem rosto na nuca, cujas asas monumentais se estendiam pelos dois lados do pescoço.

Escondi as asas sob minhas duas mãos, como se recolhesse sua vida dentro do meu toque.

Você não me falou sobre vazio e frustração com essas exatas palavras. As exatas palavras nunca saíam da sua boca. Mas era como se seu corpo sobre o meu – enquanto você contava pedaços da sua história – perdesse peso e lutasse contra a gravidade. Seria meu papel atá-lo à terra de novo enquanto suas frases desarrumadas, encapadas de tranquilidade, fluíam por seus lábios junto com a fumaça do cigarro.

Contou que foi contratado por sua agência aos doze anos. O presidente pedia que você compusesse duas músicas todos os dias antes de dormir, não importava muito se sairiam boas ou não. Ele o estava treinando para fazer o trabalho dele de produtor desde aquela época, porque sabia que você era capaz de liderar seu grupo, que não era como os outros garotos daquela indústria. Na época, você pensava se tratar de um privilégio enorme, ter certa liberdade artística em meio a um mercado de ídolos padronizados.

– Não imaginava que já estava sendo lapidado para também me adequar a um padrão – disse.

– Porque você tinha doze anos. O que a gente pensa quando tem doze anos?

– Acho que você pensava muita coisa – seu inglês soava anasalado, o finzinho de cada palavra sumindo no fundo da garganta, lembrando um pouco o sotaque do sul dos Estados Unidos. Havia um esforço para pronunciar como um nativo, o qual derrapava toda vez que uma estrutura gramatical mais complexa se fazia necessária.

Eu realmente pensava muita coisa aos doze anos. Sempre pensei muita coisa. Nada que prestasse. Foi assim que virei escritora.

– Com a maturidade e o sucesso, comecei a me enxergar como os outros me viam. Não havia ninguém como eu. Obviamente, isso me isolava. E qualquer deslize meu seria o suficiente para pôr à prova minha moral.

O mesmo público que o abraçava estava sempre pronto para devorá-lo.

Afaguei seu cabelo como que para dizer que jamais me voltaria contra você daquela maneira. Seu corpo se retesou. O carinho não era absorvido por ele com a mesma naturalidade que o sexo. Tive um pouco de pena, mas refutei o sentimento porque tentava me convencer que você não o merecia.

– Pode me dar um cigarro? – pediu. Era estranho o jeito como você falava, com palavras demais, formal num idioma de poucas formalidades como o inglês. Muitas palavras desnecessárias.

Você se ergueu para que eu me levantasse. Peguei um dos maços sobre a mesinha e o trouxe para a cama, junto com o isqueiro. Era um isqueiro ridículo com a imagem de uma arara, que eu tinha comprado por dois reais numa banca de jornal no Centro do Rio. Por algum motivo, eu gostava daquele isqueiro, talvez justamente por ser ridículo. Puxei dois cigarros e pus um na sua boca. Não queria mais ouvi-lo falar, na verdade. Sua história não era novidade pra mim. Seu corpo tinha me deixado dolorida, de um jeito bom, como que estufada e preenchida por dentro. Queria que você chupasse meus seios como minutos antes, porque assim eu poderia parar de fingir reações a tudo que você contava, como se não conhecesse cada um daqueles fatos, como eles não fossem páginas impressas e afixadas nos murais da minha própria história.

No meu país, as pessoas tendem a culpar os outros pelas próprias falhas – eu disse. – Parece que no seu elas culpam a si mesmas por tudo, inclusive pelas desgraças alheias.

Há tanto orgulho da baixa criminalidade, da falta de violência, que não se enxerga a violência verbal como um problema. Você deve conhecer como ninguém o peso das palavras.

Gostaria de ter perguntado se já havia lido algum livro meu, mesmo que traduzido para o inglês e não na sua língua materna. Mas achei melhor não. Nenhuma resposta me deixaria satisfeita. Caso você dissesse que sim, não haveria mais maneira de tentar esconder o fracasso que eu era. Contudo, se a resposta fosse negativa, eu me sentiria renegada e preterida como nunca antes.

 

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Untitled, 2017-2

Coisa estranha.

Como se depois da minha obra você tivesse se tornado outra pessoa. Seu rosto mudou (talvez algum procedimento estético), seus olhos se apagaram. Algo sumiu dentro de você. Foi roubado. Depois de todas as bizarras coincidências que envolveram meu processo de criação e sua vida, as coisas que escrevi e depois, em questão de horas, apareceram na sua rotina (girassol, cabelo vermelho, título de música), é como se aquele cara sobre o qual construí minha narrativa tivesse se transformado em um desconhecido.

Talvez tenha sido o contrário. É possível que a transformação tenha partido de mim. Eu te criei e te extingui. Pode ser que você não mais exista.

Você ficou ali nas minhas folhas. Sinto saudade. Um pouco de culpa por ter te deixado. E por ter criado uma relação com alguém que é meio gente, meio personagem. Um híbrido amorfo, um amálgama com quase nada de realidade. E ao mesmo tempo tão palpável, como se sua pele tivesse vestido minha alma.

Eu também. Sou metade real. Metade inventada. Também criei a mim mesma neste delírio.

A beleza que eu dei ao mundo foi rejeitada. Não interessa. É cada dia menos importante face à psicopatia coletiva que vivemos.

Um pouquinho de significado.

Há ainda no que eu faço?

No que você faz?

Há ainda um pouquinho de amor – de conexão – no rosto da multidão?

Pelo menos, há brilho.

E palco.

E luzes.

E tecidos e aviamentos que se balançam com o movimento do nosso corpo. E, sim, admito, um pouco ainda de significado (pra mim é tudo).

As veias cansadas da minha mão querendo explodir meu sangue pra longe de mim. A apatia no nosso rosto sonâmbulo. Se matar de trabalhar pra não gritar, sozinhos no eco da nossa mente.

Presos entre a vida e uma outra coisa.

Untitled, 2017

Triune - Margaret Keane

Quantas frases eu gastei até chegar aqui? Minha mente as consome e não sobra nada. Morar na própria mente e ela ser a casa errada. Guardar citações de Anne Sexton, Sylvia Plath, Sarah Kane. Todas essas mulheres que sucumbiram. Endeusar as mulheres que sucumbiram como se elas fossem heroínas. Ter nervoso da minha própria cara oleosa, do meu sono, pensar em me drogar com um remédio prescrito. Pensar em me calar mais um pouco. Tem limite pro quanto conseguimos nos calar? Tentar resistir à força das paredes que se fecham. Quem já lutou contra a própria mente defeituosa que sabe. Não há como saber de outra forma. Eu não tenho que ser interessante. Eu não tenho que ser forte. Eu não tenho que ser uma companhia divertida. Eu não tenho nada. Eu só não queria ficar sozinha na minha mente. As portas se fecham. Principalmente de madrugada. E na hora do almoço. E no trabalho. E quando eu tenho que subir num palco, bem assim, reduzida a nada, e olhar pra cara das pessoas tentando suprir expectativas que duram, pra elas, dois segundos. Pra mim, uma vida. Dois segundo depois, já não se lembram de mim. Dois segundos depois sou eu e minha mente pra sempre. Sem um alívio. Com os dedos doendo de digitar. Perdida entre os toques do teclado. Tentar entrar na mente das pessoas porque a minha já me expulsou. Ouvir as pessoas falando comigo e o som de suas vozes ecoando dentro da minha cabeça vazia, sem ser absorvido, sem ser compreendido. Se isso tem nome, se é doença, não sei. Só sei que não é saudável. Mas vamos parar de demonizar as doenças, principalmente as da cabeça. Vamos parar de esperar que as pessoas sejam fortes. Louvável não é só ser forte. Louvável é conseguir fazer tudo que eu faço estando em pedaços.

Não vamos adornar a dor.

Não vamos colocá-la num pedestal. Isso só parece tentador pra quem nunca se contorceu de dor. Devo estar falando bobagem. Cada um lida com a dor do jeito que dá. Devo estar repetindo outras palavras, parafraseando tantas escritoras que tenho lido ultimamente, tantos fragmentos de frases, tantas outras que tentam não sucumbir, como eu. Tantas que são grandes. Eu não sou grande. Eu sou grande. A gente é as duas coisas ao mesmo tempo. Uma porção de coisas. Aos poucos. Aos bocados. A gente é aos bocados.

Eu não quero enlouquecer.

Não tem nada bonito em perder o controle, em se desfragmentar, não tem nada romantizável. Mas a gente não pode esconder quem é. Se esconder é como morrer. Eu quero mostrar minha cara, minha alma pulverizada. Quero bater nas teclas enquanto eu ainda for capaz de mandar nos meus dedos e de coordenar meu pensamento, mal e porcamente, para dentro da página. Bater nas teclas com força. Fazer barulho. Com raiva. Com dor. Com a lágrima barrada no lábio. Ou com os olhos secos da madrugada.

Eu quero a proximidade das pessoas que amo. Eu admiro as que não recuaram. As que se assustaram eu perdoo. As que não se importam eu não posso julgar. Não posso querer. Eu sempre tentei ser boa. Mas agora não dá mais pra tentar. Não vou me desculpar pela minha dor.

Imagem: “Triune”, Margaret Keane.

I need somebody. I ain’t got nobody. (Hello?)

Eu luto com isso. Com a distância das pessoas, com não conseguir entender, com não ser entendida, com o medo de falar. Eu luto contra estar sempre em outro lugar. Deveria ser adulta, na idade do amadurecimento, coisa que é natural pras outras pessoas pra mim é bloco de cimento. Uma parede d’água. Hoje eu vi as cataratas. Hoje vi você nas cataratas. Senti o cheiro que inventei pra você e lutei mais um pouco pra minha mente não pifar. Estou lutando agora. Você está? Está em algum lugar?

Não dormi, não chorei. Ontem, ao te ver no palco, eu amei. As outras pessoas que eu amo se tornaram uma sombra. Eu me tornei uma sombra. A gente, nós, mulheres, a gente nasce aprendendo a ser sombra e foi isso que eu virei. Te disseram que você seria luz. Eu quero ser luz. Eu quero lutar, mas transformada em luz. Isso não faz sentido. Nós deveríamos ser iguais na luta e na solidão.

Num ônibus saindo de Niagara, onde você provavelmente (foi coincidência, juro) está hospedado, e a chuva cai. Eu queria a chuva. É verão e aqui faz calor de verdade. Pelo menos, hoje fez. Eu encontrei minha voz no curto circuito mental. Minha voz ecoa nessas planícies fantasmágoricas, minha voz não deixa que eu me apague.

I need somebody. I ain’t got nobody.

Sou uma estrela ao contrário. Estou perfeitamente misturada no meio de tanta gente. Você, isolado de tanto brilhar. Eu, apartada de mim mesma e do meu rosto igual a tantos outros. Sem destaque. Irreconhecível.

Quero gritar. Talvez esteja doente. Minha idade me diz que, se for depressão de novo, dessa vez não vou aguentar. Tenho alguém que eu amo do outro lado dessa cortina ilusionária. Alguém que ainda não desistiu de mim. Fui sendo desistida por quem me amava. Só sobrou ele. Minha vida com ele é clara e feliz. Mas, no momento, estou separada de mim mesma e não posso tocá-lo.

Quanto tempo mais ele vai aguentar? Talvez ele não tenha ciúme de você porque você é só um brilho distante, um amor febril. Um algo que não se pode chamar de amor. Essa estrada a milhares de quilômetros a qual eu percorro sozinha e que já se descaracterizou, não sou mais eu. Minha cara de novo desbotada pela chuva.

Ontem, depois de te ver no palco voltei sozinha pro meu apartamento alugado. Ele fica numa área bem residencial de Toronto, quieta, perto de um parque. Caminhei pelas estradas solitárias que cortam o bairro, a partir do metrô, e quis me perder no meio das árvores. Você fez com que eu quisesse me embrenhar na morte verde e me deixar pra lá. Por lá. As palavras também começam a pifar. Tenho sono. Dormi quatro horas essa noite e o ônibus voltando de Niágara está preso no trânsito. Amanhã eu volto pra casa. Acho que parou de chover. Você está dormindo?

Não pensei que fosse ficar tão abalada. Obrigada.

Faz diferença quando você pode colocar sua dor num pedestal e transformá-la em espetáculo? Quando você pode projetar o próprio rosto num telão e tentar se confessar em meias palavras à multidão. Quando parece que alguém escuta.

uma linha fraca

Goldfish girl - Ken Wong

O que a gente produz quando está com sede e sono e TPM?

Pronto, enchi minha garrafinha. Pra que se torturar com coisas tão simples, que a gente pode logo resolver e depois se perturbar com torturas mais complexas? Como, por exemplo, a bateção em ponta de faca que é essa vida literária escrota e cruel e cheia de adjetivos porque essa porra não é meu livro e eu posso meter adjetivos até a goela. E repetir palavras. E não ter uma praga de uma história, de uma trama, de uma fodaseajornadadoherói. E foda-se quem espera que meu livro seja a biografia de uma boneca sexualizada e sem alma. Qual o fetiche com mulheres-robôs que vocês têm? Eu não tô acostumada a olhar pras pessoas – mesmo membros de boyband – e enxergar corpinhos sem uma alma dentro, considerando “alma” como esse troço que tem dentro da gente que faz de nós pessoas. Há quem tenha problema com a palavra “alma” porque denota algo religioso (seilá), mas aí você usa a palavra que lhe aprouver, não sou dona das palavras e de seus significados. Quer dizer, até sou. Todo escritor é. E, por mais que cada tentativa de linha escrita me tire um pedaço, eu sou feita de um zilhão de fragmentos e acho que ainda vou resistir por um bom tempo (eu menti, meio que menti, meio que não – não ando com muita esperança nessa minha profissão-vocação-função).

A minha garrafinha tá com água em temperatura ambiente porque eu esqueci de encher as garrafonas que ficam na geladeira. É uma água mais insossa que as outras, principalmente porque o clima ainda está um pouco quente. Estou falando da água pra ganhar tempo. Pra ganhar linhas. Há muito não tenho tido pensamentos estranhos. Por isso minhas linhas andam tão fracas e eu perco o fôlego antes do fim delas. É por isso mesmo? É por nada. Nada. Vazio. Zero. Inventar mil coisas bonitas fake e preencher uma página. Fazer como tanta gente, ter preguiça. Não acessar o nosso lado que intimida e conforta ao mesmo tempo, através dessas mesmas palavras. Escrever é não pensar nada que preste, é oferecer isso ao mundo e esperar que lhe deem algo em troca. É ingênuo e ridículo, mas as pessoas ficam por aí pensando que é sublime e superior. É rir dos adjetivos. E amá-los. E olhar pra eles nos olhinhos frívolos e declarar esse amor. É amolar a faca na qual você vai dar o murro.

O meu nome na capa: ele é fraco. É mais fraco que minha linha. A boneca, então, me vende. Ela diz que eu tô querendo ser sexy e sem “alma” (ahá), que eu sou uma linda 2D refletindo em todos aqueles personagens tão eróticos quanto. Você escreve três dúzias de reflexão filosófica, de forte conteúdo emocional, de criação e destruição (or so you think)… e a galera se apega a um punhado de putaria. A putaria é a putaria. Ela é linda, perfeita, não há nada de errado com ela. Mas tem gente que nem sabe interpretar (aproveitar) a porra da putaria.

A poesia não presta.

A putaria não presta.

A seriedade e a qualidade são um troço que deus-me-livre.

Eu não tô aqui pra isso, sério mesmo. Tô aqui é pra mostrar minhas quinas tortas, amassadas pelo tempo e pelas porradas, e ver se tem alguém com vontade de se chocar contra elas pra criar seus próprios amassados. Eu tô aqui, também, pra me curar. De não ser verdadeira – porque ninguém é, mas a gente pode tentar.

 

 

Imagem: Ken Wong.

Debaixo da unha

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Já falei de silêncio. E já falei de vozes. Mas na verdade todo esse tempo eu queria era ter falado dessa coisa que fica no meio, entre silêncio e vozes. Dessa coisa que não se cala e não se cospe. Dessa madrugada engasgada.

Mas essa coisa não se fala. Esse é o problema dela. E essa coisa também não se cala, é óbvio. Então, minhas unhas mandam. Minha pele rasga. Hoje mesmo consegui um roxo na perna de tanto coçar e eu não sei por que. Parece que rompi uns vasinhos perto do joelho sem querer. Claro que foi sem querer. Eu acabei de apagar uma frase por me sentir culpada. Uma frase, como tantas outras coisas, que as pessoas guardam para não se sentirem culpadas. Culpa é isso. É carregar um monte de peso morto. É carregar as frases deletadas bem debaixo da unha. Da unha que arranha a pele e rompe os vasinhos.

Eu tinha um blog-diário anônimo. Comecei no primeiro dia desse ano e escrevi uma página por dia (eu dizia que era página mas era só um post, às vezes tinha um parágrafo ou uma linha, às vezes um pouco mais que isso) até maio. Consegui seguir com o diário por cinco meses quase completos. Mas agora sinto falta dele. Nele, poucas coisas restavam debaixo da unha. Mesmo assim, sinto que aqui posso ser mais eu mesma. Usar um outro nome e uma outra cara é uma ilusão de liberdade. Aqui, por mais que meus silêncios culpados recortem meus textos, pelo menos a cara é minha. O nome é meu. E isso vale mais que qualquer verborragia anônima.

No outro blog, eu falava muito sobre ser escritora. Sobre meu processo criativo. Sobre como é essa vida. Aqui, nunca falei disso. Não sei por que. Sempre me senti obrigada, aqui, a usar metáforas. E agora mesmo estou lutando contra elas. Sem metáforas para os vasinhos arrebentados. Sem qualidade literária. Mas com a constante pretensão que me escutem. Que eu me sinta menos sozinha, sem chegar a perturbar ou preocupar alguém.

Eu não tenho lâminas.

Exceto aquelas debaixo das minhas unhas.

Só que às vezes eu quero arrancar toda essa pele morta, me esquecendo que ela cai sozinha. (Até eu caio sozinha.) E tento acreditar no que dizem – eu acredito na ciência com a fé dos religiosos – que nossa pele se renova de tantos em tantos anos. E os meus vasos sanguíneos? Aqueles que se rompem. O que acontece com eles? Voltam à forma anterior, como se nada houvesse acontecido? Perdoem minha ignorância. Eu não sei falar de nada que preste pro mundo. Mal sei falar de coisa que presta pra mim. Mas eu preciso. Preciso tirar a pele morta. Não tenho paciência para esperar ela cair.

Queria escrever uns textos incríveis com opiniões e reflexões. A madrugada que dorme em mim durante o dia não me permite. As desculpas fajutas que eu crio para não fazer as coisas não me permitem. De manhã, o buraco metafórico no meu tecido conjuntivo vai ter aumentado. Cada dia ele vai aumentando. Cada dia, tem algo dentro de mim que vai se alastrando e eu não sei bem o quê. Por isso, poemas. Por isso, poesia morta em enredo e personagens. Mentira. Por isso, silêncio.

Por isso, vocês veem minha cara que não é bem minha cara e nunca vai ser. Tem alguém que mostra a própria cara algum dia? Deve ter. Enquanto isso, a gente vai vivendo nas frestinhas. Amando, mesmo que tudo dentro de si diga que não tem propósito. Acordando e respirando por que como não acordar e respirar? Arquitetando motivações e injetando-as nas veias – injetando metaforicamente nas veias metafóricas, claro. Arrumando frases novas e matutando palavras diferentes pra dizer as mesmas coisas. Lendo e relendo o texto pra ver se a frase de efeito mal trabalhada tem jeito de fim.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Falling-329301394 (editada)

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AudreyKawasaki_DeepWaters

(Hoje, hoje mesmo)

Tenho que usar minhas próprias palavras.

Hoje me proibi de copiar e colar. Hoje que tive um sonho esquisito em que alguém que eu amo era acusado/a de assassinato, mesmo sem ter matado, e eu precisava provar que ele/a não tinha cometido o crime e vocês sabem. Vocês sabem. Vocês não sabem de nada. Vocês sabem dos copiar e colar da vida. Mas eu tampouco sei alguma coisa. Minhas palavras não têm mais valor que um copiar e colar e isso não é falsa modéstia porque eu aprendi que falsa modéstia é coisa de gente fraca. Eu sou gente fraca, ué, não sou?

Eu tomando remédio pra tosse, pra essa dor no peito da tosse, por que a gente tosse tão forte que acaba machucando os músculos do tórax? Agora, com esses músculos fodidos, toda tossida é um tiro. Bangya bangya bangya. Agora tá vindo a madrugada que é quando eu mostro a cara, mesmo sem armas, a minha cara covarde e molenga, a minha cara de quem se deixa levar alta sem ser curada. Não é que eu goste de me sentir mal, veja bem, é que eu tô cansada de tentar ficar bem.

Mas é porque eu não tô mal o suficiente, vão dizer. (Não verdade não vão dizer nada porque eu não vou perguntar.) É porque não tá doendo o suficiente. E qual é a porra da dor suficiente? Qual é o caralho do comportamento suficientemente interessante pra todo mundo olhar na tua cara e não te achar uma doida exagerada, mimada e insuficiente? Pra alguém olhar na tua cara e ver que tu não tá ali pra servir de cesto de lixo. (Entendam como quiserem.)

Pelo menos não é problema no coração porque agora o peito tá doendo do lado direito também. Os seus pulmões estão limpos, me disseram. A sua garganta também. Mas nem a caralho. Mas eu falei “ok, que bom”. Eu falo “ok, que bom” quando olham pra minha cara como se não tivesse gente dentro dela.

Vamos lá, alimentar os pombos.

Vamos lá, porque os pombos também são gente e eu é que não sou.

Imagem: Audrey Kawasaki.