OS CADERNOS DE FRANK: “O Tempo é alguém” (ou A vez em que meu peito ficou cheio)

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– Doutor, meu peito está cheio.

Piscou seus olhos avermelhados de albino na minha direção, fingindo que me olhava, sem me ver de verdade. Ele quase não falava comigo, mas exigia que eu colocasse para fora tudo o que pensava ou sentia. Era minha primeira semana de terapia com o psiquiatra-chefe.

Percebi que ele não diria palavra até que eu desenvolvesse meu raciocínio. Sendo assim, não houve alternativa além de continuar tentando explicar de forma verbal e abstrata uma sensação concreta e física, de algo que literalmente se movia dentro de mim.

– Às vezes, penso que é água. Fico inchado. Tudo que mais desejo no mundo é que alguém enfie uma seringa entre minhas costelas e sugue esse líquido pra fora. Mas já há algum tempo não me sinto mais assim. De uns dias pra cá, comecei a ter certeza que o que está enchendo meu peito é areia.

– Areia? – seus olhos estavam tão estreitos que cheguei a ter a impressão de que ele estivera dormindo durante todo o meu discurso.

– Sim. Porque sinto os grãozinhos escorrendo bem devagar entre meu pulmão e meu estômago, como numa ampulheta. É uma sensação porosa

– Seus pulmões não têm ligação com seu estômago – pela primeira vez, ele me interrompeu.

– Isso foi o que eu aprendi no colégio. Por isso, estranhei o que aconteceu comigo. Meus sistemas se ligaram pra fazer de mim uma ampulheta viva.

– …

– Uma vez que toda a areia caia pro meu estômago, meu peito vai ficar vazio de novo.

– E o que acontece então?

– Preciso ser colocado de cabeça pra baixo.

– Para que seu peito se encha de novo.

– Sim.

– Seu peito não pode continuar vazio?

– Não sei. Pode?

– …

– Não pode – afirmei. – Sendo assim, ele se encheria de água novamente. É uma sensação bem desconfortável, água no peito. Tão logo peixes começariam a nadar nela, e isso me causaria um enjoo do caralho, e novamente teriam que vir as seringas. E aí o que eu faria com os cadáveres dos peixes? Será que eles escorregariam pro meu estômago e seriam digeridos lá?

– Não acha que seus pulmões se encheriam de ar, como todos os outros?

– Não depois de se tornarem metade de uma ampulheta.

O doutor respirou fundo de maneira inexpressiva, sem significado algum, e trocou o cotovelo que apoiava no tampo de vidro que cobria a mesa de madeira.

– O senhor sabe qual é o problema? A areia que está chegando no meu estômago não é nada confortável. Ela irrita as paredes e não reage bem com o suco gástrico. Ter o peito cheio é uma sensação péssima. Porém, um estômago preenchido por areia é um terror inimaginável, o senhor não faz ideia.

Seus olhos piscaram duas vezes seguidas. Tic, tac.

– Não faço ideia.

De repente, me dei conta do barulhinho quase inaudível dos ponteiros do relógio de parede que pendia sobre a cabeça do Doutor. Uma pessoa é capaz de passar horas dentro de uma sala sem sequer ouvir o ruído dos ponteiros de um relógio. Contudo, uma vez que se perceba a existência deste som, é impossível deixar de ouvi-lo e de se incomodar com ele. É como despertar de um sonho bonito para uma triste realidade.

– Seu tempo acabou – disse o Doutor.

“Mas a areia não cobriu nem um décimo do meu estômago”, eu quis falar. Meu tempo estava longe de acabar, por mais que eu o sentisse correndo dentro de mim.

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O INFINITO NO MEIO

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Eu queria ser duas pessoas.

A vida seria ideal se eu fosse duas pessoas.

Não sei se alguém já desejou algo semelhante. Com certeza já. Nossos sentimentos são inéditos apenas para nós mesmos. E essa sensação de ineditismo é que nos tira do eixo. Todos os sentimentos já foram sentidos por todo mundo. Não sou única.

Mas isso não desata minha questão.
Saber disso não abranda minha luta.

Eu queria ser duas pessoas.

E, como não posso ser duas pessoas, passei a viver pela metade.

Meu nome é Cecília e para mim o tempo parou.

Isso não é uma metáfora.

Gosto de ficar no escuro, de caminhar pelo longo corredor do apartamento até o meu quarto, de madrugada, em completo breu. Minhas trevas são opcionais; lâmpada alguma jamais queimou porque, aqui dentro, as coisas não estragam, não sofrem o peso do tempo que as fariam perecer. Não há poeira no ar daqui e o motivo disso não consigo imaginar. Cheguei até a duvidar da existência do ar. Mas eu respiro. Esta é uma certeza. Não sou um fantasma, não morri. Já vi fantasmas, sei exatamente como são, e eles não têm nada a ver comigo.

Eu tenho carne e substância. Tenho um corpo. Apesar de não precisar comer – minhas células nunca perderam nutrientes desde que o tempo parou –, sou saudável. E, obviamente, não envelheço. Vocês podem ter a impressão equivocada de que sou uma espécie de vampiro. Também já conheci um e garanto que inexiste qualquer semelhança entre nós. Por isso, é desnecessário dizer que o sol não me incomoda e que não preciso beber sangue para me nutrir (não necessito de tipo algum de alimento). Contudo, a maior diferença entre um vampiro e eu é que aquele não passa de um espírito – se é que podemos chamar assim – velho num corpo jovem. Eu, por minha vez, tenho a mente tão inexperiente e imatura quanto meu corpo, por mais que meu discurso aparentemente seguro de si possa vir a enganá-los. É provável que minha razão e meu emocional tenham sido privados do desenvolvimento adequado devido ao meu confinamento no “infinito no meio”, sem me relacionar com qualquer criatura do mundo exterior, há quase trinta anos. O que não significa que eu seja sozinha. Ou que não converse com ninguém. Aqui, neste que um dia foi o apartamento onde vivi com minha falecida mãe e que há muito se transmutou no “infinito no meio”, é o lar de todos os seres desabrigados no mundo das coisas explicáveis, o mundo lá fora. O que chamam de preternatural vive aqui. Ou, pelo menos, aparece de vez em quando.

Com frequência recebo a visita de fantasmas. O que a maioria ignora, porém, é que eles não são obrigatoriamente espíritos de gente morta. Existem fantasmas de pessoas vivas. E era um desse tipo que mais aparecia para mim: meu irmão Vicente aos 25 anos, a idade que tinha quando o vi pela última vez. Ele sempre surge com sua farda da aeronáutica, azul-imaculado, e sua gritante barba ruiva. Vicente era ruivo – o único da família sabe-se lá por qual aleatoriedade genética – e seus cabelos luminosos destoavam do tom castanho comum do restante de nossos parentes. Eu sou igual aos outros.

O fantasma de meu irmão conversa comigo, pergunta como estou, recorda nossos mais belos dias juntos. Vicente me olha e fala comigo como se fosse de carne e osso; entretanto, todas as vezes que tento tocá-lo, sua imagem se esvai da minha visão.

Vicente é a maior dor que já existiu dentro de mim.

Vocês me perguntam como sei que me encontro na mesma situação há quase trinta anos se para mim o tempo parou. Parece um paradoxo, mas a resposta é bem simples: lá fora nada mudou. Os dias passam, as noites chegam, as horas e os anos se vão. Eu sei disso. Eu vejo. Porém, das janelas e das portas para dentro, tudo permanece imutável. Os poucos aparelhos eletrônicos e os eletrodomésticos não pifam ou param de funcionar. Suas peças são como minhas células: estáticas. Sendo assim, recebo as informações do exterior através de uma televisão e um rádio que já eram antigos antes do “infinito no meio”. Eu acompanho o mundo que a mídia me permite acompanhar, o mundo que vejo através das minhas janelas, mas este mesmo mundo ignora minha existência. Vivo numa ilha de esquecimento.

Vivia, até Nathan aparecer.

Quando vi Nathan pela primeira vez, não soube dizer se quem estava parado à minha porta era um garoto ou uma garota. Bem mais alto que eu, esguio e de estrutura delicada, apesar dos ombros largos. Seu rosto, branco empoado. Os cabelos muito finos, mas em abundância, cobriam-lhe a testa. Tinham uma linda cor castanha bem escura e logo despertaram em mim uma admiração inquieta. Ele parecia um jovem nobre em uma corte francesa rococó, só que sem a peruca espalhafatosa. Seus ares aristocráticos faziam com que o uniforme de entregador parecesse um disfarce. Ou uma piada. Nathan tinha olhos pintados a mão por um verdadeiro artista. Seu perfume era doce e marcava presença. Não pude deixar de convidá-lo para entrar. Mesmo porque ninguém havia tocado a campainha do “infinito no meio” antes dele.

– Boa tarde – cumprimentou com sua voz melódica e tímida.

Eu estava aturdida demais para falar. Provavelmente me julgando mal-educada e blasé, Nathan estendeu o embrulho da farmácia e me informou o valor devido.

– Eu não pedi nada – foi tudo que consegui balbuciar.

– Não pediu?

– Não.

Ele era educado demais para perder a paciência, mas seu olhar me dizia: “Isso não é problema meu. Se você não pagar a conta, o dinheiro vai ter que sair do meu bolso”. Como eu o explicaria que não tinha dinheiro algum comigo? Se por acaso procurasse pela casa, encontraria algumas notas espalhadas pelas gavetas dos móveis, contudo como eu justificaria serem estas de cruzeiro?

– Não liguei para a farmácia, mas não quero te prejudicar. Entra.

Convidei-o, porém não tinha certeza se ele seria de fato capaz de entrar no “infinito no meio”.

– Qual o seu nome?

Ele me respondeu, me encarando como se eu fosse louca, e deu alguns passos acanhados para dentro.

– Sou Cecília – esforcei-me para soar normal.

Rezei para que nenhuma criatura do “infinito no meio” surgisse enquanto eu entrava no quarto, deixando Nathan sozinho na sala. Sobre minha cômoda, havia um porta-joias, do qual tirei uma tornozeleira de prata. Era um presente de Vicente, meu irmão mais velho, como todas as outras tantas joias que eu guardava ali. Aquela não me faria falta.

– Aqui – voltei à sala e ofereci a tornozeleira ao entregador. – Você consegue no mínimo três vezes o valor da nota se vender isso.

Ele obviamente não fazia ideia do que se passava comigo e me encarava quase como se eu fosse perigosa.

– Eu posso telefonar para a farmácia e explicar a situação da senhora.

– Não me chame de senhora. Quantos anos você tem?

– Dezoito.

– Então…

E vendo que estava prestes a dizer a minha idade, vinte e dois anos quando o tempo parou, calei-me. Não me soaria natural apenas pronunciar o número, ignorando os anos sobressalentes que vivi sem envelhecer.

– A joia que te dei vai servir para cobrir o desconto no salário, é prata.

– Não é isso… – murmurou ele.

– Você quer uma água?

Meus olhos gritavam:

“Por que você veio até aqui?”

Fingi que li nos dele:

“Por que você não quer que eu vá embora?”

Quando vi que ele estava se virando para a porta, prestes a tocar na maçaneta, quase ofereci uma das garrafas de conhaque que meu pai havia deixado para trás quando nos abandonara. Todos tinham ido embora. Primeiro meu pai. Depois, meu amado irmão. Por último, minha mãe. Permaneci sozinha – com exceção das criaturas sobrenaturais mencionadas anteriormente – até o momento em que aquele entregador de farmácia tocou minha campainha.

Foi quando, sem qualquer motivo aparente, decidi abrir o embrulho que Nathan trouxera. Pensei que meus olhos fabricavam o que eu via em conluio com minha imaginação. Cinco caixas do barbitúrico que meu irmão costumava tomar todas as noites. Cinco caixas. A exata quantidade que seu médio prescrevia toda vez que ele marcava uma consulta. Se não me falhava a memória, a venda daquele tipo de medicamento fora proibida há anos. Na época, já era conhecido seu alto grau de dependência e a possibilidade de morte por depressão respiratória e cardiovascular se administrado em excesso, mas, ainda assim, o médico de Vicente os receitava. Meu irmão era considerado por todos, inclusive pelo doutor da família, um homem de responsabilidade e caráter exemplares. E, se tomasse sua medicação na dose correta e nos horários adequados, sua conduta seria irrepreensível. Apenas eu conhecia os verdadeiros sofrimentos do meu irmão, seu lado obscuro, suas fugas e perturbações. Eu era a única que esfregava suas mãos trêmulas, recolhia suas lágrimas e prendia sua cabeça junto ao meu peito, murmurando que tudo ficaria bem. Suas crises passavam. Ele ingeria sorrisos e mentiras, como diria Sylvia Plath, e seguia seu caminho.

Chorei. O saco de papel rasgado na mão, os olhos assustados de Nathan sobre mim. Nada havia naquele mundo nem no outro lá fora que fosse capaz de impedir meu choro. Não há coisa alguma concreta, abstrata ou metafísica que nos impeça de chorar.

Quantas vezes eu havia chorado por Vicente?

Quase tantas quanto por mim mesma.

O menino se aproximou de mim e fez menção de me tocar. Retraí meu corpo. Pedi a ele, entre soluços, que fosse embora. Antes de sair, seu olhar apontou as caixas de remédio que eu tinha acabado de derrubar no chão, temeroso.

– Mesmo que eu tentasse, tenho certeza que não conseguiria morrer – tranquilizei-o.

No fim daquele mesmo dia, quando me deitei para dormir, senti seu cheiro nas juntas da minha mão direita e me perguntei quando ele a havia tocado. Como o fez sem que eu percebesse? Ou fui eu que, sem me dar conta, aproximei minha pele da dele? O fato era que seu perfume perdurou junto a meus poros durante todo aquele dia. Meu espírito sonhador tentava me convencer de que havia algum significado naquela percepção tão repentina.

Será que Vicente sentiria ciúmes de Nathan, se por acaso soubesse dos sentimentos e sensações refletidos em mim por aquele encontro? Vicente jamais saberia, mas ainda assim… Nathan era quase tão feminino quanto eu e certamente mais gracioso. Não haveria motivo para ciúme. Uma relação carnal entre nós dois era impensável… Tanto quanto teria sido inconcebível qualquer envolvimento semelhante entre Vicente e eu. Estava bem no meio desse pensamento doloroso quando subiu ao meu nariz o perfume, depois de tantas horas ainda grudado na minha mão.

Minha existência, por essência solitária, havia se acostumado com a falta da companhia de semelhantes. Entretanto, uma vez que o mundo exterior tinha aberto uma frestinha em sua crosta impenetrável e expelido Nathan para dentro do meu “infinito no meio”, tornou-se impossível retornar à suposta tranquilidade de antes. Uma vez parte do meu universo particular, mesmo que durante poucos minutos, Nathan se acoplou às suas paredes e transformou sua ausência num pequeno buraco negro. Minha paz era suavemente sugada para dentro de sua falta.

Levantei da cama em agonia. Eu sentia sede, por mais que não necessitasse ingerir líquidos, da mesma forma que sono, mesmo que as noites só existissem lá fora (mas a claridade e a escuridão entravam por minha janela). Bebi um copo inteiro d’água na cozinha, enchi-o novamente e o coloquei sobre a mesinha de cabeceira. Fui até meu armário e o abri, na esperança de encontrar o vampiro que lá dormia de vez em quando, fugindo da luz do dia que logo viria. Eu escutaria com prazer alguma de suas histórias sanguinolentas de matança, mais agradáveis que as lembranças que afloravam em mim naquela madrugada. Esse pensamento me assustou. Como eu era egoísta e me tornara mais fria que um morto, mesmo em vida. Nessa subvida. Mesmo depois de tantos anos, não me sentia à vontade com meus próprios sentimentos. Dizem que o tempo cura tudo. Mas para mim, o tempo parou. Minha ferida jorra sangue.

Na manhã seguinte, eu contemplava os pontinhos luminosos que pairavam rente ao vidro da janela da sala. Chamava-os fadas, mesmo que aquelas minúsculas moças fulgurantes jamais tenham falado comigo e se apresentado propriamente. Elas emitiam um som muito agudo, mas em volume baixo, que tinha a propriedade de me acalmar. As fadinhas não conversavam comigo, nem olhavam na minha direção por mais que eu tentasse capturar sua atenção. Certa vez, cheguei a envolver o corpinho de uma delas com a mão, mas a reação foi uma elevação de temperatura tão grande que ganhei uma queimadura de primeiro grau. Ainda arde, por isso ponho compressas nessa mão (a direita, por sorte – sou canhota) todos os dias desde então. Nenhuma ferida se cura aqui. Às vezes, me pego imaginando como seria se eu acidentalmente me cortasse. Meu palpite é que o machucado sangraria sem cessar – o que faria a alegria do vampiro hóspede do meu armário. Ou então, o sangue estancaria, mas o corte continuaria aberto. Lembro que, certa vez, reuni coragem e perguntei ao vampiro por que ele não se alimentava de mim.

– Nenhum sangue corre neste lugar – foi sua resposta.

Ponderei sobre essa declaração dias a fio sem, contudo, chegar a qualquer conclusão sobre seu significado. Não tenho como saber até que de fato ocorra, por isso prefiro ignorar a resposta. Não há fórmulas para o que acontece aqui dentro.

Do lado de fora da minha janela, havia uma praça. Nela, um parquinho para crianças, antigas mesas de xadrez, um recente conjunto de aparelhos para ginástica e até uma pequena ciclovia. A praça era frequentada por gente de todas as idades. Os aposentados nunca largavam seus jogos de dama e cartas, não importava a hora ou o dia. Contudo, eu sabia que era fim de semana quando a praça ficava repleta de mães com suas crianças brincando no parquinho. Nos dias úteis, enchia-se de trabalhadores que partiam e chegavam no horário comercial devido à estação de metrô localizada a um dos lados da praça; bem como de jovens dos colégios próximos, que se espalhavam pelos bancos para bater papo e namorar – e, no fim da tarde e à noite, beber e fumar. Um dia, fui uma daquelas adolescentes. Agora era a vez de Nathan. Sua figura peculiar se destacou num dos bancos. Vestido com o uniforme da farmácia, aquela tenebrosa camisa polo verde-bandeira disfarçada por um moletom acinzentado, ele fumava um cigarro. Notei como suas calças eram justas e pareciam ostentar certo orgulho das pernas longas e elegantes. Do ângulo em que eu o observava, seu rosto estava coberto completamente pelos cabelos densos.

Não muito longe dali, um pequeno grupo de garotos com o mesmo uniforme ocupava outro banco. Apesar da camisa igual, sua aparência era tão diferente de Nathan quanto poderia ser. Em geral um pouco mais baixos, mais fortes, mais queimados de sol. Os cabelos eram batidos e um deles usava boné. Não dava para escutar de onde eu estava, mas supus que suas vozes seriam mais graves e menos afeminadas que a de Nathan. A atitude do outro grupo de garotos o repelia e, de qualquer maneira, ele não faria a menor questão de andar com gente como aquela. Por mais que seus colegas de trabalho fingissem simpatia, Nathan sabia que fariam piadas sobre ele depois.

“Esse mundo não é pra mim”, pensaria ele. Eu pensava o mesmo.

Esse mundo não é pra mim.

Esse mundo não é pra nós, Vicente.

Tantas vezes repeti esta frase como um mantra. Quando estava com Vicente ou até mesmo sozinha. Mas quem se importa? Não o mundo-que-não-era-para-nós. Nossas vozes pequenas, de pessoas pequenas, ao longo dos anos – talvez por culpa de algo que nunca entendi e que chamam modernidade – perderam o caráter revolucionário. Desbotaram. Acostumaram as pessoas. Viraram a sombra de uma revolta. Não por culpa nossa, é claro. De qualquer forma, sempre admirei mais a sombra que um objeto incide do que o objeto em si. O suave delinear das coisas me atrai mais que o excesso de luz. Que sejamos essa sombra, então… Eu divagava nestas reflexões e, quando dei por mim, Nathan tinha sumido.

Segundos depois, minha campainha tocou.

– Vim te devolver isso – ele empunhava a tornozeleira. Seu rosto estava coberto por maquiagem corretiva, provavelmente base e pó. Suas sobrancelhas tinham sido desenhadas a pinça ou cera quente.

– Já disse que não há problema.

Ele não aceitou minha recusa e apertou a corrente prateada contra a palma da minha mão direita. Devido à antiga queimadura, a pele ardeu ao contato. Deixei escapar um curto gemido de dor.

– Te machuquei? Desculpa, não queria…

– Não é culpa sua.

Sua pergunta seguinte veio brusca e despropositada.

– Posso fumar na sua janela?

Mesmo ressabiada com sua intenção de permanecer no meu apartamento, não tive outra escolha a não ser permitir. Por sorte, as fadas haviam desaparecido.

– Quer um cigarro? – ofereceu.

– Não fumo.

– Que pena. Quer dizer, que bom – e sorriu.

Os pés enraizados junto à porta, não consegui me mover nem quando ele passou por mim e se encaminhou ao beiral da minha janela.

– Você tem um cinzeiro?

Dei-lhe o cinzeiro de cristal que ficava sobre a arca da sala.

– Pelo seu jeito de ontem, me admira que tenha voltado aqui. E que esteja tão falante – um dos problemas desta minha condição é que certos comportamentos movidos pelo tato social são descartados por completo.

– Já que você é direta, vou te falar a verdade. Vim porque te achei estranha.

Arregalei os olhos, mais por interesse que por surpresa.

– E como eu também sou estranho…

E como você também é sozinho…

– Só você mora aqui?

Fui até a janela e encostei meu cotovelo no beiral, próximo ao de Nathan.

– Sim. Meu pai e meu irmão foram embora. Não juntos… Meu pai primeiro, meu irmão depois. E minha mãe faleceu.

– Isso tem muito tempo?

Pus-me a refletir se aquela era uma pergunta adequada ao que eu tinha acabado de dizer.

– Vai fazer trinta anos.

De alguma maneira, Nathan já sabia. Soube o tempo todo.

– Quando eu era pequeno, minha mãe me trazia para brincar nessa praça. Aos seis anos foi quando te vi pela primeira vez, aqui nessa mesma janela… Ou será que foi na do quarto? A moça de cabelo comprido e rosto assustado. Aos treze, enquanto matava aula com meus colegas, foi a segunda vez. A mesma moça, de cabelos compridos, rosto assustado e olhos perdidos. Como você não parecia nem um pouco mais velha, pensei até ser outra pessoa, uma irmã, prima, qualquer outra parente. Então, anteontem, te vi pela terceira vez. Doze anos depois e a mesma aparência. Nem um dia a mais. Não tive como não vir aqui na primeira chance.

– E como você sabia dos remédios? – sobressaltei-me.

– O que têm eles? Você não disse que não pediu? Por sorte, dentre as minhas entregas havia esse embrulho sem endereço, provavelmente a atendente tinha se esquecido de anotar, sei lá. Também não me interessei muito em saber… – fez uma breve pausa. – Como você faz isso?

– Não há uma técnica específica – soltei uma risada amarga.

Ele me olhou como quem suga uma resposta de dentro do meu subconsciente, como quem zomba dos meus segredos, sem abrir espaço para qualquer cinismo. Roubei de seus dedos o cigarro de filtro amarelo pela metade. Afundei a brasa no meio de seu braço, logo abaixo da barra da camisa verde. Nathan deixou escapar uma exclamação de dor e, num reflexo, afastou o braço.

– Enquanto você continuar aqui dentro desse apartamento – expliquei, – essa dor não vai passar. Você não vai sentir fome, nem sede, e seu corpo não vai envelhecer um segundo sequer.

– Como você sabe? – perguntou, incrédulo.

– Eu sou a prova. Você mesmo viu. A garota na janela de aparência inalterada.

– Não é isso… Eu quero dizer, como você sabe que é o lugar e não você? Como pode prever que comigo vai acontecer o mesmo?

– A dor da queimadura passou?

– Não, mas acabou de acontecer.

– Você pode ficar o dia inteiro aqui, não me incomodo. Não tenho como provar meu ponto de outra forma.

– Adianta eu te perguntar a razão de tudo isso?

– Não.

– Você aceitou essa situação como se fosse a coisa mais normal do mundo? – ele me olhava como se duvidasse da minha existência, como se ponderasse se eu não seria fruto de sua imaginação.

– Que escolha eu tenho?

– Sair daqui!

– Eu não posso sair – afastei-me dele e caminhei apressada até meu quarto. Na verdade, era o antigo quarto de Vicente que eu ocupei depois de sua partida.

Nathan me seguiu e, quando me alcançou, eu já estava encolhida na cama que um dia havia sido do meu irmão. O cheiro de Vicente emanava da colcha como se ele ali tivesse dormido na noite anterior. Em implicações práticas, não deixava de ser isso. Trinta anos e, ao mesmo tempo, nenhum dia. Desde que Vicente foi embora. Desde a morte da nossa mãe. Trinta anos e nenhum dia.

– Por quê? – sentou-se na beira do colchão.

– Não posso.

– Alguma coisa te prende? A porta não tem nenhum defeito. Se eu posso entrar, por que você não pode sair?

– Porque você não sou eu!

Fiz uma pausa para que minha voz caísse novamente até seu tom normal.

– Você nem deveria estar aqui.

– Foi você que me disse pra ficar.

– O seu machucado… – murmurei.

– Meu machucado ainda tá doendo! – dessa vez foi ele que se alterou. – Eu acredito em você, tá bom?

– Tudo bem. Mas saia da cama do meu irmão, seu perfume vai pegar na colcha e eu vou perder o dele.

Ele riu e se levantou. Pôs outro cigarro nos lábios. Nathan tinha uma risada meio tímida, meio ignorante. Seu riso dava a impressão de não estar entendendo absolutamente nada. Gargalhadas, assim como frases, têm seu nível de inteligência e compreensão. Por mais que o discurso de Nathan soasse esperto, sua risada o entregava.

– Você fuma demais para um garoto.

– O cigarro me faz companhia quando tô sozinho, ou seja, quase o tempo todo.

– Você não tá sozinho agora.

Ele não me respondeu, mas queria dizer que sim, estava sozinho. Eu não contava. Ele acabava de me conhecer e sequer tinha certeza na minha existência. A moça na janela, de cabelos compridos e olhos perdidos, era uma falha na ordem estabelecida. Nathan tragou seu cigarro em silêncio, encostado à parede próxima à janela do quarto, aproveitando a companhia que o vício lhe fazia.

Assim que terminou de fumar, Nathan deixou meu quarto sem dizer palavra.

Ouvi a porta se fechando na sala.

A tornozeleira ainda estava apertada na palma da minha mão direita que ardia.

Por mais que não tivesse aderido à colcha da cama, seu perfume se espalhou por todo lugar. Doce, quase enjoativo; mas com notas soturnas, pesadas como o odor das flores de velório. Nathan não significaria coisa alguma para mim se eu cruzasse com ele na rua, na época em que caminhava lá fora. Um menino afeminado, frágil, bonito. Porém um rapaz como qualquer outro. Gente comum como eu, sem brilho, sem destaque – exceto por essas nossas esquisitices. Ele, o menino maquiado. Eu, a esposa do irmão. Contudo, nosso tempo jamais foi o mesmo e, por uma falha na ordem das coisas, nós estávamos juntos.

Não havia como mudar isso.

Nathan voltou no dia seguinte, à noite. Estava quase irreconhecível. No lugar do uniforme surrado, usava uma camisa de seda cor de vinho, com um colete preto por cima, e calça justíssima de couro. Na cabeça, chapéu preto de abas largas. Seu rosto apresentava o mesmo pó claro, porém desta vez contava com lábios pintados da mesma cor da camisa e olhos delineados.

Disse que ele estava lindo.

Ele riu aquele riso de quem nada entende e me estendeu a mão. Nela, havia um aparelho celular. Já tinha visto um daqueles em propagandas na televisão, mas nunca ao vivo.

– É da minha mãe. Ela acha que perdeu.

Quando eu estava prestes a proferir uma censura, ele continuou:

– Nem vem brigar comigo, vou comprar um novo pra ela com meu próximo salário.

Nathan pegou minha mão esquerda, a que não era queimada, e pousou o celular ali.

– Vou sair hoje e vou mandar algumas coisinhas pra esse celular. Quero que você receba e veja com atenção. Sabe fazer isso?

Fiz que não.

Ele me mostrou como eu deveria fazer para receber mensagens e abrir eventuais vídeos que viessem com elas.

– E o volume fica aqui do lado, ó.

Mais fácil do que eu imaginava.

– Mas pra que isso? – perguntei.

– Você vai ver – ele sorriu.

Quando Nathan se virou para sair, quase implorei para que não fosse embora. Apenas olhar seu rosto com toda aquela maquiagem que jamais usei, seu belo corpo disposto a sair na noite e ser livre, a aba de seu chapéu que escondia parte de seus olhos e lhe dava ares de feiticeiro… Tudo isso preenchia a atmosfera do meu “infinito no meio”, junto com seu perfume, me passando a impressão de viver uma vida de verdade.

Mais tarde, chegou a primeira mensagem. O fantasma de Vicente estava sentado ao meu lado no sofá quando a abri. Nada escrito, apenas um arquivo de vídeo que eu precisava descarregar. Segui as instruções prévias e executei o vídeo. Nele, Nathan caminhava por uma rua movimentada, a passos rápidos de quem tem pernas longas, um copo de plástico com cerveja na mão. Uma risada masculina indicou que outra pessoa, obviamente, segurava o aparelho cuja câmera cambaleante enquadrava Nathan. Durou pouco mais de dez segundos.
Meia hora depois, veio o segundo vídeo. Dessa vez era Nathan que segurava a câmera, apontada para o próprio rosto, enquanto ele abria espaço numa pista de dança lotada. A música era pesada, sombria, e seu instrumental fazia lembrar ruídos de máquinas industriais. Uma voz grave, assustadora, cantava num idioma que parecia ser alemão. O visor se afastou do rosto sorridente de Nathan quando ele, ao que parecia, encontrou uma amiga. Enquanto ele a cumprimentava, minha visão foi para os coturnos que pisoteavam a pista de maneira ritmada.

Recebi diversos vídeos como aqueles durante toda a madrugada. Nathan dançando na boate, bebendo com os amigos, comprando uma garrafa de vodca no bar da esquina, conversando com uma amiga gótica sobre maquiagem, flertando com um rapaz tatuado e de moicano, retocando o batom num espelhinho, pedindo isqueiro emprestado para um estranho… Durante as exibições daqueles vídeos, senti-me como se estivesse lá com ele. E, ao mesmo tempo, enxerguei com uma clareza inédita a realidade do meu isolamento. Aqueles filmes pareciam pura ficção. Imagens forjadas de um mundo inventado.

Quando tentei tocar a mão do fantasma de Vicente, dei-me conta de sua falta de matéria pela milésima vez.

– Você não é real – disse a ele. Depois, indiquei a tela do celular na qual o último vídeo rodava novamente. – Isso é real.

– Você não é real – respondeu Vicente.

As lágrimas correram pelo meu rosto.
Os olhos muito escuros do fantasma de Vicente eram complacentes. Mas eu sabia se tratar apenas do efeito dos barbitúricos. Quanto mais expressiva sua comoção inerte, mais eu chorava, maior era minha angústia. Eu queria estar lá fora, de mãos dadas com Nathan enquanto ele abria caminho na pista de dança até encontrar um lugar menos lotado para ficar. Queria vê-lo beijar outro menino igual a ele, e depois me beijar, nossas bocas com gosto de batom e cerveja. Isso era real. Não importava o que afirmasse o fantasma do meu irmão. Eu queria dormir na cama de solteiro de Nathan, nós dois com as mesmas roupas da noite anterior e os cabelos cheirando a cigarro, até que a mãe dele nos despertasse na manhã seguinte dando bronca. Queria tomar um café na padaria com ele, para curar a ressaca, admirando sua mão pálida empunhando mais um cigarro de filtro amarelo, gesticulando, enquanto reclamava da dor de cabeça ou ria do que acontecera na festa. Queria chorar sim, mas de emoção quando ele me mostrasse uma música bonita. Queria sentir raiva, mas só dos garotos asquerosos que zombavam dele na rua. Queria poder brigar e fazer as pazes. Esquecer o que me deixou irritada ou triste. Trabalhar a semana inteira num lugar enfadonho na esperança do próximo fim de semana, da próxima festa com Nathan.

Dei-me conta do celular na minha mão e procurei o número que tinha enviado as mensagens. Disquei-o. Nathan atendeu depois de muitos toques.

– Você viu? – sua voz estava cheia de entusiasmo, alta para se fazer ouvir mesmo com o barulho ao fundo. – Quero que venha comigo da próxima vez!

– Nathan…

– Tá chorando? O que houve?

Eu não tinha o que dizer. Telefonara somente para ter companhia enquanto chorava, para não ser obrigada a aguentar a compaixão do fantasma de Vicente. E Nathan me ouviu chorar, em silêncio, fazendo questão de dizer que estava ali através da respiração dissimuladamente profunda.

– Tô indo aí – disse ele, minutos depois.

Amanhecia e o fantasma de Vicente já havia desaparecido.

Estávamos os dois sentados à mesa da cozinha, Nathan comia uma maçã enquanto contemplava fascinado os pontinhos luminosos que pairavam em volta do cesto cheio de frutas que jamais apodreciam. Seu chapéu jazia sobre o assento da terceira cadeira.
Do bolso do meu vestido florido, tirei a tornozeleira que lá estivera desde o dia anterior. Fechei-a em torno do pulso de Nathan. Ele não protestou, apenas deslizou o olhar na minha direção.

– Foi seu irmão que te deu? – perguntou.

– Foi. Mas tudo que eu tenho ganhei dele, então pode ficar.

– Não vou recusar dessa vez.

Sorri, sem graça. Nathan não sorriu de volta. Seus olhos graves pareciam perdidos em algum ponto do meu rosto.

– Saiu tudo – apontei para seus lábios.

– Perdi meu espelho, que merda.

Estendi a mão. Compreendendo meu gesto, ele vasculhou o bolso da calça até encontrar o que eu queria. Tirei a tampa do batom e girei sua base. A cor era bem pigmentada, escura e opaca. Tive vontade de experimentá-lo, mas não havia aonde ir usando aquilo. Inclinei meu corpo para frente e apoiei a mão direita em seu joelho esquerdo, enquanto pintava seus lábios, tingindo-os de vinho profundo. Como o batom era bastante fosco e quase não deslizava, tive que aplicá-lo em movimentos curtos semelhantes a pinceladas.

– Não faço isso há muito tempo, mas acho que ficou bom. Pode ir no espelho da minha penteadeira ver.

– Confio em você. Tô com preguiça de andar até lá – riu. – Me dá aqui, agora é sua vez.

– Pra quê? Não vou a lugar nenhum.

– Para de ser teimosa. Só quero ver como fica.

Nathan pintou meus lábios na metade do tempo que levei para trabalhar nos dele. Depois, ajeitou meu cabelo, jogando-o para o lado e amassando–o próximo à raiz para dar volume. Seus dedos correram pelos fios, que cobriam toda a extensão das minhas costas e alcançavam a linha do quadril. Repetiu esse gesto algumas vezes, o rosto muito próximo ao meu, tanto que eu conseguia sentir o cheiro dos cosméticos que cobriam sua pele; bem como seu hálito, uma mistura de maçã e álcool. Por fim, jogou algumas mechas por cima do meu ombro e elas se assentaram sobre meus seios. Tomou distância para conferir o resultado. Não tirou os olhos de mim pelo que pareceu uma eternidade (e, dada minha situação, talvez fosse). Pensei que estivesse enxergando através de mim, tão absortos eram seus olhos, já que no meu rosto não deveria haver nada de tão instigante ou atraente. Pelo menos não para ele.

Quando eu começava a me incomodar com a situação, o movimento das fadinhas que voavam ao redor das frutas ao nosso lado se intensificou. Era como se elas tentassem capturar nossa atenção ou, até mesmo, livrar-me daquela situação constrangedora. Não que elas se incomodassem, mas naquela hora veio a calhar.

– Essas eu chamo de fadas – expliquei, apontando os pontos luminosos. – Mas elas nunca falam comigo. Acho que não me veem. Talvez elas nem saibam que eu existo.

Não houve nenhuma alteração na postura dele.

– Nathan, eu existo?

– Se você não existe, então eu também não.

Imagem: Tom Bagshaw