OS CADERNOS DE FRANK: Uma cama nas entrelinhas

Mad Girl LetterUm dia, recebi uma carta estranha. Coloco uma cópia nestes cadernos:

É uma pena que nosso amor seja tão frágil e superficial.

Uma pena que seus lábios descorados, depois úmidos e rubros, selem de maneira tão frívola a natureza do nosso amor: frívolo. Sem camadas. Envernizado. O cerne fica por conta da minha imaginação, como sempre. Sempre retornando a delírios de sangue nas suas mãos, sangue na minha boca, sangue na nossa cama, sangue entre as minhas pernas, sangue no nosso amor inexistente.

Veja bem. (Me veja bem)

Abra seus olhos de menino negligente. Se eu pudesse, inventaria óculos para ler nas entrelinhas. E com eles te presentearia. Se eu pudesse, e isso não é surpresa, arrancaria seu coração com a unha. Porque eu sou assim. Tomando atitudes extremas por quem acabei de conhecer e não significa nada pra mim. Você não significa nada pra mim.

Se eu dissesse que quero te matar? Você deixaria.

(Pelo amor de Deus, isso é uma metáfora)

Enredar-se-ia nessa fantasia como se alguém eu fosse. Como se me visse. E, quem sabe, poderia até ver, com seus olhos-de-ver-pontas-de-iceberg, que eu moro no seu quarto mesmo sem nunca ter pisado lá. Que toda vez que, inocentemente, procuro a beira dos seus lábios é pra me agarrar do lado de lá. Onde você está. Ou onde te coloquei e você nem sabe. E você deixa. Porque seus lábios são de qualquer um, assim como minha ilusão. Quando te puxo pra mim num toque pueril, fraternal, você pode até fingir me desejar. Posso fingir que não vou sair da sala enfumaçada e correr para minha casa, de madrugada, pondo meus dois olhos numa dormente vigília de mim mesma. Quando volto pra casa, depois de te tocar a noite inteira, todas as gotas de superficialidade que brotaram em mim com meu suor se aderem à minha pele propositalmente sem banho. Eu vou me revestindo desse nada que nós somos. Eu vou me tornando nada.

Depois você volta.

Com nossos beijos castos.

Nossas camisas fechadas até a gola.

Nossa roupa todinha no nosso corpo.

Seus dedos frouxos na minha mão, nós dois feito um casalzinho coberto de moralidade. Você, a imagem da devassidão para qualquer outro/a menos pra mim – e não por falta de minha vontade – diz que devemos voltar a nos encontrar.

Você passa a corda pelo meu pescoço.

Depois, ata minhas mãos.

Não sou capaz de desfazer o nó.

Mas posso largar a corda no chão.

O que me impede de fazê-lo, o único problema real é: o que será das entrelinhas?

Nunca entendi sobre o que a carta falava. Tampouco consigo me lembrar quem a enviou.

(Imagem: http://vampiressartist.deviantart.com/art/Write-With-Your-Heart-103057264)