OS CADERNOS DE FRANK: “O Tempo é alguém” (ou A vez em que meu peito ficou cheio)

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– Doutor, meu peito está cheio.

Piscou seus olhos avermelhados de albino na minha direção, fingindo que me olhava, sem me ver de verdade. Ele quase não falava comigo, mas exigia que eu colocasse para fora tudo o que pensava ou sentia. Era minha primeira semana de terapia com o psiquiatra-chefe.

Percebi que ele não diria palavra até que eu desenvolvesse meu raciocínio. Sendo assim, não houve alternativa além de continuar tentando explicar de forma verbal e abstrata uma sensação concreta e física, de algo que literalmente se movia dentro de mim.

– Às vezes, penso que é água. Fico inchado. Tudo que mais desejo no mundo é que alguém enfie uma seringa entre minhas costelas e sugue esse líquido pra fora. Mas já há algum tempo não me sinto mais assim. De uns dias pra cá, comecei a ter certeza que o que está enchendo meu peito é areia.

– Areia? – seus olhos estavam tão estreitos que cheguei a ter a impressão de que ele estivera dormindo durante todo o meu discurso.

– Sim. Porque sinto os grãozinhos escorrendo bem devagar entre meu pulmão e meu estômago, como numa ampulheta. É uma sensação porosa

– Seus pulmões não têm ligação com seu estômago – pela primeira vez, ele me interrompeu.

– Isso foi o que eu aprendi no colégio. Por isso, estranhei o que aconteceu comigo. Meus sistemas se ligaram pra fazer de mim uma ampulheta viva.

– …

– Uma vez que toda a areia caia pro meu estômago, meu peito vai ficar vazio de novo.

– E o que acontece então?

– Preciso ser colocado de cabeça pra baixo.

– Para que seu peito se encha de novo.

– Sim.

– Seu peito não pode continuar vazio?

– Não sei. Pode?

– …

– Não pode – afirmei. – Sendo assim, ele se encheria de água novamente. É uma sensação bem desconfortável, água no peito. Tão logo peixes começariam a nadar nela, e isso me causaria um enjoo do caralho, e novamente teriam que vir as seringas. E aí o que eu faria com os cadáveres dos peixes? Será que eles escorregariam pro meu estômago e seriam digeridos lá?

– Não acha que seus pulmões se encheriam de ar, como todos os outros?

– Não depois de se tornarem metade de uma ampulheta.

O doutor respirou fundo de maneira inexpressiva, sem significado algum, e trocou o cotovelo que apoiava no tampo de vidro que cobria a mesa de madeira.

– O senhor sabe qual é o problema? A areia que está chegando no meu estômago não é nada confortável. Ela irrita as paredes e não reage bem com o suco gástrico. Ter o peito cheio é uma sensação péssima. Porém, um estômago preenchido por areia é um terror inimaginável, o senhor não faz ideia.

Seus olhos piscaram duas vezes seguidas. Tic, tac.

– Não faço ideia.

De repente, me dei conta do barulhinho quase inaudível dos ponteiros do relógio de parede que pendia sobre a cabeça do Doutor. Uma pessoa é capaz de passar horas dentro de uma sala sem sequer ouvir o ruído dos ponteiros de um relógio. Contudo, uma vez que se perceba a existência deste som, é impossível deixar de ouvi-lo e de se incomodar com ele. É como despertar de um sonho bonito para uma triste realidade.

– Seu tempo acabou – disse o Doutor.

“Mas a areia não cobriu nem um décimo do meu estômago”, eu quis falar. Meu tempo estava longe de acabar, por mais que eu o sentisse correndo dentro de mim.