OS CADERNOS DE FRANK: O Natal do outro lado

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Os dois comprimidos da medicação noturna tinham acabado de descer pela minha goela quando lembrei que era véspera de Natal. Raros pacientes recebiam visitas, algumas vezes acompanhadas por presentes. Outros mais privilegiados (a.k.a. os que davam uma grana por fora à equipe médica) conseguiam passar a data comemorativa com a família. A justificativa oficial era serem estes os internos com “melhoras significativas”.

 Eu só queria apagar rápido. Como presente de Natal, eu deixaria de receber a “visita íntima” de um enfermeiro ou guarda. Os gritos eram consideravelmente menos numerosos naquela madrugada. O choro, porém, era livre.

 Um pouco depois de sair da fila dos medicamentos, vi o adolescente japa entrar na sala de visitas. Seu olhar parecia menos perdido naquele dia, como se ele se esforçasse, como se lhe fosse negado o direito de ser emocionalmente doente perto de sua família.

 Minutos me restavam até que eu pudesse encontrar meus pais no meu inconsciente. Lá, eles seriam desequilibrados e neuróticos como pai e mãe normais. Brigariam na noite de Natal, por causa de algum prato que faltasse na ceia ou da presença de algum parente indesejado. Eu e minha irmãzinha mais nova, Alice, assistiríamos às tretas familiares mortos de vontade de dar meia-noite logo para recebermos os embrulhos sob a árvore de Natal. O meu presente seria uma boneca viva. O dela, um gatinho sorridente e listrado.

 Tal cena se desfez quando tive um breve vislumbre da realidade. Eu, meu corpo estirado sobre uma superfície dura e fria – o chão de um dos corredores do hospital – observando através de vistas turvas uma mocinha agachada num canto não muito longe. Sua mãozinha fechada em concha brilhava devido ao líquido viscoso e transparente que a ensopava. Dava pra ver os dois comprimidos babados que ela segurava. Estavam quase se desfazendo.

 Estendi minha mão. Parte porque queria tocar a sua, parte porque desejava os remédios que ela guardava.

 Ela permaneceu imóvel em sua camisola branca encardida. No take que correspondia ao meu delírio, aquela mesma menina de cabelo preto sorria, limpa e penteada, trajando um adorável vestidinho vermelho que combinava com as bochechas rosadas.

 – Me dá sua mão, Alice – eu pedia, duas vozes iguais falando em uníssono em mundos paralelos.

 Ninguém me respondia.

 – Me dá sua mão. Só esta noite.

 …

 – Me dá sua mão, Alice. Se não der, vou morrer.

 E eu morria. Toda vez que Alice se recusava a me dar sua mão, eu morria. Toda vez, outro eu nascia.

 Logo não havia mais preocupações. Pois a morte chegava e se encarregava de tudo. Cada pequeno problema, cada imenso trauma. Tudo ia embora quando a morte descia seu véu vermelho sobre mim.

 “Não está doendo”, eu pensava, enquanto sentia meu corpo se consumir. Estar vivo dói muito mais que isso.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/medication-51678057

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OS CADERNOS DE FRANK: Meu osso quebrado

Frank - Bones

Não quero me sentir sozinho.

Pensei em começar de um jeito melhor, mas a solidão rejeita adornos. A minha, pelo menos. Não que eu tenha deixado de enfeitá-la. Fiz isso até cansar. Talvez por este motivo agora ela rejeite minha poesia.

A solidão, ao contrário do que se pensa, não gosta de poesia (por favor, me abrace).

Essa coisa, que eu julgava ter me deixado por um tempo, na verdade sempre esteve ali, mesmo que recolhida no seu cantinho (por favor, me abrace). Espreitando nos buracos imaginários nas minhas paredes, me cutucando de leve, tão suavemente que eu não conseguia fingir não sentir. Eu sabia. Eu via. Tinha certeza que ela me derrubaria de novo, a solidão. Então, como mágica, ela faz o chão desaparecer sob os meus pés.

Mais uma vez como mágica, acabo de perceber que a solidão transmutou-se (esse é um verbo que tenho usado bastante ultimamente) em angústia. Quero falar com alguém, mas todos dormem. Lá fora ou dentro de mim. Só eu que não consigo dormir. Feliz ou infelizmente, não tomo mais remédios – não posso persuadir a angústia a desaparecer engolindo um comprimido. O que me resta é esperar aqui e ver se ela vira outra coisa. Sozinho. Tentar ler um livro. Não pensar. Preencher meu peito com angústias de personagens ficcionais para que a minha própria adormeça. Quem sabe eu mesmo adormeço.

Ainda, a natureza da angústia está no cenário que me repele, nas cobertas bagunçadas e jogadas aleatoriamente – como as almofadas – no sofá. (Esta não é minha casa). Em silêncio, vejo despontar um sinal de alívio. É o sono. E, talvez, alguma coisa despertada pela exteriorização destas palavras. (Amo vocês, não me deixem sozinho).

De repente, não quero mais morrer. De repente, volto a me sentir confortável na minha própria pele, do jeito que costuma ser. De repente, a manhã virá, solitária. De repente, este peso no peito vai se dissipar. De repente, as palavras são insuficientes.

A angústia – puft! – transformou-se em insuficiência. Sinto-me um idiota, mas quem nunca? E me lembro de todas as vezes em que demonstrei uma inocência ridícula, uma inteligência emocional atrofiada, uma certa afetação. Lembro-me e me odeio. Mas já passou. Não sou desses (talvez eu seja).

Esta foi a primeira vez até agora que pensei em acabar com a minha vida. Não posso afirmar com certeza, entretanto tenho a firme impressão de que isso não se repetirá. O ímpeto de se lançar ao abismo da morte não me pertence, embora minha alma seja marcada por ela – a morte – de maneira indelével. Não sei se é justo culpar a Trindade composta por Solidão, Angústia e Insuficiência pela minha queda. Não sei se quero ser justo. Só sei que hoje não tenho o orgulho quieto que sempre me acompanhou, o orgulho da minha fraqueza. Hoje, e não precisa ser o dia inteiro, nem por algumas horas… pelo menos pelos próximos segundos, quero ser forte.

Vocês que são fortes:

Deem-me um pouco dessa força.

É sério. Eu (como sempre) estou a ponto de quebrar. (Mas não é verdade aquela história que o osso se torna mais forte no lugar em que se quebra?)

Imagem: http://leexcharleston.deviantart.com/art/Iero-391888846

Essa menininha



Faz tempo eu quero matar essa menininha.
Mas, por mais que não a veja morta,
o cheiro de putrefação
sobe ao meu olfato.
A menininha já deve estar morta.
Ou não está?
Aqui tem mais versos dela do que meus.
Dentro do meu peito enterraram seu caixão.
Essa menininha.
Aquela menininha.
Ela não me viu chegar,
não me notou aqui.
Quero despojá-la junto
aos outros cadáveres.
Quero gritá-la para fora dos
meus olhos.
Essa menininha tem gosto de felicidade e sonolência.
Mas o sono que vem dela
não é esse que agora me apossa, esse sono químico.
Em uma coisa somos parecidas: não sabemos
pra onde andamos.
Só que ela não se preocupa com isso.
Não se preocupava.
Ela morreu.
Ainda vejo sua sombra na noite,
no vento escuro,
no cheiro de maresia
ou no ar saturado da cidade.
Vejo-a pairando sobre minha pele ferida.
Costurada nas minhas linhas,
desfiada nas minhas bainhas curtas.
O seu espectro
é qualquer coisa
que não sou eu.
Quero matar essa menininha.

Eu quero matar.





Imagem: “Innocence”, Shiori Matsumoto.

ÍCARO

A noite toma minhas veias com a fúria dos ventos
Ela é como um cadafalso
Ela, a noite
E ela, meu sol

A brisa toca minhas costas
E nada mais no meu céu se compara ao meu sol
Uma nuvem, algumas outras estrelas menores
Talvez um satélite obscuro
Mas o raio dourado do dia na noite
Somente pende da cabeça dela, meu sol

E me atinge de forma a me tornar cinzas
E eu queimo como quem nasce
E eu choro como quem ama
E eu amo como quem voa
Para o sol
Ela, meu sol

Se o céu clarear
refletindo seu brilho em minhas asas queimadas
Eu sei voltar pra casa
Um pouco destroçada
De alma carbonizada
E mãos ensanguentadas
Mas levitando na brisa gelada
Do caminho da sombra
Do caminho sem sol…

Cala minha voz de manhã
Pois o sol já brilhara na madrugada
Meu sol, minha paixão, minha musa, minha estrada
Eu, Ícaro-abandonada, desalada
Caio por terra
Sou seu fogo no chão.

(2008)

Imagem: http://bloodonmyfangs.deviantart.com/art/Angel-With-Black-Wings-86279333

(insira seu poema sobre solidão aqui)



sinto sua falta
da loucura que é deixar de ser eu mesma
do desnorteio
do corte profundo
da morte no seu corpo
a morte no seu corpo
eu senti quando o toquei
quando o amei
quando seus olhos, à noite, me diziam que não havia esperança
eu senti a morte
o medo         
a dúvida
a morte morando,
emanando do seu corpo
mentira

foi só o amor





Imagem: Alexandra Levasseur

Poisonpasodoble

Cada vez que eu digo algo sem sentido um machucado se abre nas minhas costas. Ou nos meus braços. Ou na minha perna. Cada hora que eu deixo de dormir é uma lei que eu deixo de decorar. Então é sangue espalhado por toda parte de novo. Desta vez ele veio do meu estômago.
Começa com um Paso Doble.

A música espanhola irascível atropela a minha consciência. Os tristes touros irrompem pela arena que é meu estômago. É um espetáculo fatal e doentio que atrai o mesmo tipo de turba que a luta entre gladiadores. Ou as execuções públicas de criminosos. Eles têm orgulho, os touros, e mais nada. Ele tem todo o resto, o toureiro, e também olhos de ninja. Ao mesmo tempo em que os mata, ele é envenenado por eles. Poison. Na plateia, eu vejo o Jack Kerouac e ele acena pra mim. Mas eu não o conheço. Conheço apenas o toureiro.

Olé, olé! Mahalo! Domo arigato!

Eu caio – como não podia ser diferente – sangrando. Ele me acertou, por mais que isso seja um clichê. Ele é o clichê, o toureiro-ninja. Suas estacas coloridas com ponta de arpão ferem meu pescoço sem me matar. Tenho forças para segurar suas mãos e adorá-lo. Choro. Suas mãos tocam meu sangue e então ele dança agitando a capa amarela e cor-de-rosa, sua taleguilla negra se move com a paixão de seus quadris e suas pernas, seu peito é branco e pétreo, contrastando com meu sangue. Logo eu não tenho mais sangue. Agora eu o enveneno. Em minhas veias correm fluidos venenosos, assim como todos os líquidos do meu corpo. Subo meus dedos peçonhentos pelos músculos de suas costas. Grito porque quero gritar. Ele quer gritar. OLÉ! Mahalo nui loa. Arigato gozaimasu.

Sussurramos.

Somos observados pelos touros mortos. 

O silêncio da morte invade nossos corpos e nos dá sono.

Dormimos. Sobre as carcaças dos nossos próprios corpos envenenados, exangues.

Ele fala comigo enquanto dorme, pelas pontas de seus dedos que – como não podia ser diferente – dançam. Pede para que eu não me deixe intoxicar pelo veneno na minha própria língua. Ignoro. Sua dança, suas estacas e sua capa colorida ainda poluem meus neurônios. Tudo está falho na minha cabeça. Como uma sequência de curtos piques de energias, ou uma tevê que ameaça perder o sinal. Foi o veneno? Foram os golpes? Foi a dança? Não arrisco quebrar o silêncio para pensar.

Ele começa a pingar sobre mim, é pó de cianeto diluído em alguma bebida forte e perfumada, cala meu corpo com uma fruição revestida de sombras.

É tarde…

Sussurra.

…demais.

Você perdeu…

Diz.

…eu ganhei.

Viva de novo.

E volte de novo para a minha arena.

Você está morta.

Mas está feliz.

Porque eu danço.

Poisonpasodoble




EXÍLIO

A vida é muito misteriosa!… É um deserto e um exílio… mas no fundo da alma, sente-se que haverá um dia PANORAMAS infinitos, PANORAMAS que farão esquecer para sempre as tristezas do deserto e do exílio…(Thérèse de Liseux)

Tive medo de ir vê-lo. Foi no meu último dia na universidade, depois da defesa da monografia. Temia principalmente pela minha mente que começava a decantar, as ideias baixando na superfície do cérebro, após um conturbado fim de décimo período. Em breve, eu seria um advogado. Aparentemente curado das perturbações mentais da infância e da adolescência, eu me tornara o filho modelo.

Minha mãe me mantivera afastado dele durante a conclusão da monografia e assim pretendia que fosse enquanto eu me preparasse para o exame da Ordem.

Me recusei e fui vê-lo.

No hall do hospital, vi minha irmã e todo aquele drama que ela arrastava por aí. Minha trágica irmã de cabelos longuíssimos e pernas maiores ainda. Apesar do verão latente, era um dia nublado e ela havia aproveitado para vestir um blazer preto de veludo. Por dentro, o clássico espartilho também negro cobria uma blusa branca de babados na gola, acompanhada de uma gravatinha de laço. A calça escura de alfaiataria pescava um pouco, destacando os oxfords pretos envernizados. Até nisso eu tinha a sensação que nós dois competíamos: quem era o mais bem vestido.

Sentada na sala de espera vazia, minha irmã fitava o nada com os olhos secos e o corpo ereto. Quem visse, poderia até pensar que se tratava de uma mulher fria.

Sentei-me ao seu lado, sem esperar por um cumprimento.

Vislumbrei o vazio como ela e, por alguns instantes, fomos ambos esfinges. Discretamente, meus olhos escorregaram um pouco nas órbitas e capturaram o grosso rosário prateado com pedras brancas envolto em suas mãos unidas. Um sopro da honestidade que ela era me atingiu como um tornado. Minha irmã sempre dava um jeito de me fazer sentir uma farsa, mesmo que permanecesse calada e quieta ao meu lado. Era um poder exclusivo seu. Eu possuía uma sensação perene de estar fazendo a coisa certa, exceto quando ela estava por perto.

– Já deixou o nome e o documento na recepção? – perguntou, a voz baixa.

– O que você acha?

Ela ergueu a sobrancelha e deixou pra lá. Voltou a se concentrar no que possivelmente se tratava de uma reza silenciosa.

– Como ele está?

– Na mesma – ela fez uma pausa, mas logo tomou fôlego. – Só assim posso vê-lo em paz, quando ele está inconsciente.

Aguardamos a autorização para entrar. Em seguida, subimos juntos no elevador. Porém, à porta do quarto, o segurança nos instruiu a entrar um por vez. Fui primeiro.

Ele estava inconsciente, conforme o esperado. Cheio de tubos e com o batimento cardíaco piscando em números verdes num monitor grande, repleto de outros numerozinhos coloridos a mim desconhecidos. Não o encontrava há cerca de duas semanas e sequer me lembrava da última vez que vira seu rosto. Pensei que me chocaria ao vê-lo daquela maneira e todo meu tão suado autocontrole cairia por terra. Pensei que voltaria a chorar como uma criancinha. Entretanto, tudo o que pude fazer foi observar seu rosto familiar e seus olhos tão iguais aos meus. Meu velho pai japonês. Tão enérgico sempre, agora apenas uma sombra do que um dia fora, um ser em suspensão. Magro e macilento, cabelos grisalhos oleosos, mãos ressecadas. Quanto a essas características, ele continuava o mesmo. Por ele, eu havia me anulado com orgulho. Apenas para ser quem ele sempre amaria, tinha valido a pena ser quem eu não era. Toquei sua testa e aquele seu cheiro de japonês ficou nos meus poros. Era uma lembrança que eu carregaria por alguns minutos depois que o deixasse ali, uma prova de que ele existia, de que ele estava lá.

– A Sumirê vem te ver, pai – murmurei ao seu ouvido e percebi que seu batimento apresentou uma leve aceleração. – Não fique bravo com ela.

Esperei, só por esperar, por uma resposta. O sinal digital do monitoramento preenchia o ar de artificialidade.

– Volta, pai – pedi. – Preciso de você na minha formatura. Tirei dez na monografia.

Minhas palavras já tinham alcançado um nível alto de falta de conexão entre si.

– Volta, pai… Por favor.

Naquele momento, a felicidade foi inesperada, mas genuína. Ele existia. Era tudo que importava. Não havia necessidade de antecipar resultado algum, negativo ou positivo.

Apertei sua mão, mas logo a afrouxei. A fragilidade de sua situação me causava um medo imenso de soltar algum tubo ou causar um aumento súbito de seus batimentos cardíacos.

Pi.

Pi.

Pi.

Saí. Minha irmã entrou.

Olhei-a através do vidro da porta e assumi que ela estivera fazendo o mesmo durante a minha visita. Na verdade, queria testar por quanto tempo era capaz de olhar para ela sem desviar. Não durou muito. Larguei-a lá e voltei para casa.

Só voltei a ver Michaela na noite de Natal, uma semana mais tarde. Uma não-noite de Natal. A casa estava cheia de gente para chorar a ausência do meu pai e a sua, como eles pareciam ter prazer em crer, possível morte. Eram tantas tias japonesas com o mesmo tipo de roupa que podiam formar um exército de velhinhas cruéis e antipáticas. Os tios, também orientais, eram todos bem-sucedidos e formais demais. Apenas uma criatura se destacava ali, a única ocidental, minha mãe. Seu rosto pequeno e de traços delicados confundia-se facilmente com o de uma mulher japonesa, porém sua pele morena e seus cabelos ondulados e volumosos eram discrepantes. Michaela era sua cópia.

A monumental árvore de Natal no meio da sala estava repleta de presentes. Aquela era uma imagem que me transportava à minha infância, ao meu Papai Noel Japonês que me fazia exultar de felicidade toda vez que chamava meu nome e me entregava um embrulho colorido. Eu, agora com mais de 20 anos, chorava por dentro a ausência daquele velhinho. Não importava quantos presentes caros eu ganharia aquela noite, não tinha graça se não viessem das mãos do meu Papai Noel Japonês. Senti o olhar de minha mãe. Minha intuitiva mãe sabia exatamente no que eu pensava. Ela, que antigamente seria a única pessoa com alguma vida naquela sala, recentemente reduzira-se à metade por causa da doença do meu pai. Pensei ter visto um mínimo movimento de seu rosto, um gesto ínfimo que pareceu indicar a janela. Esperei alguns instantes e caminhei até a janela da sala. Obviamente, ninguém prestava atenção em mim. Com exceção de minha mãe que, no meio de uma conversa pseudo-simpática um uma das tias, me observava de soslaio.

Logicamente, minha irmã não havia aparecido para confraternizar com a família, Michaela era persona non grata desde que abandonara o respeitável seio familiar para ir morar com a namorada. Eu era tão gay quanto ela. Mas meus pais jamais saberiam disso. E lá estava ela na calçada do meu prédio, o rosto voltado para cima, esperando que eu a enxergasse do apartamento do terceiro andar.

Desci.

De vestido branco cinturado e cabelos soltos, ela parecia outra pessoa. Assemelhava-se à mulher que minha mãe fora um dia, aquela da minha infância. Por um momento, me vi agarrando suas longas pernas, escondendo meu rostinho choroso no tecido macio e perfumado de seu vestido, apenas para que ela acariciasse meus cabelos e murmurasse que tudo ficaria bem.

– Feliz Natal, Raphael.

– Feliz Natal, Sumire.

Ela me deu um sorriso conformado. Ao contrário de mim, Michaela detestava seu nome japonês.

– Como estão as coisas lá em cima? – perguntou.

– Vazias.

– Como sempre.

– Não… Não era assim com ele.

– Obviamente, nós não tivemos o mesmo pai – ela desviou o olhar.

– Não sei. Não posso falar por você.

Mas ele me fazia feliz. Como que afastando essas lembranças, continuei:

– Eu vi a mãe chorar de verdade. Não aquelas lágrimas ralas dos dramas que ela assiste na tevê. Mas o rosto inchado e vermelho, com direito a soluços de criança. Foi assustador.

Michaela me respondeu com reticências. Nunca hesitava em criticar o pai, porém era nítido como se sentia desconfortável em falar sobre a mãe.

– Nós somos lutadores. Insistimos em viver, em ser felizes, em amar. Mesmo que tudo nos leve a crer ser impossível. Nós, seres humanos, não desistimos. – disse, por fim.

– Alguns sim – com certeza ela havia se esquecido da história da falsa louca que cortara a própria garganta anos atrás no hospital onde eu estivera internado.

– Às vezes eu penso em nós dois…

– O que tem pra pensar?

– Nada. Mas deveria haver alguma coisa, você não acha?

Não respondi. Ela acompanhou meu silêncio. Essa foi a única hora em que eu pensei: deve haver algo em comum, alguma coisa que conecte nossa consciência. Afinal, somos irmãos. Raphael e Michaela. Shinichi e Sumire. Meu corpo queria se afastar, mas parecia que essa minha consciência estava amarrada à dela. Ela pegou minha mão e a sua era quente demais, queimava. Seria nosso sangue que se comunicava? Se eu exteriorizasse esses pensamentos, ela me responderia que não passavam de bobagens. Minha mão, antes reta e dura, logo tomou a forma da sua.

Michaela me abraçou. E era a primeira vez que nos abraçávamos na vida.

Arte: http://browse.deviantart.com/?qh=&section=&q=hospital#/d2ekq1v