OS CADERNOS DE FRANK: Estrangeiros

Frerard3

Seus braços suavam dentro da camisa preta de poliéster. Os meus, descobertos, aceitavam seu suor da mesma maneira dolorida e carinhosa que receberam a tinta sob a epiderme. Gerard estava sempre cicatrizando em mim. Descascando, coçando, ardendo… Mas me fazendo amar cada dia mais a pele na qual eu vivia. Finalmente, eu não estava mais sozinho. Tinha certeza que essa condição sumiria no ar no momento em que nos separássemos. Entretanto, era tudo que eu tinha. Precisava me agarrar àquilo. Não saberia fazer de outra forma.

Ele disse que sentira minha falta. Só que as coisas que Gerard dizia, principalmente quando se tratava de explicitar algum sentimento, ficavam num campo abstrato demais, quase etéreo, para eu compreender. Sua frase, “Tô com saudade de você”, tinha o aspecto de uma nuvem que logo se desfaz no céu sobrenatural da sua existência. Antes que eu pudesse responder, ele já me estreitara em seus braços. Soltei o botão do seu colarinho por puro instinto, só então me dei conta de que estávamos em público. Alisei a gola de sua camisa para disfarçar. Ele riu. Sentávamos em um banco no calçadão em frente à praia e, mesmo sendo noite, a camisa social de Gerard fechada até o pescoço berrava sua discrepância. Seu rosto, quase sempre pálido, coloria-se de rosa nas maçãs por culpa das cervejas que tínhamos acabado de tomar num bar próximo.

– Parece que você vai sumir o tempo todo – reclamei.

– Eu não sou daqui, você sabe.

– Você é de lugar nenhum.

Só alguns anos mais tarde eu seria capaz de compreender que era como ele. Mesmo tendo nascido neste país e ele não, ambos éramos igualmente estrangeiros. Exilados não apenas do mundo. Exilados de nós mesmos. Gerard me beijou e soprou na minha boca a ilusão de que tudo ficaria bem. Deixei-me enganar. É a única maneira de obter prazer nessa vida, pelo menos um prazer puro, deixando-se enganar.

Ele tocou minha pele recém-tatuada. Seus dedos tinham uma aparência áspera e bruta para os de um garoto tão jovem, mas seu toque quase não pesava. Gosto de lembrar que nós dois tínhamos calos eventuais nos dedos, por ambos desempenharmos atividades manuais – os dele, próximos à junta do indicador, devido à pressão dos lápis e canetas; os meus bem nas digitais, tantas vezes machucadas pelas cordas da guitarra. Marcas de autodestruição criativa.

– Ainda bem que você fez quando eu não estava – referia-se à minha tatuagem no braço. – Sabe que eu não ia conseguir ir com você.

– Um dia vou te fazer amar agulhas.

– Isso é algo além da sua capacidade. Vai ter que me oferecer outro tipo de droga.

– Não vejo problema. Você pode beber meu sangue venenoso, se quiser.

– É o que você tem feito esses dias sem mim, né? Injetando e cheirando a vida toda – a voz dele não indicava um pingo de reprovação. Pelo contrário, ele quase sorria.

– E trepando com uma galera.

– Muito bem – deu um tapinha cínico no topo da minha cabeça.

Aquela última parte era mentira. Quem me conhece agora não dá o menor crédito quando digo que não fiquei com ninguém durante aquele período sem Gerard, mesmo que eu o tenha traído sim futuramente. Mas essa é história para outro dia.

Então ele puxou minhas pernas juntas e as atravessou sobre seu colo. Envolveu minha cintura com firmeza e me beijou de um jeito que eu teria caído do banco se não estivesse bem preso. Muitas pessoas caminhavam pelo calçadão naquela noite de verão e nós estávamos cientes de que corríamos o sério risco de sermos espancados. Contudo, desde o início da nossa relação, tínhamos selado um acordo tácito no qual concordávamos ser melhor morrer vivendo de verdade do que estar morto em vida. O tipo de coisa que sentimos quando somos adolescentes e que a – argh – experiência acaba nos mostrando se tratar de uma utopia.

– Isso é tão injusto – murmurei sem ar, minha mão direita ainda agarrada a seu cabelo. – A gente não poder transar aqui, agora.

– Que ideia!

– Não me incomodaria nem um pouco se as pessoas transassem por aí, na hora que quisessem, no lugar que bem entendessem…

Gerard gargalhou.

– O desejo não tem como ser contido, nem deveria ser escondido. Se ele partir da vontade de duas, ou mais, pessoas. Claro.

– Fico me perguntando como essas ideiazinhas absurdas brotam na sua cabeça, Frank.

Queria explicar pra ele que era humanamente impossível eu ter uma mente considerada “normal” ou “saudável”, mas naquela época ainda não me julgava capaz de falar sobre isso, mesmo com Gerard.

– Tô cansado de conversar – respondi, despindo-o com os olhos.

Isso também era mentira. Eu seria capaz de ouvi-lo calado por horas a fio, independente da quantidade de bobagens que ele dissesse se estivesse bêbado ou drogado. Gerard não costumava ser de muitas palavras, por isso eu amava quando ele bebia e se transformava num verborrágico incansável. A cerveja daquela noite fora insuficiente para embriagá-lo completamente, porém o deixara num limiar interessante. Quando ele estava chapado, a incoerência de seu discurso e o ritmo de sua voz me divertiam como poucas coisas na vida.

– Então me leva pra sua casa – ele pediu.

– Você sabe que eu não posso.

– Minha tia viajou e largou meu priminho com meus pais, ele tá dormindo no meu quarto. Acho que a gente vai ter que se segurar hoje.

– E como faz isso?

Ele não respondeu porque também não fazia ideia. Éramos incapazes de tal proeza. Se ele não me desejasse tanto quanto eu o desejava, tudo seria mais fácil. O meu desejo seria suportável e enfraquecido compulsoriamente pela falta de vontade dele. Mas estava longe de ser este o caso. E assim nós acabamos parando no banheiro de um shopping.

Não vá desaparecer de novo, eu o implorava em silêncio, enquanto meus lábios sugavam seu pescoço. A raiva era tanta que fechei meus dentes com força em torno de sua pele. Ele reprimiu um grito, depois sorriu. Suas mãos me apertavam por baixo da camiseta, eu já tinha aberto todos os seus botões. Mesmo que ele fosse embora, a visão daquele peito liso, descorado, povoaria minha mente com tamanha intensidade que eu seria obrigado a materializá-lo à minha frente para satisfazer meu desejo, não importa onde ele estivesse. Tocava seus lábios com a ponta dos dedos como se não fosse capaz de crer na existência deles, depois os mordia de leve. Sua língua logo se grudava de novo à minha, quase me sufocando. Gerard tinha um prazer mórbido em me deixar sem ar e só me afastava de sua boca quando me tocava por dentro da calça, de maneira a contemplar minha respiração pesada.

– Enquanto eu tava longe, pensei que tivesse parado de gostar de você – disse, ainda me masturbando.

– Você é um escroto.

– Devo ser. Mas é só o meu jeito de me defender.

– Defender de quê?

– De você.

Naquela hora, não entendi nada daquilo, nem pensei a respeito. Gerard sempre fora mais sábio e maduro que eu e, desde aquela época, podia prever a merda que eu o faria passar. Tentou a todo custo evitar que isso acontecesse. Mas não conseguiu.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Mannequin-153024293

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OS CADERNOS DE FRANK: G.

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Hoje ouvi alguém falar de você. Foi durante o lanche e eu não estava pensando em você. Comia meu pão de forma recheado com queijo e presunto e lia um livro de contos do Julio Cortázar. Até que estava imerso na história e faltavam dois parágrafos para a conclusão do conto quando seu nome surgiu na boca de um colega qualquer de classe. Sinceramente, não lembro o que ele disse sobre você. Tampouco me recordo os dois últimos parágrafos do texto do Cortázar.

Quando terminasse de comer no pátio interno do colégio, me enfiaria no pequeno bosque perto da pista de atletismo, longe das vistas dos inspetores, e fumaria meu cigarro. Aquele cigarro que antigamente era acompanhado por você, e que há mais ou menos dois meses eu fumava sozinho. No momento em que ouvi seu nome, foi apenas nisso que pensei. Nos minutos que passávamos ali, fumando juntos e conversando sobre assuntos dos quais não consigo mais me lembrar, mesmo tendo se passado tão pouco tempo. Ou então quando você me ouvia tocar violão encostado a uma árvore, lendo seu quadrinho em silêncio, deitado na grama. É estranho como conseguimos nos apegar tanto às pessoas em tão pouco tempo. Mas eu não deveria dizer “pessoas” quando me refiro a você. Ao ver desconhecidos passarem na rua, ou mesmo os outros garotos e garotas do colégio, funcionários e professores, toda essa gente que me cansa só de olhar no meu dia a dia, começo a me perguntar como as pessoas possuem a incrível habilidade de serem tão iguais num mundo tão grande.

Mesmo antes de tudo acontecer, quando a única saliva que trocávamos era a que ficava no filtro do cigarro, eu já não me sentia mais tão sozinho. Quando estava com você, nesses breves momentos de clareza entre uma aula e outra, observava com atenção as finíssimas veias vermelhas em volta dos seus olhos cor de folha seca. Deve ser por isso que não me recordo de nenhum assunto específico sobre o qual falávamos então. Porque nunca prestei atenção. Porém, de qualquer maneira, não é como se eu não me importasse com o que você tinha a dizer. É só que seus olhos e seus lábios ficavam no caminho entre suas palavras e meu discernimento. Mesmo assim, julgo que consegui aprender bastante sobre você. Talvez seja pretensão minha afirmar isso. Não importa mais. Agora a única visão que tenho enquanto trago meu cigarro são meus tênis sujos e as barras compridas demais da minha calça.

Não sei pra onde você foi. Muito menos se vai voltar. Talvez ainda esteja perto. Ou, quem sabe, partiu de vez de volta pro seu país obscuro e longínquo. A minha impressão é que “ir embora” faz parte da sua natureza. Você me disse uma vez que não se importaria em morrer jovem. Mas o calor da sua mão suada enquanto apertava a minha me dizia o contrário. “Me segure aqui,” pedia ela, “mantenha meus pés presos no chão. Agarre meu braço como se fosse o barbante de um balão, de maneira que meu corpo não flutue para longe dessa terra”. E era o que eu fazia. O que fiz, por um período curto demais. Pode ser que tenha sido culpa minha você ter ido embora. Não tive força suficiente para segurar o fino barbante que o prendia aqui.

Imagem: http://th02.deviantart.net/fs27/PRE/i/2008/088/9/e/Sunsets_over_NJ_by_stylistic_division.jpg