OS CADERNOS DE FRANK: Meu osso quebrado

Frank - Bones

Não quero me sentir sozinho.

Pensei em começar de um jeito melhor, mas a solidão rejeita adornos. A minha, pelo menos. Não que eu tenha deixado de enfeitá-la. Fiz isso até cansar. Talvez por este motivo agora ela rejeite minha poesia.

A solidão, ao contrário do que se pensa, não gosta de poesia (por favor, me abrace).

Essa coisa, que eu julgava ter me deixado por um tempo, na verdade sempre esteve ali, mesmo que recolhida no seu cantinho (por favor, me abrace). Espreitando nos buracos imaginários nas minhas paredes, me cutucando de leve, tão suavemente que eu não conseguia fingir não sentir. Eu sabia. Eu via. Tinha certeza que ela me derrubaria de novo, a solidão. Então, como mágica, ela faz o chão desaparecer sob os meus pés.

Mais uma vez como mágica, acabo de perceber que a solidão transmutou-se (esse é um verbo que tenho usado bastante ultimamente) em angústia. Quero falar com alguém, mas todos dormem. Lá fora ou dentro de mim. Só eu que não consigo dormir. Feliz ou infelizmente, não tomo mais remédios – não posso persuadir a angústia a desaparecer engolindo um comprimido. O que me resta é esperar aqui e ver se ela vira outra coisa. Sozinho. Tentar ler um livro. Não pensar. Preencher meu peito com angústias de personagens ficcionais para que a minha própria adormeça. Quem sabe eu mesmo adormeço.

Ainda, a natureza da angústia está no cenário que me repele, nas cobertas bagunçadas e jogadas aleatoriamente – como as almofadas – no sofá. (Esta não é minha casa). Em silêncio, vejo despontar um sinal de alívio. É o sono. E, talvez, alguma coisa despertada pela exteriorização destas palavras. (Amo vocês, não me deixem sozinho).

De repente, não quero mais morrer. De repente, volto a me sentir confortável na minha própria pele, do jeito que costuma ser. De repente, a manhã virá, solitária. De repente, este peso no peito vai se dissipar. De repente, as palavras são insuficientes.

A angústia – puft! – transformou-se em insuficiência. Sinto-me um idiota, mas quem nunca? E me lembro de todas as vezes em que demonstrei uma inocência ridícula, uma inteligência emocional atrofiada, uma certa afetação. Lembro-me e me odeio. Mas já passou. Não sou desses (talvez eu seja).

Esta foi a primeira vez até agora que pensei em acabar com a minha vida. Não posso afirmar com certeza, entretanto tenho a firme impressão de que isso não se repetirá. O ímpeto de se lançar ao abismo da morte não me pertence, embora minha alma seja marcada por ela – a morte – de maneira indelével. Não sei se é justo culpar a Trindade composta por Solidão, Angústia e Insuficiência pela minha queda. Não sei se quero ser justo. Só sei que hoje não tenho o orgulho quieto que sempre me acompanhou, o orgulho da minha fraqueza. Hoje, e não precisa ser o dia inteiro, nem por algumas horas… pelo menos pelos próximos segundos, quero ser forte.

Vocês que são fortes:

Deem-me um pouco dessa força.

É sério. Eu (como sempre) estou a ponto de quebrar. (Mas não é verdade aquela história que o osso se torna mais forte no lugar em que se quebra?)

Imagem: http://leexcharleston.deviantart.com/art/Iero-391888846

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OS CADERNOS DE FRANK: Alice, a transfiguração

Frank - Hands Colour

Quando sinto fome, penso em Alice. “Ora”, vocês dirão, “você pensa em Alice o tempo todo”. Isso não é verdade. Existem disposições físicas mais propícias ao pensamento em Alice, é bom esclarecer. Gostaria de dizer também, de forma bem clara, que o fato de minha mente buscar rotas de Alice se conecta ao meu corpo muito mais que ao chamado “espírito” ou “sentimento”. Sinto Alice no meu estômago vazio. Na minha pele friorenta. Nos meus olhos pesados. No meu sexo murcho. Nas pontadas nas minhas costas. E, por senti-la – e não vê-la – acho que estou acabando por esquecer seu rosto. Às vezes, dou-lhe o meu rosto. Ou de qualquer outro/a. Às vezes, Alice nem é uma menina. Agora mesmo, por exemplo, suas feições têm um acabamento masculino. Suas pernas são compridas e seus cabelos, espessos. Seus olhos e seus lábios, pintados de negro. Alice tem voz bem aguda de tenor, quase afeminada, e uma risada preguiçosa.

A Alice que busquei se transfigurou bem diante do meu espelho. Seu peito não tem seios, mas seus ombros continuam estreitos. Alice roubou um gole do espelho d’água sob meu rosto e matou a minha sede.

A fome, porém, quanto a esta não há solução. Falta metade do meu estômago. Esta foi arrancada por suas mãos. Ou teria eu nascido assim, defeituoso? Sem uma parte. Ao meio. O tecido da minha parede estomacal transmutou-se em seu músculo cardíaco. Meu estômago, ou parte dele, passou a bater no peito de Alice. E foi assim que ela ganhou um coração.

Discutida a minha problemática digestiva, passamos ao frio que cobre meus braços e pernas. É por ele que me conforta ver a janela fechada. Para que Alice não passe por ela. Uma vez que o vento frio consiga se deslocar um pouquinho para dentro, não há mais esperança para mim. Então, é só mais uma noite emendada na outra. A capa negra do esquecimento já caiu sobre mim e fechou meus olhos que antes vagavam em noites químicas. Minhas pálpebras dizem “isto aconteceu”, mesmo que eu saiba que ainda esteja acontecendo. O passado e o presente são gêmeos siameses.

Quanto ao meu sono, este sempre pertenceu a Alice. É seu domínio por excelência. Como Alice nunca adormecia, ela usava meus olhos para ver sonhos, para caminhar por seu mundo dentro do mundo e explorar este universo edificado por seu vazio interior. Alice não tinha nada por dentro, não vislumbrava nada do lado de fora, por isso precisou criar todo um mundo. E usou meus olhos tortos para enxergá-lo. É claro que isto não me impede de crer, por vezes, que talvez seja o contrário e Alice seja produto da minha criação. Mesmo quando meus olhos doloridos pela insônia têm vontade de se suicidar das órbitas, ainda assim – e mais do que nunca – eles pertencem a Alice. Algumas vezes, não consigo de todo diferenciar os meus dos seus.

Meu sexo é o elemento místico quando se trata de Alice. Eu a penetro todas as vezes que me relaciono com alguém. Sempre que um corpo me é oferecido, toco a pele intocada de Alice. Mas nunca é o suficiente porque, durante o ato, a magia se desfaz e eu deixo de sentir aquele corpinho cujo gosto será para mim eternamente desconhecido. Sinto a necessidade de me esvair junto com ela. Gozo como quem desaparece. Grito algumas camadas de trauma e fica tudo certo. Tenho plena consciência da ilusão. “Vamos para casa”, sussurro baixinho para o meu próprio corpo fujão.

É nos músculos das minhas costas que se cravam as noites mal dormidas e até as longas horas pós-sedação. Sobre meus ombros repousa o tempo que não passou. Todos os amantes que tive e as vidas diferentes que vivi através deles. Mais de sete. Minha pele endurecida pelas respostas que Alice não me deu. No lugar destas, gostaria que ela tivesse me oferecido sua vida cheia de perguntas para que eu a tomasse. Não possuo esse desejo sádico, mas teria tirado sua vida se assim ela desejasse. Seria melhor que vê-la morrer daquele jeito. Não é verdade. Não sou assim tão romântico. Nada, nenhum consolo, nenhum sonho, nenhuma luta, nenhuma possibilidade de ser amado, nenhum novo vazio vai apagar a ânsia de que Alice ainda estivesse viva.

Por isso, olho-me no espelho. Antes de mais nada, eu sou Alice. Mas ela não sou eu. E é aí que reside toda a minha tragédia. Estes olhos grandes e pretos – ou estreitos e verdes? – me olham sem me ver, me fazem crer que só existe o vácuo onde deveria haver meu reflexo. Muito em breve, ela/e me diz, eu vou desaparecer.

Ainda espero que isso aconteça. Porém, de alguma forma, ainda consigo esticar minhas mãos em frente ao meu rosto e vê-las. Elas ainda estão aqui. Como o resto do meu corpo, eu acho.

 

 

 

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Frank-Iero-in-Deep-Thought-280605143