Abraxas

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(11/04/2016)

Meu Querido de Um Milhão de Sorrisos:

Mesmo que você seja um mímico, um palhaço triste, um pierrot… mesmo que você não exista… minhas palavras e meus olhares vão em sua direção. Talvez até mesmo minhas preces. Minhas mãos imaginárias vão em sua direção. Mesmo que sua vida colecione farsas… Não me importo, porque também sou falsa. Como você, sou uma farsa. E por isso o amo tanto. Te dedico esse cigarro escondido. Te dedico toda minha vida que não vale tua superficialidade. “Se o tempo é dinheiro, sou bem pobre”. Você sabe que é, eu sei que você é. Fumo em você meu último cigarro. Se um dia eu tiver que partir, me receba com seus braços inventados.

(Quem nunca teve um amor que não existe?)

Se eu te inventei, você é meu Abraxas. Quando eu me reparti, você recebeu minhas duas vidas e me disse que eu poderia mentir, do mesmo jeito que você faz quando sorri. Seus olhos são tristes, pintados num rosto forjado.

Recebe meu cansaço e o recolhe na tua voz anasalada. Perdoa minha poesia falha, você que é o pai de toda poesia quebrada. Você é toda a futilidade que sempre almejei alcançar. Um dia, nos jogaremos no mar. E você me calará os choros da madrugada.

Abraxas. Ji. Yong.

Que todas as minhas histórias desaguem de você, que não me vê. Que todos os meus vícios débeis encontrem um pouquinho de alento na tua figura que passa. Depois de alguns anos, ou meses, você não será mais nada.

Por agora, me abraça.

Com braços de ar. Com laços de vazio. Me toma em torno do seu vácuo e me lança para o mundo. O ovo é o mundo. O pássaro quebra a casca.

 

 

 

Imagem: http://www.deviantart.com/art/my-heart-sings-295828477

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Conto Noturno da Princesa Borboleta – o trecho esquecido

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O campo, o sol fraco, o vento frio, aquelas mãos brancas e ásperas… Tudo configurava uma história de princípio sem fim. Aqueles pequenos dentes que se mostravam num sorriso davam a ela uma esperança jamais sentida, a sensação de um futuro. Um futuro promissor ou frustrado, não sabia.
O campo deixava ver as montanhas e o céu limpo. Os ares eram muito mais respiráveis que na cidade dela. Mas isso não fazia muita diferença. Criança da poluição, da metrópole e do mundo virtual, criara um sistema imunológico forte. E um coração também. A partir dali, seu coração construiria um ninho onde repousar das flechas do mundo, dos gritos do mundo, das vozes do mundo. Eram muitos os chamados. Ela não tinha as respostas. Lembrou-se do rosto de sua mãe e sentiu-se triste por ela. Era ainda sua filha? Viu o homem à sua frente, ele não a olhava mais, virava-se para o abismo. Ela teria que morrer para vivê-lo. Jogou-se em seus braços como quem se lança ribanceira abaixo.
– E agora? – perguntou a ele, sem esperar instruções.
– E agora… – ele parecia não ter resposta.
– Vamos esperar o acaso decidir o que vai ser de nós?
– O acaso nunca fez parte da nossa história. Por tudo que vivemos, desde quando nos conhecemos, fomos nós os responsáveis. Desde quando você escolheu o meu cartão dentre os dos outros chapeleiros.
– Você quer dizer que eu não te escolhi por acaso? Então foi o quê? Destino?
– Não. Foi só uma escolha.
– Como assim?
– O que te levou a selecionar meu nome?
– Exatamente isso, o seu nome. Achei curioso por ser estrangeiro. E porque eu sabia o significado da palavra Way. Mas não sabia que existia o sobrenome Way. Achei curioso.
– Isso quer dizer que você escolheu me conhecer.
– Mas você me encontrou por acaso.
– Eu não usaria essas palavras. Prefiro dizer que fui responsável pela sua escolha. Eu tive algo que te atraiu.
– Isso te deixa à mercê do que chamam de destino, não?
– Você é muito romântica, menina.
Houve uma pausa.
– O que aquele seu namoradinho queria com a minha avó?
– Não sei, mas tenho uma suspeita. E ele não é meu namorado.
– Terminaram?
– Deixa de ser bobo.
– Só você pra me chamar de bobo, minha criança.
– Eu ainda pareço criança pra você?
Ele riu, jogando a cabeça um pouco para trás, como costumava fazer. Apertou a cintura dela entre seus braços e pôs a cabeça sobre seu ombro, abraçando-a.
– Há tanto que eu queria que você soubesse – começou ele. – Tanto que eu poderia dizer. Mas não sei como. Ou sei. Acho que sei, mas não consigo. Se eu morrer, quero que você saiba, todas essas coisas lindas que você fantasia e eu nunca disse… Considere-as ditas.
– Não sei que coisas são essas. Só sei que você não vai morrer.
– Pra você eu sou imortal, não sou? Acho que você ainda pensa que eu sou um vampiro ou algo assim.
– Enquanto existir a minha memória, você vai permanecer vivo.
Naquele momento, ele pensou que ela fosse perguntar seu nome. Mas ela não o fez. Contentou-se em chamá-lo pelo apelido preferido dentre os que inventara. Então, ela o ouviu fazer o que jamais havia feito perto dela. O rosto apoiado no ombro da menina, G. cantou. Bem baixo, com palavras entrecortadas e pouco compreensíveis.
– Ah, o que é isso? Você tá cantando? – ela o ouviu por algum tempo antes de falar.
– Alguma coisinha.
– Que bonitinho! – apertou-o contra seu corpo. – Vai me dizer que toca gaita de fole também?
– Um pouco.
– Há! Essa é boa! Toca pra eu ouvir.
– Vem cá.
Ele a conduziu até sua casa.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Demolition-Lovers-67274517

OS CADERNOS DE FRANK: Uma cama nas entrelinhas

Mad Girl LetterUm dia, recebi uma carta estranha. Coloco uma cópia nestes cadernos:

É uma pena que nosso amor seja tão frágil e superficial.

Uma pena que seus lábios descorados, depois úmidos e rubros, selem de maneira tão frívola a natureza do nosso amor: frívolo. Sem camadas. Envernizado. O cerne fica por conta da minha imaginação, como sempre. Sempre retornando a delírios de sangue nas suas mãos, sangue na minha boca, sangue na nossa cama, sangue entre as minhas pernas, sangue no nosso amor inexistente.

Veja bem. (Me veja bem)

Abra seus olhos de menino negligente. Se eu pudesse, inventaria óculos para ler nas entrelinhas. E com eles te presentearia. Se eu pudesse, e isso não é surpresa, arrancaria seu coração com a unha. Porque eu sou assim. Tomando atitudes extremas por quem acabei de conhecer e não significa nada pra mim. Você não significa nada pra mim.

Se eu dissesse que quero te matar? Você deixaria.

(Pelo amor de Deus, isso é uma metáfora)

Enredar-se-ia nessa fantasia como se alguém eu fosse. Como se me visse. E, quem sabe, poderia até ver, com seus olhos-de-ver-pontas-de-iceberg, que eu moro no seu quarto mesmo sem nunca ter pisado lá. Que toda vez que, inocentemente, procuro a beira dos seus lábios é pra me agarrar do lado de lá. Onde você está. Ou onde te coloquei e você nem sabe. E você deixa. Porque seus lábios são de qualquer um, assim como minha ilusão. Quando te puxo pra mim num toque pueril, fraternal, você pode até fingir me desejar. Posso fingir que não vou sair da sala enfumaçada e correr para minha casa, de madrugada, pondo meus dois olhos numa dormente vigília de mim mesma. Quando volto pra casa, depois de te tocar a noite inteira, todas as gotas de superficialidade que brotaram em mim com meu suor se aderem à minha pele propositalmente sem banho. Eu vou me revestindo desse nada que nós somos. Eu vou me tornando nada.

Depois você volta.

Com nossos beijos castos.

Nossas camisas fechadas até a gola.

Nossa roupa todinha no nosso corpo.

Seus dedos frouxos na minha mão, nós dois feito um casalzinho coberto de moralidade. Você, a imagem da devassidão para qualquer outro/a menos pra mim – e não por falta de minha vontade – diz que devemos voltar a nos encontrar.

Você passa a corda pelo meu pescoço.

Depois, ata minhas mãos.

Não sou capaz de desfazer o nó.

Mas posso largar a corda no chão.

O que me impede de fazê-lo, o único problema real é: o que será das entrelinhas?

Nunca entendi sobre o que a carta falava. Tampouco consigo me lembrar quem a enviou.

(Imagem: http://vampiressartist.deviantart.com/art/Write-With-Your-Heart-103057264)

OS CADERNOS DE FRANK: “O Tempo é alguém” (ou A vez em que meu peito ficou cheio)

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– Doutor, meu peito está cheio.

Piscou seus olhos avermelhados de albino na minha direção, fingindo que me olhava, sem me ver de verdade. Ele quase não falava comigo, mas exigia que eu colocasse para fora tudo o que pensava ou sentia. Era minha primeira semana de terapia com o psiquiatra-chefe.

Percebi que ele não diria palavra até que eu desenvolvesse meu raciocínio. Sendo assim, não houve alternativa além de continuar tentando explicar de forma verbal e abstrata uma sensação concreta e física, de algo que literalmente se movia dentro de mim.

– Às vezes, penso que é água. Fico inchado. Tudo que mais desejo no mundo é que alguém enfie uma seringa entre minhas costelas e sugue esse líquido pra fora. Mas já há algum tempo não me sinto mais assim. De uns dias pra cá, comecei a ter certeza que o que está enchendo meu peito é areia.

– Areia? – seus olhos estavam tão estreitos que cheguei a ter a impressão de que ele estivera dormindo durante todo o meu discurso.

– Sim. Porque sinto os grãozinhos escorrendo bem devagar entre meu pulmão e meu estômago, como numa ampulheta. É uma sensação porosa

– Seus pulmões não têm ligação com seu estômago – pela primeira vez, ele me interrompeu.

– Isso foi o que eu aprendi no colégio. Por isso, estranhei o que aconteceu comigo. Meus sistemas se ligaram pra fazer de mim uma ampulheta viva.

– …

– Uma vez que toda a areia caia pro meu estômago, meu peito vai ficar vazio de novo.

– E o que acontece então?

– Preciso ser colocado de cabeça pra baixo.

– Para que seu peito se encha de novo.

– Sim.

– Seu peito não pode continuar vazio?

– Não sei. Pode?

– …

– Não pode – afirmei. – Sendo assim, ele se encheria de água novamente. É uma sensação bem desconfortável, água no peito. Tão logo peixes começariam a nadar nela, e isso me causaria um enjoo do caralho, e novamente teriam que vir as seringas. E aí o que eu faria com os cadáveres dos peixes? Será que eles escorregariam pro meu estômago e seriam digeridos lá?

– Não acha que seus pulmões se encheriam de ar, como todos os outros?

– Não depois de se tornarem metade de uma ampulheta.

O doutor respirou fundo de maneira inexpressiva, sem significado algum, e trocou o cotovelo que apoiava no tampo de vidro que cobria a mesa de madeira.

– O senhor sabe qual é o problema? A areia que está chegando no meu estômago não é nada confortável. Ela irrita as paredes e não reage bem com o suco gástrico. Ter o peito cheio é uma sensação péssima. Porém, um estômago preenchido por areia é um terror inimaginável, o senhor não faz ideia.

Seus olhos piscaram duas vezes seguidas. Tic, tac.

– Não faço ideia.

De repente, me dei conta do barulhinho quase inaudível dos ponteiros do relógio de parede que pendia sobre a cabeça do Doutor. Uma pessoa é capaz de passar horas dentro de uma sala sem sequer ouvir o ruído dos ponteiros de um relógio. Contudo, uma vez que se perceba a existência deste som, é impossível deixar de ouvi-lo e de se incomodar com ele. É como despertar de um sonho bonito para uma triste realidade.

– Seu tempo acabou – disse o Doutor.

“Mas a areia não cobriu nem um décimo do meu estômago”, eu quis falar. Meu tempo estava longe de acabar, por mais que eu o sentisse correndo dentro de mim.

OS CADERNOS DE FRANK: Estrangeiros

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Seus braços suavam dentro da camisa preta de poliéster. Os meus, descobertos, aceitavam seu suor da mesma maneira dolorida e carinhosa que receberam a tinta sob a epiderme. Gerard estava sempre cicatrizando em mim. Descascando, coçando, ardendo… Mas me fazendo amar cada dia mais a pele na qual eu vivia. Finalmente, eu não estava mais sozinho. Tinha certeza que essa condição sumiria no ar no momento em que nos separássemos. Entretanto, era tudo que eu tinha. Precisava me agarrar àquilo. Não saberia fazer de outra forma.

Ele disse que sentira minha falta. Só que as coisas que Gerard dizia, principalmente quando se tratava de explicitar algum sentimento, ficavam num campo abstrato demais, quase etéreo, para eu compreender. Sua frase, “Tô com saudade de você”, tinha o aspecto de uma nuvem que logo se desfaz no céu sobrenatural da sua existência. Antes que eu pudesse responder, ele já me estreitara em seus braços. Soltei o botão do seu colarinho por puro instinto, só então me dei conta de que estávamos em público. Alisei a gola de sua camisa para disfarçar. Ele riu. Sentávamos em um banco no calçadão em frente à praia e, mesmo sendo noite, a camisa social de Gerard fechada até o pescoço berrava sua discrepância. Seu rosto, quase sempre pálido, coloria-se de rosa nas maçãs por culpa das cervejas que tínhamos acabado de tomar num bar próximo.

– Parece que você vai sumir o tempo todo – reclamei.

– Eu não sou daqui, você sabe.

– Você é de lugar nenhum.

Só alguns anos mais tarde eu seria capaz de compreender que era como ele. Mesmo tendo nascido neste país e ele não, ambos éramos igualmente estrangeiros. Exilados não apenas do mundo. Exilados de nós mesmos. Gerard me beijou e soprou na minha boca a ilusão de que tudo ficaria bem. Deixei-me enganar. É a única maneira de obter prazer nessa vida, pelo menos um prazer puro, deixando-se enganar.

Ele tocou minha pele recém-tatuada. Seus dedos tinham uma aparência áspera e bruta para os de um garoto tão jovem, mas seu toque quase não pesava. Gosto de lembrar que nós dois tínhamos calos eventuais nos dedos, por ambos desempenharmos atividades manuais – os dele, próximos à junta do indicador, devido à pressão dos lápis e canetas; os meus bem nas digitais, tantas vezes machucadas pelas cordas da guitarra. Marcas de autodestruição criativa.

– Ainda bem que você fez quando eu não estava – referia-se à minha tatuagem no braço. – Sabe que eu não ia conseguir ir com você.

– Um dia vou te fazer amar agulhas.

– Isso é algo além da sua capacidade. Vai ter que me oferecer outro tipo de droga.

– Não vejo problema. Você pode beber meu sangue venenoso, se quiser.

– É o que você tem feito esses dias sem mim, né? Injetando e cheirando a vida toda – a voz dele não indicava um pingo de reprovação. Pelo contrário, ele quase sorria.

– E trepando com uma galera.

– Muito bem – deu um tapinha cínico no topo da minha cabeça.

Aquela última parte era mentira. Quem me conhece agora não dá o menor crédito quando digo que não fiquei com ninguém durante aquele período sem Gerard, mesmo que eu o tenha traído sim futuramente. Mas essa é história para outro dia.

Então ele puxou minhas pernas juntas e as atravessou sobre seu colo. Envolveu minha cintura com firmeza e me beijou de um jeito que eu teria caído do banco se não estivesse bem preso. Muitas pessoas caminhavam pelo calçadão naquela noite de verão e nós estávamos cientes de que corríamos o sério risco de sermos espancados. Contudo, desde o início da nossa relação, tínhamos selado um acordo tácito no qual concordávamos ser melhor morrer vivendo de verdade do que estar morto em vida. O tipo de coisa que sentimos quando somos adolescentes e que a – argh – experiência acaba nos mostrando se tratar de uma utopia.

– Isso é tão injusto – murmurei sem ar, minha mão direita ainda agarrada a seu cabelo. – A gente não poder transar aqui, agora.

– Que ideia!

– Não me incomodaria nem um pouco se as pessoas transassem por aí, na hora que quisessem, no lugar que bem entendessem…

Gerard gargalhou.

– O desejo não tem como ser contido, nem deveria ser escondido. Se ele partir da vontade de duas, ou mais, pessoas. Claro.

– Fico me perguntando como essas ideiazinhas absurdas brotam na sua cabeça, Frank.

Queria explicar pra ele que era humanamente impossível eu ter uma mente considerada “normal” ou “saudável”, mas naquela época ainda não me julgava capaz de falar sobre isso, mesmo com Gerard.

– Tô cansado de conversar – respondi, despindo-o com os olhos.

Isso também era mentira. Eu seria capaz de ouvi-lo calado por horas a fio, independente da quantidade de bobagens que ele dissesse se estivesse bêbado ou drogado. Gerard não costumava ser de muitas palavras, por isso eu amava quando ele bebia e se transformava num verborrágico incansável. A cerveja daquela noite fora insuficiente para embriagá-lo completamente, porém o deixara num limiar interessante. Quando ele estava chapado, a incoerência de seu discurso e o ritmo de sua voz me divertiam como poucas coisas na vida.

– Então me leva pra sua casa – ele pediu.

– Você sabe que eu não posso.

– Minha tia viajou e largou meu priminho com meus pais, ele tá dormindo no meu quarto. Acho que a gente vai ter que se segurar hoje.

– E como faz isso?

Ele não respondeu porque também não fazia ideia. Éramos incapazes de tal proeza. Se ele não me desejasse tanto quanto eu o desejava, tudo seria mais fácil. O meu desejo seria suportável e enfraquecido compulsoriamente pela falta de vontade dele. Mas estava longe de ser este o caso. E assim nós acabamos parando no banheiro de um shopping.

Não vá desaparecer de novo, eu o implorava em silêncio, enquanto meus lábios sugavam seu pescoço. A raiva era tanta que fechei meus dentes com força em torno de sua pele. Ele reprimiu um grito, depois sorriu. Suas mãos me apertavam por baixo da camiseta, eu já tinha aberto todos os seus botões. Mesmo que ele fosse embora, a visão daquele peito liso, descorado, povoaria minha mente com tamanha intensidade que eu seria obrigado a materializá-lo à minha frente para satisfazer meu desejo, não importa onde ele estivesse. Tocava seus lábios com a ponta dos dedos como se não fosse capaz de crer na existência deles, depois os mordia de leve. Sua língua logo se grudava de novo à minha, quase me sufocando. Gerard tinha um prazer mórbido em me deixar sem ar e só me afastava de sua boca quando me tocava por dentro da calça, de maneira a contemplar minha respiração pesada.

– Enquanto eu tava longe, pensei que tivesse parado de gostar de você – disse, ainda me masturbando.

– Você é um escroto.

– Devo ser. Mas é só o meu jeito de me defender.

– Defender de quê?

– De você.

Naquela hora, não entendi nada daquilo, nem pensei a respeito. Gerard sempre fora mais sábio e maduro que eu e, desde aquela época, podia prever a merda que eu o faria passar. Tentou a todo custo evitar que isso acontecesse. Mas não conseguiu.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Mannequin-153024293

OS CADERNOS DE FRANK: O Natal do outro lado

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Os dois comprimidos da medicação noturna tinham acabado de descer pela minha goela quando lembrei que era véspera de Natal. Raros pacientes recebiam visitas, algumas vezes acompanhadas por presentes. Outros mais privilegiados (a.k.a. os que davam uma grana por fora à equipe médica) conseguiam passar a data comemorativa com a família. A justificativa oficial era serem estes os internos com “melhoras significativas”.

 Eu só queria apagar rápido. Como presente de Natal, eu deixaria de receber a “visita íntima” de um enfermeiro ou guarda. Os gritos eram consideravelmente menos numerosos naquela madrugada. O choro, porém, era livre.

 Um pouco depois de sair da fila dos medicamentos, vi o adolescente japa entrar na sala de visitas. Seu olhar parecia menos perdido naquele dia, como se ele se esforçasse, como se lhe fosse negado o direito de ser emocionalmente doente perto de sua família.

 Minutos me restavam até que eu pudesse encontrar meus pais no meu inconsciente. Lá, eles seriam desequilibrados e neuróticos como pai e mãe normais. Brigariam na noite de Natal, por causa de algum prato que faltasse na ceia ou da presença de algum parente indesejado. Eu e minha irmãzinha mais nova, Alice, assistiríamos às tretas familiares mortos de vontade de dar meia-noite logo para recebermos os embrulhos sob a árvore de Natal. O meu presente seria uma boneca viva. O dela, um gatinho sorridente e listrado.

 Tal cena se desfez quando tive um breve vislumbre da realidade. Eu, meu corpo estirado sobre uma superfície dura e fria – o chão de um dos corredores do hospital – observando através de vistas turvas uma mocinha agachada num canto não muito longe. Sua mãozinha fechada em concha brilhava devido ao líquido viscoso e transparente que a ensopava. Dava pra ver os dois comprimidos babados que ela segurava. Estavam quase se desfazendo.

 Estendi minha mão. Parte porque queria tocar a sua, parte porque desejava os remédios que ela guardava.

 Ela permaneceu imóvel em sua camisola branca encardida. No take que correspondia ao meu delírio, aquela mesma menina de cabelo preto sorria, limpa e penteada, trajando um adorável vestidinho vermelho que combinava com as bochechas rosadas.

 – Me dá sua mão, Alice – eu pedia, duas vozes iguais falando em uníssono em mundos paralelos.

 Ninguém me respondia.

 – Me dá sua mão. Só esta noite.

 …

 – Me dá sua mão, Alice. Se não der, vou morrer.

 E eu morria. Toda vez que Alice se recusava a me dar sua mão, eu morria. Toda vez, outro eu nascia.

 Logo não havia mais preocupações. Pois a morte chegava e se encarregava de tudo. Cada pequeno problema, cada imenso trauma. Tudo ia embora quando a morte descia seu véu vermelho sobre mim.

 “Não está doendo”, eu pensava, enquanto sentia meu corpo se consumir. Estar vivo dói muito mais que isso.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/medication-51678057

OS CADERNOS DE FRANK: G.

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Hoje ouvi alguém falar de você. Foi durante o lanche e eu não estava pensando em você. Comia meu pão de forma recheado com queijo e presunto e lia um livro de contos do Julio Cortázar. Até que estava imerso na história e faltavam dois parágrafos para a conclusão do conto quando seu nome surgiu na boca de um colega qualquer de classe. Sinceramente, não lembro o que ele disse sobre você. Tampouco me recordo os dois últimos parágrafos do texto do Cortázar.

Quando terminasse de comer no pátio interno do colégio, me enfiaria no pequeno bosque perto da pista de atletismo, longe das vistas dos inspetores, e fumaria meu cigarro. Aquele cigarro que antigamente era acompanhado por você, e que há mais ou menos dois meses eu fumava sozinho. No momento em que ouvi seu nome, foi apenas nisso que pensei. Nos minutos que passávamos ali, fumando juntos e conversando sobre assuntos dos quais não consigo mais me lembrar, mesmo tendo se passado tão pouco tempo. Ou então quando você me ouvia tocar violão encostado a uma árvore, lendo seu quadrinho em silêncio, deitado na grama. É estranho como conseguimos nos apegar tanto às pessoas em tão pouco tempo. Mas eu não deveria dizer “pessoas” quando me refiro a você. Ao ver desconhecidos passarem na rua, ou mesmo os outros garotos e garotas do colégio, funcionários e professores, toda essa gente que me cansa só de olhar no meu dia a dia, começo a me perguntar como as pessoas possuem a incrível habilidade de serem tão iguais num mundo tão grande.

Mesmo antes de tudo acontecer, quando a única saliva que trocávamos era a que ficava no filtro do cigarro, eu já não me sentia mais tão sozinho. Quando estava com você, nesses breves momentos de clareza entre uma aula e outra, observava com atenção as finíssimas veias vermelhas em volta dos seus olhos cor de folha seca. Deve ser por isso que não me recordo de nenhum assunto específico sobre o qual falávamos então. Porque nunca prestei atenção. Porém, de qualquer maneira, não é como se eu não me importasse com o que você tinha a dizer. É só que seus olhos e seus lábios ficavam no caminho entre suas palavras e meu discernimento. Mesmo assim, julgo que consegui aprender bastante sobre você. Talvez seja pretensão minha afirmar isso. Não importa mais. Agora a única visão que tenho enquanto trago meu cigarro são meus tênis sujos e as barras compridas demais da minha calça.

Não sei pra onde você foi. Muito menos se vai voltar. Talvez ainda esteja perto. Ou, quem sabe, partiu de vez de volta pro seu país obscuro e longínquo. A minha impressão é que “ir embora” faz parte da sua natureza. Você me disse uma vez que não se importaria em morrer jovem. Mas o calor da sua mão suada enquanto apertava a minha me dizia o contrário. “Me segure aqui,” pedia ela, “mantenha meus pés presos no chão. Agarre meu braço como se fosse o barbante de um balão, de maneira que meu corpo não flutue para longe dessa terra”. E era o que eu fazia. O que fiz, por um período curto demais. Pode ser que tenha sido culpa minha você ter ido embora. Não tive força suficiente para segurar o fino barbante que o prendia aqui.

Imagem: http://th02.deviantart.net/fs27/PRE/i/2008/088/9/e/Sunsets_over_NJ_by_stylistic_division.jpg