OS CADERNOS DE FRANK: “O Tempo é alguém” (ou A vez em que meu peito ficou cheio)

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– Doutor, meu peito está cheio.

Piscou seus olhos avermelhados de albino na minha direção, fingindo que me olhava, sem me ver de verdade. Ele quase não falava comigo, mas exigia que eu colocasse para fora tudo o que pensava ou sentia. Era minha primeira semana de terapia com o psiquiatra-chefe.

Percebi que ele não diria palavra até que eu desenvolvesse meu raciocínio. Sendo assim, não houve alternativa além de continuar tentando explicar de forma verbal e abstrata uma sensação concreta e física, de algo que literalmente se movia dentro de mim.

– Às vezes, penso que é água. Fico inchado. Tudo que mais desejo no mundo é que alguém enfie uma seringa entre minhas costelas e sugue esse líquido pra fora. Mas já há algum tempo não me sinto mais assim. De uns dias pra cá, comecei a ter certeza que o que está enchendo meu peito é areia.

– Areia? – seus olhos estavam tão estreitos que cheguei a ter a impressão de que ele estivera dormindo durante todo o meu discurso.

– Sim. Porque sinto os grãozinhos escorrendo bem devagar entre meu pulmão e meu estômago, como numa ampulheta. É uma sensação porosa

– Seus pulmões não têm ligação com seu estômago – pela primeira vez, ele me interrompeu.

– Isso foi o que eu aprendi no colégio. Por isso, estranhei o que aconteceu comigo. Meus sistemas se ligaram pra fazer de mim uma ampulheta viva.

– …

– Uma vez que toda a areia caia pro meu estômago, meu peito vai ficar vazio de novo.

– E o que acontece então?

– Preciso ser colocado de cabeça pra baixo.

– Para que seu peito se encha de novo.

– Sim.

– Seu peito não pode continuar vazio?

– Não sei. Pode?

– …

– Não pode – afirmei. – Sendo assim, ele se encheria de água novamente. É uma sensação bem desconfortável, água no peito. Tão logo peixes começariam a nadar nela, e isso me causaria um enjoo do caralho, e novamente teriam que vir as seringas. E aí o que eu faria com os cadáveres dos peixes? Será que eles escorregariam pro meu estômago e seriam digeridos lá?

– Não acha que seus pulmões se encheriam de ar, como todos os outros?

– Não depois de se tornarem metade de uma ampulheta.

O doutor respirou fundo de maneira inexpressiva, sem significado algum, e trocou o cotovelo que apoiava no tampo de vidro que cobria a mesa de madeira.

– O senhor sabe qual é o problema? A areia que está chegando no meu estômago não é nada confortável. Ela irrita as paredes e não reage bem com o suco gástrico. Ter o peito cheio é uma sensação péssima. Porém, um estômago preenchido por areia é um terror inimaginável, o senhor não faz ideia.

Seus olhos piscaram duas vezes seguidas. Tic, tac.

– Não faço ideia.

De repente, me dei conta do barulhinho quase inaudível dos ponteiros do relógio de parede que pendia sobre a cabeça do Doutor. Uma pessoa é capaz de passar horas dentro de uma sala sem sequer ouvir o ruído dos ponteiros de um relógio. Contudo, uma vez que se perceba a existência deste som, é impossível deixar de ouvi-lo e de se incomodar com ele. É como despertar de um sonho bonito para uma triste realidade.

– Seu tempo acabou – disse o Doutor.

“Mas a areia não cobriu nem um décimo do meu estômago”, eu quis falar. Meu tempo estava longe de acabar, por mais que eu o sentisse correndo dentro de mim.

OS CADERNOS DE FRANK: Estrangeiros

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Seus braços suavam dentro da camisa preta de poliéster. Os meus, descobertos, aceitavam seu suor da mesma maneira dolorida e carinhosa que receberam a tinta sob a epiderme. Gerard estava sempre cicatrizando em mim. Descascando, coçando, ardendo… Mas me fazendo amar cada dia mais a pele na qual eu vivia. Finalmente, eu não estava mais sozinho. Tinha certeza que essa condição sumiria no ar no momento em que nos separássemos. Entretanto, era tudo que eu tinha. Precisava me agarrar àquilo. Não saberia fazer de outra forma.

Ele disse que sentira minha falta. Só que as coisas que Gerard dizia, principalmente quando se tratava de explicitar algum sentimento, ficavam num campo abstrato demais, quase etéreo, para eu compreender. Sua frase, “Tô com saudade de você”, tinha o aspecto de uma nuvem que logo se desfaz no céu sobrenatural da sua existência. Antes que eu pudesse responder, ele já me estreitara em seus braços. Soltei o botão do seu colarinho por puro instinto, só então me dei conta de que estávamos em público. Alisei a gola de sua camisa para disfarçar. Ele riu. Sentávamos em um banco no calçadão em frente à praia e, mesmo sendo noite, a camisa social de Gerard fechada até o pescoço berrava sua discrepância. Seu rosto, quase sempre pálido, coloria-se de rosa nas maçãs por culpa das cervejas que tínhamos acabado de tomar num bar próximo.

– Parece que você vai sumir o tempo todo – reclamei.

– Eu não sou daqui, você sabe.

– Você é de lugar nenhum.

Só alguns anos mais tarde eu seria capaz de compreender que era como ele. Mesmo tendo nascido neste país e ele não, ambos éramos igualmente estrangeiros. Exilados não apenas do mundo. Exilados de nós mesmos. Gerard me beijou e soprou na minha boca a ilusão de que tudo ficaria bem. Deixei-me enganar. É a única maneira de obter prazer nessa vida, pelo menos um prazer puro, deixando-se enganar.

Ele tocou minha pele recém-tatuada. Seus dedos tinham uma aparência áspera e bruta para os de um garoto tão jovem, mas seu toque quase não pesava. Gosto de lembrar que nós dois tínhamos calos eventuais nos dedos, por ambos desempenharmos atividades manuais – os dele, próximos à junta do indicador, devido à pressão dos lápis e canetas; os meus bem nas digitais, tantas vezes machucadas pelas cordas da guitarra. Marcas de autodestruição criativa.

– Ainda bem que você fez quando eu não estava – referia-se à minha tatuagem no braço. – Sabe que eu não ia conseguir ir com você.

– Um dia vou te fazer amar agulhas.

– Isso é algo além da sua capacidade. Vai ter que me oferecer outro tipo de droga.

– Não vejo problema. Você pode beber meu sangue venenoso, se quiser.

– É o que você tem feito esses dias sem mim, né? Injetando e cheirando a vida toda – a voz dele não indicava um pingo de reprovação. Pelo contrário, ele quase sorria.

– E trepando com uma galera.

– Muito bem – deu um tapinha cínico no topo da minha cabeça.

Aquela última parte era mentira. Quem me conhece agora não dá o menor crédito quando digo que não fiquei com ninguém durante aquele período sem Gerard, mesmo que eu o tenha traído sim futuramente. Mas essa é história para outro dia.

Então ele puxou minhas pernas juntas e as atravessou sobre seu colo. Envolveu minha cintura com firmeza e me beijou de um jeito que eu teria caído do banco se não estivesse bem preso. Muitas pessoas caminhavam pelo calçadão naquela noite de verão e nós estávamos cientes de que corríamos o sério risco de sermos espancados. Contudo, desde o início da nossa relação, tínhamos selado um acordo tácito no qual concordávamos ser melhor morrer vivendo de verdade do que estar morto em vida. O tipo de coisa que sentimos quando somos adolescentes e que a – argh – experiência acaba nos mostrando se tratar de uma utopia.

– Isso é tão injusto – murmurei sem ar, minha mão direita ainda agarrada a seu cabelo. – A gente não poder transar aqui, agora.

– Que ideia!

– Não me incomodaria nem um pouco se as pessoas transassem por aí, na hora que quisessem, no lugar que bem entendessem…

Gerard gargalhou.

– O desejo não tem como ser contido, nem deveria ser escondido. Se ele partir da vontade de duas, ou mais, pessoas. Claro.

– Fico me perguntando como essas ideiazinhas absurdas brotam na sua cabeça, Frank.

Queria explicar pra ele que era humanamente impossível eu ter uma mente considerada “normal” ou “saudável”, mas naquela época ainda não me julgava capaz de falar sobre isso, mesmo com Gerard.

– Tô cansado de conversar – respondi, despindo-o com os olhos.

Isso também era mentira. Eu seria capaz de ouvi-lo calado por horas a fio, independente da quantidade de bobagens que ele dissesse se estivesse bêbado ou drogado. Gerard não costumava ser de muitas palavras, por isso eu amava quando ele bebia e se transformava num verborrágico incansável. A cerveja daquela noite fora insuficiente para embriagá-lo completamente, porém o deixara num limiar interessante. Quando ele estava chapado, a incoerência de seu discurso e o ritmo de sua voz me divertiam como poucas coisas na vida.

– Então me leva pra sua casa – ele pediu.

– Você sabe que eu não posso.

– Minha tia viajou e largou meu priminho com meus pais, ele tá dormindo no meu quarto. Acho que a gente vai ter que se segurar hoje.

– E como faz isso?

Ele não respondeu porque também não fazia ideia. Éramos incapazes de tal proeza. Se ele não me desejasse tanto quanto eu o desejava, tudo seria mais fácil. O meu desejo seria suportável e enfraquecido compulsoriamente pela falta de vontade dele. Mas estava longe de ser este o caso. E assim nós acabamos parando no banheiro de um shopping.

Não vá desaparecer de novo, eu o implorava em silêncio, enquanto meus lábios sugavam seu pescoço. A raiva era tanta que fechei meus dentes com força em torno de sua pele. Ele reprimiu um grito, depois sorriu. Suas mãos me apertavam por baixo da camiseta, eu já tinha aberto todos os seus botões. Mesmo que ele fosse embora, a visão daquele peito liso, descorado, povoaria minha mente com tamanha intensidade que eu seria obrigado a materializá-lo à minha frente para satisfazer meu desejo, não importa onde ele estivesse. Tocava seus lábios com a ponta dos dedos como se não fosse capaz de crer na existência deles, depois os mordia de leve. Sua língua logo se grudava de novo à minha, quase me sufocando. Gerard tinha um prazer mórbido em me deixar sem ar e só me afastava de sua boca quando me tocava por dentro da calça, de maneira a contemplar minha respiração pesada.

– Enquanto eu tava longe, pensei que tivesse parado de gostar de você – disse, ainda me masturbando.

– Você é um escroto.

– Devo ser. Mas é só o meu jeito de me defender.

– Defender de quê?

– De você.

Naquela hora, não entendi nada daquilo, nem pensei a respeito. Gerard sempre fora mais sábio e maduro que eu e, desde aquela época, podia prever a merda que eu o faria passar. Tentou a todo custo evitar que isso acontecesse. Mas não conseguiu.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Mannequin-153024293

OS CADERNOS DE FRANK: O Natal do outro lado

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Os dois comprimidos da medicação noturna tinham acabado de descer pela minha goela quando lembrei que era véspera de Natal. Raros pacientes recebiam visitas, algumas vezes acompanhadas por presentes. Outros mais privilegiados (a.k.a. os que davam uma grana por fora à equipe médica) conseguiam passar a data comemorativa com a família. A justificativa oficial era serem estes os internos com “melhoras significativas”.

 Eu só queria apagar rápido. Como presente de Natal, eu deixaria de receber a “visita íntima” de um enfermeiro ou guarda. Os gritos eram consideravelmente menos numerosos naquela madrugada. O choro, porém, era livre.

 Um pouco depois de sair da fila dos medicamentos, vi o adolescente japa entrar na sala de visitas. Seu olhar parecia menos perdido naquele dia, como se ele se esforçasse, como se lhe fosse negado o direito de ser emocionalmente doente perto de sua família.

 Minutos me restavam até que eu pudesse encontrar meus pais no meu inconsciente. Lá, eles seriam desequilibrados e neuróticos como pai e mãe normais. Brigariam na noite de Natal, por causa de algum prato que faltasse na ceia ou da presença de algum parente indesejado. Eu e minha irmãzinha mais nova, Alice, assistiríamos às tretas familiares mortos de vontade de dar meia-noite logo para recebermos os embrulhos sob a árvore de Natal. O meu presente seria uma boneca viva. O dela, um gatinho sorridente e listrado.

 Tal cena se desfez quando tive um breve vislumbre da realidade. Eu, meu corpo estirado sobre uma superfície dura e fria – o chão de um dos corredores do hospital – observando através de vistas turvas uma mocinha agachada num canto não muito longe. Sua mãozinha fechada em concha brilhava devido ao líquido viscoso e transparente que a ensopava. Dava pra ver os dois comprimidos babados que ela segurava. Estavam quase se desfazendo.

 Estendi minha mão. Parte porque queria tocar a sua, parte porque desejava os remédios que ela guardava.

 Ela permaneceu imóvel em sua camisola branca encardida. No take que correspondia ao meu delírio, aquela mesma menina de cabelo preto sorria, limpa e penteada, trajando um adorável vestidinho vermelho que combinava com as bochechas rosadas.

 – Me dá sua mão, Alice – eu pedia, duas vozes iguais falando em uníssono em mundos paralelos.

 Ninguém me respondia.

 – Me dá sua mão. Só esta noite.

 …

 – Me dá sua mão, Alice. Se não der, vou morrer.

 E eu morria. Toda vez que Alice se recusava a me dar sua mão, eu morria. Toda vez, outro eu nascia.

 Logo não havia mais preocupações. Pois a morte chegava e se encarregava de tudo. Cada pequeno problema, cada imenso trauma. Tudo ia embora quando a morte descia seu véu vermelho sobre mim.

 “Não está doendo”, eu pensava, enquanto sentia meu corpo se consumir. Estar vivo dói muito mais que isso.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/medication-51678057

OS CADERNOS DE FRANK: G.

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Hoje ouvi alguém falar de você. Foi durante o lanche e eu não estava pensando em você. Comia meu pão de forma recheado com queijo e presunto e lia um livro de contos do Julio Cortázar. Até que estava imerso na história e faltavam dois parágrafos para a conclusão do conto quando seu nome surgiu na boca de um colega qualquer de classe. Sinceramente, não lembro o que ele disse sobre você. Tampouco me recordo os dois últimos parágrafos do texto do Cortázar.

Quando terminasse de comer no pátio interno do colégio, me enfiaria no pequeno bosque perto da pista de atletismo, longe das vistas dos inspetores, e fumaria meu cigarro. Aquele cigarro que antigamente era acompanhado por você, e que há mais ou menos dois meses eu fumava sozinho. No momento em que ouvi seu nome, foi apenas nisso que pensei. Nos minutos que passávamos ali, fumando juntos e conversando sobre assuntos dos quais não consigo mais me lembrar, mesmo tendo se passado tão pouco tempo. Ou então quando você me ouvia tocar violão encostado a uma árvore, lendo seu quadrinho em silêncio, deitado na grama. É estranho como conseguimos nos apegar tanto às pessoas em tão pouco tempo. Mas eu não deveria dizer “pessoas” quando me refiro a você. Ao ver desconhecidos passarem na rua, ou mesmo os outros garotos e garotas do colégio, funcionários e professores, toda essa gente que me cansa só de olhar no meu dia a dia, começo a me perguntar como as pessoas possuem a incrível habilidade de serem tão iguais num mundo tão grande.

Mesmo antes de tudo acontecer, quando a única saliva que trocávamos era a que ficava no filtro do cigarro, eu já não me sentia mais tão sozinho. Quando estava com você, nesses breves momentos de clareza entre uma aula e outra, observava com atenção as finíssimas veias vermelhas em volta dos seus olhos cor de folha seca. Deve ser por isso que não me recordo de nenhum assunto específico sobre o qual falávamos então. Porque nunca prestei atenção. Porém, de qualquer maneira, não é como se eu não me importasse com o que você tinha a dizer. É só que seus olhos e seus lábios ficavam no caminho entre suas palavras e meu discernimento. Mesmo assim, julgo que consegui aprender bastante sobre você. Talvez seja pretensão minha afirmar isso. Não importa mais. Agora a única visão que tenho enquanto trago meu cigarro são meus tênis sujos e as barras compridas demais da minha calça.

Não sei pra onde você foi. Muito menos se vai voltar. Talvez ainda esteja perto. Ou, quem sabe, partiu de vez de volta pro seu país obscuro e longínquo. A minha impressão é que “ir embora” faz parte da sua natureza. Você me disse uma vez que não se importaria em morrer jovem. Mas o calor da sua mão suada enquanto apertava a minha me dizia o contrário. “Me segure aqui,” pedia ela, “mantenha meus pés presos no chão. Agarre meu braço como se fosse o barbante de um balão, de maneira que meu corpo não flutue para longe dessa terra”. E era o que eu fazia. O que fiz, por um período curto demais. Pode ser que tenha sido culpa minha você ter ido embora. Não tive força suficiente para segurar o fino barbante que o prendia aqui.

Imagem: http://th02.deviantart.net/fs27/PRE/i/2008/088/9/e/Sunsets_over_NJ_by_stylistic_division.jpg

OS CADERNOS DE FRANK: Meu osso quebrado

Frank - Bones

Não quero me sentir sozinho.

Pensei em começar de um jeito melhor, mas a solidão rejeita adornos. A minha, pelo menos. Não que eu tenha deixado de enfeitá-la. Fiz isso até cansar. Talvez por este motivo agora ela rejeite minha poesia.

A solidão, ao contrário do que se pensa, não gosta de poesia (por favor, me abrace).

Essa coisa, que eu julgava ter me deixado por um tempo, na verdade sempre esteve ali, mesmo que recolhida no seu cantinho (por favor, me abrace). Espreitando nos buracos imaginários nas minhas paredes, me cutucando de leve, tão suavemente que eu não conseguia fingir não sentir. Eu sabia. Eu via. Tinha certeza que ela me derrubaria de novo, a solidão. Então, como mágica, ela faz o chão desaparecer sob os meus pés.

Mais uma vez como mágica, acabo de perceber que a solidão transmutou-se (esse é um verbo que tenho usado bastante ultimamente) em angústia. Quero falar com alguém, mas todos dormem. Lá fora ou dentro de mim. Só eu que não consigo dormir. Feliz ou infelizmente, não tomo mais remédios – não posso persuadir a angústia a desaparecer engolindo um comprimido. O que me resta é esperar aqui e ver se ela vira outra coisa. Sozinho. Tentar ler um livro. Não pensar. Preencher meu peito com angústias de personagens ficcionais para que a minha própria adormeça. Quem sabe eu mesmo adormeço.

Ainda, a natureza da angústia está no cenário que me repele, nas cobertas bagunçadas e jogadas aleatoriamente – como as almofadas – no sofá. (Esta não é minha casa). Em silêncio, vejo despontar um sinal de alívio. É o sono. E, talvez, alguma coisa despertada pela exteriorização destas palavras. (Amo vocês, não me deixem sozinho).

De repente, não quero mais morrer. De repente, volto a me sentir confortável na minha própria pele, do jeito que costuma ser. De repente, a manhã virá, solitária. De repente, este peso no peito vai se dissipar. De repente, as palavras são insuficientes.

A angústia – puft! – transformou-se em insuficiência. Sinto-me um idiota, mas quem nunca? E me lembro de todas as vezes em que demonstrei uma inocência ridícula, uma inteligência emocional atrofiada, uma certa afetação. Lembro-me e me odeio. Mas já passou. Não sou desses (talvez eu seja).

Esta foi a primeira vez até agora que pensei em acabar com a minha vida. Não posso afirmar com certeza, entretanto tenho a firme impressão de que isso não se repetirá. O ímpeto de se lançar ao abismo da morte não me pertence, embora minha alma seja marcada por ela – a morte – de maneira indelével. Não sei se é justo culpar a Trindade composta por Solidão, Angústia e Insuficiência pela minha queda. Não sei se quero ser justo. Só sei que hoje não tenho o orgulho quieto que sempre me acompanhou, o orgulho da minha fraqueza. Hoje, e não precisa ser o dia inteiro, nem por algumas horas… pelo menos pelos próximos segundos, quero ser forte.

Vocês que são fortes:

Deem-me um pouco dessa força.

É sério. Eu (como sempre) estou a ponto de quebrar. (Mas não é verdade aquela história que o osso se torna mais forte no lugar em que se quebra?)

Imagem: http://leexcharleston.deviantart.com/art/Iero-391888846

OS CADERNOS DE FRANK: Alice, a transfiguração

Frank - Hands Colour

Quando sinto fome, penso em Alice. “Ora”, vocês dirão, “você pensa em Alice o tempo todo”. Isso não é verdade. Existem disposições físicas mais propícias ao pensamento em Alice, é bom esclarecer. Gostaria de dizer também, de forma bem clara, que o fato de minha mente buscar rotas de Alice se conecta ao meu corpo muito mais que ao chamado “espírito” ou “sentimento”. Sinto Alice no meu estômago vazio. Na minha pele friorenta. Nos meus olhos pesados. No meu sexo murcho. Nas pontadas nas minhas costas. E, por senti-la – e não vê-la – acho que estou acabando por esquecer seu rosto. Às vezes, dou-lhe o meu rosto. Ou de qualquer outro/a. Às vezes, Alice nem é uma menina. Agora mesmo, por exemplo, suas feições têm um acabamento masculino. Suas pernas são compridas e seus cabelos, espessos. Seus olhos e seus lábios, pintados de negro. Alice tem voz bem aguda de tenor, quase afeminada, e uma risada preguiçosa.

A Alice que busquei se transfigurou bem diante do meu espelho. Seu peito não tem seios, mas seus ombros continuam estreitos. Alice roubou um gole do espelho d’água sob meu rosto e matou a minha sede.

A fome, porém, quanto a esta não há solução. Falta metade do meu estômago. Esta foi arrancada por suas mãos. Ou teria eu nascido assim, defeituoso? Sem uma parte. Ao meio. O tecido da minha parede estomacal transmutou-se em seu músculo cardíaco. Meu estômago, ou parte dele, passou a bater no peito de Alice. E foi assim que ela ganhou um coração.

Discutida a minha problemática digestiva, passamos ao frio que cobre meus braços e pernas. É por ele que me conforta ver a janela fechada. Para que Alice não passe por ela. Uma vez que o vento frio consiga se deslocar um pouquinho para dentro, não há mais esperança para mim. Então, é só mais uma noite emendada na outra. A capa negra do esquecimento já caiu sobre mim e fechou meus olhos que antes vagavam em noites químicas. Minhas pálpebras dizem “isto aconteceu”, mesmo que eu saiba que ainda esteja acontecendo. O passado e o presente são gêmeos siameses.

Quanto ao meu sono, este sempre pertenceu a Alice. É seu domínio por excelência. Como Alice nunca adormecia, ela usava meus olhos para ver sonhos, para caminhar por seu mundo dentro do mundo e explorar este universo edificado por seu vazio interior. Alice não tinha nada por dentro, não vislumbrava nada do lado de fora, por isso precisou criar todo um mundo. E usou meus olhos tortos para enxergá-lo. É claro que isto não me impede de crer, por vezes, que talvez seja o contrário e Alice seja produto da minha criação. Mesmo quando meus olhos doloridos pela insônia têm vontade de se suicidar das órbitas, ainda assim – e mais do que nunca – eles pertencem a Alice. Algumas vezes, não consigo de todo diferenciar os meus dos seus.

Meu sexo é o elemento místico quando se trata de Alice. Eu a penetro todas as vezes que me relaciono com alguém. Sempre que um corpo me é oferecido, toco a pele intocada de Alice. Mas nunca é o suficiente porque, durante o ato, a magia se desfaz e eu deixo de sentir aquele corpinho cujo gosto será para mim eternamente desconhecido. Sinto a necessidade de me esvair junto com ela. Gozo como quem desaparece. Grito algumas camadas de trauma e fica tudo certo. Tenho plena consciência da ilusão. “Vamos para casa”, sussurro baixinho para o meu próprio corpo fujão.

É nos músculos das minhas costas que se cravam as noites mal dormidas e até as longas horas pós-sedação. Sobre meus ombros repousa o tempo que não passou. Todos os amantes que tive e as vidas diferentes que vivi através deles. Mais de sete. Minha pele endurecida pelas respostas que Alice não me deu. No lugar destas, gostaria que ela tivesse me oferecido sua vida cheia de perguntas para que eu a tomasse. Não possuo esse desejo sádico, mas teria tirado sua vida se assim ela desejasse. Seria melhor que vê-la morrer daquele jeito. Não é verdade. Não sou assim tão romântico. Nada, nenhum consolo, nenhum sonho, nenhuma luta, nenhuma possibilidade de ser amado, nenhum novo vazio vai apagar a ânsia de que Alice ainda estivesse viva.

Por isso, olho-me no espelho. Antes de mais nada, eu sou Alice. Mas ela não sou eu. E é aí que reside toda a minha tragédia. Estes olhos grandes e pretos – ou estreitos e verdes? – me olham sem me ver, me fazem crer que só existe o vácuo onde deveria haver meu reflexo. Muito em breve, ela/e me diz, eu vou desaparecer.

Ainda espero que isso aconteça. Porém, de alguma forma, ainda consigo esticar minhas mãos em frente ao meu rosto e vê-las. Elas ainda estão aqui. Como o resto do meu corpo, eu acho.

 

 

 

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Frank-Iero-in-Deep-Thought-280605143