Singularidade

“Singularity”, Pinjis (@deviantart)

A coisa com asas. A coisa com penas. A coisa que sente.

Estar afundada em símbolos a essa hora da noite de um sábado e pensar que nunca mais vou ver um sábado como via antes. Pensar que meu interior (inconsciente?) está sendo atingido agora mesmo por algo que eu não vejo, mas sinto, e que as imagens me doem como sempre doeram mas talvez agora eu entenda melhor. E o que é entender? E o que é estudar? E o que é explicar?

Eu me enchi de química e flores. A natureza me rejeitou mas a máscara é feita de plástico. Inorgânica. A máscara é sólida e lisa, de matéria que derrete com o fogo e revela a minha cara, o fogo reduz meu interior a cinzas mas revela a minha cara. Autocombustão. Não há nada que eu possa fazer a essa altura, as pétalas se colaram ao meu rosto, ao fundo da máscara, as pétalas que jogaram sobre o palco no meu espetáculo imaginário. Dentro da caixa quebrada da minha alma.

EFEITOS COLATERAIS DA MÁSCARA:

  1. O calor. Não estou falando de suor ou variação de temperatura na superfície, me refiro ao calor instalado DENTRO da sua cabeça;

  2. A cegueira. A máscara conta com orifícios para que se possa ver mesmo com ela, mas eles estão sempre recortados no lugar errado, um pouco mais acima ou um tantinho mais abaixo. Se quiser enxergar, precisa pegar emprestados os olhos de outra pessoa (ou os seus próprios) e encaixá-los nos buracos;

  3. Respiração defeituosa ou falta de respiração por completo. O que faz com que você necessite de outra máscara, desta vez de oxigênio;

  4. Insonia. Não é possível dormir com a máscara;

  5. Projeções. Principalmente à noite, quando escurece e a superfície branca e lisa se transforma numa tela;

  6. Delírios. Autoexplicativo;

  7. Fome. Não há boca na máscara, o que causa também o efeito colateral seguinte;

  8. Silêncio.

Você olha para a máscara e ela finge que te olha de volta. Você se lembra de alguns cheiros que sentia mesmo com ela e seu coração responde porque o olfato é mnemônico.

(Sinto um enjoo toda vez que abro esse arquivo e nunca consigo terminar o texto).

O texto me fez refém e me lembra das noites mortas, da vertigem e do fracasso. Do centro baleado da minha existência.

A máscara é a melhor amiga da falha.

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