ANUNCIAÇÃO – 1. Paris (35 – 33)

ANUNCIAÇÃO

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais
Tu vens, tuvens
Eu já escuto os teus sinais

(Alceu Valença)

Quando você está fraco, você fala sozinho.

Você me disse uma vez que nunca deixa de se sentir sozinho, que só eu amenizo a sua desconexão com o mundo. Mas, pra mim, nós somos como dois pontos em retas paralelas. Dois pontinhos minúsculos como todo ponto, por mais que você se veja como um sol e a mim como outra estrela de igual magnitude. Eu não me vejo além do espaço em branco entre duas linhas cheias de letras. Letras, letras. Vírgulas, espaços. Na sua língua existem vírgulas? E espaços? Nos comunicamos em inglês. Sempre. Um idioma que não é meu nem seu. Por isso, nos entendemos pouco por palavras.

A milésima vez que te vi foi a primeira que você me viu.

Foi em Paris, uma cidade da qual não gosto e você finge gostar. Talvez eu finja também. Só parei em Paris porque decidi que não queria pegar outro avião para ir de Londres a Turim. A melhor opção era o trem que fazia uma parada em Paris. Você foi pra lá porque se escondeu. Nunca lembro o nome dos bairros; além de não gostar da cidade, não falo francês. Gare de Lyon. Um hotelzinho safado perto da estação de trem. A Europa é cheia de hoteizinhos safados que cobram os olhos da cara. Deveria ter ficado uma noite lá e partido para Turim. Mas seu rosto, mais uma vez, me atrasou.

A primeira vez que te vi – digamos oficialmente – foi em Hong Kong.

Você tinha vinte e oito anos e estava no auge. No palco, o rosto com a mesma expressão da estátua de Buda que vi certa vez na antiga casa de Jim Thompson transformada em museu, em Bangkok. Um Buda sereno, olhando pra baixo, num quase sorriso. Você, sem tirar nem pôr. Seu rosto tão, tão, tão asiático. Mesmo que “asiático” seja genérico para falar de você, é tão perfeito quanto “sul-americana” para me descrever. Essas duas características abrem uma brecha intransponível entre nós dois. Supostamente. Porque nós a transpusemos.

A primeira vez que você me viu foi em Paris.

Na porta de um restaurante coreano na Bastille. Você fumava um cigarro, a cabeça enfiada em uma touca de lã, a barba rala por fazer, óculos redondos de aro dourado que eu não sabia se eram por miopia ou por estilo. Não tinha mais vinte e oito anos. Pro resto do mundo, talvez a idade tivesse começado a enfear seus traços lapidados de ídolo. Não pra mim. Seus olhos naturalmente semicerrados, felinos, me sacudiram inteira.

Precisava dar um jeito de falar com você, ignorando seu desconforto por alguém o ter reconhecido, ou não seria capaz de seguir meu caminho. Nem tinha um caminho, pra começar. Na manhã seguinte, um trem para Turim. Pra que um trem para Turim? Pra que um hotel meia-boca em Gare de Lyon? Pra que um avião de volta pro Brasil dali a não sei quantos dias? Pra que qualquer lugar que não fosse a calçada do restaurante coreano, que não fosse seu cigarro, que não fosse sua touca preta de lã e seus óculos dourados?

Mesmo desconfortável, você me olhava.

E eu me sentia voltando no tempo, até Hong Kong, até dias um pouco mais jovens.

Acendi também um cigarro. Te pedi um isqueiro, ainda que tivesse um na bolsa.

Quantas pessoas o haviam reconhecido nos últimos anos? Ali, longe do seu país, longe da sua era de glória internacional. O cigarro foi queimando rápido demais. O seu. O meu era puxado com nervosismo todinho para dentro do meu pulmão. Eu imaginava meu pulmão preto ganhando mais um pontinho escuro. Aspirei também o final da sua fumaça. Rezei pra que ela me matasse um pouco.

Você deu um passo.

Seu sapato era um Dr Martens básico, seguro, que refletia vagamente seu passado de ícone da moda.

Chamei seu nome – não o artístico, o real – sem o sufixo honorífico que sua língua determina, e assim ele me pareceu cru, errado. Íntimo demais. Você se virou para me olhar e eu quis engolir a palavra de volta, as seis letras romanizadas escritas dentro da minha cabeça como se existissem de verdade, como se não fossem impostoras, forjadas pela linguagem para que eu fingisse compreender e ousasse pronunciar uma palavra que jamais me pertenceria.

Hoje, esse encontro me parece impossível de ter acontecido.

Você me respondeu com um arquear de sobrancelhas.

Eu disse meu nome e ofereci minha mão.

Nem um sorriso. Mesmo assim, não havia frieza na sua boca. Tampouco nas suas sobrancelhas.

Mais tarde, eu descobriria que seu esbanjar de sorrisos dos anos de fama o havia transformado num homem sério. Não fechado ou taciturno. Mas agora você preferia guardar o sorriso do lado de dentro. Ele continuava existindo, só que virado do avesso e confortavelmente acomodado junto ao forro de veludo da sua alma. Tinha certeza que você era todo forrado de veludo – seu tórax, suas costelas, até seu crânio. Um interior acolchoado e bem-acabado em veludo de seda como os sobretudos que você costumava vestir.

De certa forma, antes de você chegar, escutei seus sinais. De longe. De longe no tempo, que é ainda mais longe que no espaço. Você já havia me inspirado tantos livros, tantas noites despertas e tantos passos deliciosamente errados. Acabou que você, durante todos aqueles anos de espera unilateral, se enfiou também entre as linhas pretas e a página branca. Minha página. Minhas linhas. E, quando aceitou apertar minha mão estendida, seu passado e seu presente dançaram entrelaçados num só corpo diante dos meus olhos. O fracasso que eu era, estranhamente, tornou-se menos romântico. Ficou claro o amálgama decadente que nos últimos anos atendia pelo meu nome. Porque seus olhos refletiram com primor a luz de uma estrela morta. Senti-me brilhar.

Você me perguntou se eu queria beber alguma coisa. Sugeri o restaurante coreano logo ali, você negou. Levou-me a um bar na esquina da mesma rua, as pessoas francesas bonitas e jovens ignorando o frio nas mesinhas do lado de fora. Você queria sentar na área externa e eu tive que lhe dizer que sou brasileira, que era a única por ali de luvas, que o máximo de frio no meu Rio de Janeiro atingia dez graus a mais que aquele fim de outono em Paris. Você riu um pouquinho, de leve, com o canto da boca e ficaram bem nítidos os dois anos a menos que você tinha em relação a mim. Diferença irrelevante, mas dá pra ver numa hora dessas. Eu te olhei sendo um garoto por dois segundos naquele sorriso, depois se convertendo no homem de trinta e três anos novamente ao tirar os óculos e coçar os olhos cansados. Nós estamos nos tornando uma juventude exausta, afirmando que os trinta são os novos vinte, mas querendo desistir de tudo aos vinte e cinco. Chegar à minha idade é uma vitória.

Seus olhos ficaram ainda menores depois de vermelhos, os cílios curtos como se nascessem para dentro, mesmo assim nada maculava meu desejo por aqueles olhos colados ao meu pescoço. Até sua quase imperceptível falta de simetria, que eu considerava um atrativo, detinha a harmonia necessária a pôr ordem no mundo. Todas as vezes que escrevi sobre você, falhei miseravelmente em descrever sua beleza. Todas as vezes que criei subterfúgios diegéticos para falar de você sem falar de você, sua foto na tela do meu computador permaneceu injustiçada.

Queria poder discorrer sobre as cores daquela noite. Sobre os sons fragmentários daquela língua estranha, arranhada, da qual entendíamos pouco ou nada. A ambientação que permitiu nossa aproximação. Mas eu me lembro só do seu rosto e do frio. Não o frio em si, que a calefação do bar não nos permitia sentir, mas do frio presumido e antecipado. Do quanto eu quis pegar sua mão no caminho até meu hotel e enfiá-la dentro do meu casaco. Do cigarro que dividimos – o meu último, o seu já havia acabado – à espera de um táxi.

Tão logo entramos no carro, minha cabeça tombou no encosto e meus olhos se fecharam.

É aqui que tenho medo de continuar e parecer tola ou frívola. Mas preciso dizer que cometi o primeiro erro de todos dentro daquele táxi. Em minha defesa, é imprescindível assumir esse erro, por menor que seja. Deixei minha mão escorregar do colo e roçar a lateral da sua. Aquele toque banal lembrou minha adolescência, quando aproveitava qualquer brecha para provocar contato físico com o garoto de que gostava. Um braço apoiado no ombro fingindo cansaço, um ajeitar da gola da camisa. Agora, depois de adulta, voltava a me deixar envolver por tal tentação pueril. Quase o ouvi dizer: “Você sabe que vai pra cama comigo hoje, por que está tentando me cortejar?”

A verdade é que eu ainda não sabia se seria capaz de te seduzir, por mais que você já tivesse entrado no táxi comigo e permitido que eu te levasse a qualquer lugar de minha preferência. Você aproximou o nariz do meu pescoço, depois os lábios, sem chegar a encostar, aproveitando-se do meu cochilo fingido. Saltei no banco, de susto e desejo, e você riu. Fiz sinal de silêncio, dedo em riste sobre os lábios, os olhos ainda fechados. Minha mão foi arrastada pela sua, senti as unhas roídas na minha palma que logo foi pousada entre suas coxas. Dentro das minhas pálpebras, você nos seus vinte e pouquinhos anos correndo com seu cabelo descolorido pelas ruas de Londres num clipe musical. Em cerca de cinco páginas, cuspi tantos nomes de cidade que vão começar a pensar que sou uma mulherzinha mimada que mal tem dinheiro para pagar o aluguel do conjugado onde vive, mas esbanja viajando pelo mundo. Até certo ponto, é verdade. Por outro lado, grande parte do mundo descobri através dos seus olhos – e de um outro meio de transporte peculiar, mas isso deixo como assunto para páginas futuras.

Minha mão apertou os músculos da sua coxa sobre o tecido grosso da calça jeans. Aquelas pernas ainda deveriam ser as mesmas, musculosas e quase femininas, tatuadas e lindas. A unha roída do seu indicador raspou nos pelos do meu braço, o que certamente o colocou a par da minha situação vergonhosa. Você sabia que me tocar daquele jeito, ali dentro do táxi, não levaria a nada além de elevar meu desejo a níveis dolorosos. Os dez minutos do trajeto se desdobraram em outros tantos e parecia que o tempo, em vez de avançar, dava passos para trás.

Quando chegamos ao meu quarto, você tirou a touca e passou a mão pelos cabelos. Pretos, longos na frente, bem batidos nas laterais – o corte muito semelhante ao de antigamente. Larguei minha bolsa na mesa franzina que fazia vezes de escrivaninha e te ofereci uma cerveja do frigobar. Fiquei pensando se você não estaria incomodado pela falta de espaço e de luxo.

– Nós esquecemos de comprar cigarro – foi a primeira coisa que falou.

Ri porque você usou a palavra “nós”.

Vasculhei minha mala e encontrei dois maços de Lucky Strike, daqueles que a gente aperta uma bolinha no filtro se quiser mentolado; empilhei-os sobre a pretensa escrivaninha junto ao isqueiro que tirei da bolsa. Você acompanhou meus gestos com satisfação, mas não fez menção de apanhar os cigarros. Em vez disso, tirou a jaqueta de couro. Primeiro a touca, depois a jaqueta e, então, a camisa. Olhei-o se despir, petrificada, e me arrependi de não ter pegado uma cerveja ou qualquer coisa para engolir naquela hora. Você ficou nu na minha frente e eu ainda vestida, embasbacada, tentando lidar com minha falta de ação perante seu corpo disponível.

Amava suas tatuagens de gosto duvidoso. Uma referência a um anime japonês no ombro esquerdo, escritos em italiano logo abaixo da junta interna dos cotovelos, dois “x” sobre o umbigo, uma carinha sorridente na mão esquerda entre o polegar o indicador, uma frase em inglês nas costelas, a obra de um artista nova-iorquino no antebraço direito, a linha de uma coroa no esquerdo, duas palavras imensas em letra serifada, uma em cada coxa. Porém, a mais impressionante era a de um anjo sem rosto na nuca, cujas asas monumentais se estendiam pelos dois lados do pescoço.

Escondi as asas sob minhas duas mãos, como se recolhesse sua vida dentro do meu toque.

Você não me falou sobre vazio e frustração com essas exatas palavras. As exatas palavras nunca saíam da sua boca. Mas era como se seu corpo sobre o meu – enquanto você contava pedaços da sua história – perdesse peso e lutasse contra a gravidade. Seria meu papel atá-lo à terra de novo enquanto suas frases desarrumadas, encapadas de tranquilidade, fluíam por seus lábios junto com a fumaça do cigarro.

Contou que foi contratado por sua agência aos doze anos. O presidente pedia que você compusesse duas músicas todos os dias antes de dormir, não importava muito se sairiam boas ou não. Ele o estava treinando para fazer o trabalho dele de produtor desde aquela época, porque sabia que você era capaz de liderar seu grupo, que não era como os outros garotos daquela indústria. Na época, você pensava se tratar de um privilégio enorme, ter certa liberdade artística em meio a um mercado de ídolos padronizados.

– Não imaginava que já estava sendo lapidado para também me adequar a um padrão – disse.

– Porque você tinha doze anos. O que a gente pensa quando tem doze anos?

– Acho que você pensava muita coisa – seu inglês soava anasalado, o finzinho de cada palavra sumindo no fundo da garganta, lembrando um pouco o sotaque do sul dos Estados Unidos. Havia um esforço para pronunciar como um nativo, o qual derrapava toda vez que uma estrutura gramatical mais complexa se fazia necessária.

Eu realmente pensava muita coisa aos doze anos. Sempre pensei muita coisa. Nada que prestasse. Foi assim que virei escritora.

– Com a maturidade e o sucesso, comecei a me enxergar como os outros me viam. Não havia ninguém como eu. Obviamente, isso me isolava. E qualquer deslize meu seria o suficiente para pôr à prova minha moral.

O mesmo público que o abraçava estava sempre pronto para devorá-lo.

Afaguei seu cabelo como que para dizer que jamais me voltaria contra você daquela maneira. Seu corpo se retesou. O carinho não era absorvido por ele com a mesma naturalidade que o sexo. Tive um pouco de pena, mas refutei o sentimento porque tentava me convencer que você não o merecia.

– Pode me dar um cigarro? – pediu. Era estranho o jeito como você falava, com palavras demais, formal num idioma de poucas formalidades como o inglês. Muitas palavras desnecessárias.

Você se ergueu para que eu me levantasse. Peguei um dos maços sobre a mesinha e o trouxe para a cama, junto com o isqueiro. Era um isqueiro ridículo com a imagem de uma arara, que eu tinha comprado por dois reais numa banca de jornal no Centro do Rio. Por algum motivo, eu gostava daquele isqueiro, talvez justamente por ser ridículo. Puxei dois cigarros e pus um na sua boca. Não queria mais ouvi-lo falar, na verdade. Sua história não era novidade pra mim. Seu corpo tinha me deixado dolorida, de um jeito bom, como que estufada e preenchida por dentro. Queria que você chupasse meus seios como minutos antes, porque assim eu poderia parar de fingir reações a tudo que você contava, como se não conhecesse cada um daqueles fatos, como eles não fossem páginas impressas e afixadas nos murais da minha própria história.

No meu país, as pessoas tendem a culpar os outros pelas próprias falhas – eu disse. – Parece que no seu elas culpam a si mesmas por tudo, inclusive pelas desgraças alheias.

Há tanto orgulho da baixa criminalidade, da falta de violência, que não se enxerga a violência verbal como um problema. Você deve conhecer como ninguém o peso das palavras.

Gostaria de ter perguntado se já havia lido algum livro meu, mesmo que traduzido para o inglês e não na sua língua materna. Mas achei melhor não. Nenhuma resposta me deixaria satisfeita. Caso você dissesse que sim, não haveria mais maneira de tentar esconder o fracasso que eu era. Contudo, se a resposta fosse negativa, eu me sentiria renegada e preterida como nunca antes.

 

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