I need somebody. I ain’t got nobody. (Hello?)

Eu luto com isso. Com a distância das pessoas, com não conseguir entender, com não ser entendida, com o medo de falar. Eu luto contra estar sempre em outro lugar. Deveria ser adulta, na idade do amadurecimento, coisa que é natural pras outras pessoas pra mim é bloco de cimento. Uma parede d’água. Hoje eu vi as cataratas. Hoje vi você nas cataratas. Senti o cheiro que inventei pra você e lutei mais um pouco pra minha mente não pifar. Estou lutando agora. Você está? Está em algum lugar?

Não dormi, não chorei. Ontem, ao te ver no palco, eu amei. As outras pessoas que eu amo se tornaram uma sombra. Eu me tornei uma sombra. A gente, nós, mulheres, a gente nasce aprendendo a ser sombra e foi isso que eu virei. Te disseram que você seria luz. Eu quero ser luz. Eu quero lutar, mas transformada em luz. Isso não faz sentido. Nós deveríamos ser iguais na luta e na solidão.

Num ônibus saindo de Niagara, onde você provavelmente (foi coincidência, juro) está hospedado, e a chuva cai. Eu queria a chuva. É verão e aqui faz calor de verdade. Pelo menos, hoje fez. Eu encontrei minha voz no curto circuito mental. Minha voz ecoa nessas planícies fantasmágoricas, minha voz não deixa que eu me apague.

I need somebody. I ain’t got nobody.

Sou uma estrela ao contrário. Estou perfeitamente misturada no meio de tanta gente. Você, isolado de tanto brilhar. Eu, apartada de mim mesma e do meu rosto igual a tantos outros. Sem destaque. Irreconhecível.

Quero gritar. Talvez esteja doente. Minha idade me diz que, se for depressão de novo, dessa vez não vou aguentar. Tenho alguém que eu amo do outro lado dessa cortina ilusionária. Alguém que ainda não desistiu de mim. Fui sendo desistida por quem me amava. Só sobrou ele. Minha vida com ele é clara e feliz. Mas, no momento, estou separada de mim mesma e não posso tocá-lo.

Quanto tempo mais ele vai aguentar? Talvez ele não tenha ciúme de você porque você é só um brilho distante, um amor febril. Um algo que não se pode chamar de amor. Essa estrada a milhares de quilômetros a qual eu percorro sozinha e que já se descaracterizou, não sou mais eu. Minha cara de novo desbotada pela chuva.

Ontem, depois de te ver no palco voltei sozinha pro meu apartamento alugado. Ele fica numa área bem residencial de Toronto, quieta, perto de um parque. Caminhei pelas estradas solitárias que cortam o bairro, a partir do metrô, e quis me perder no meio das árvores. Você fez com que eu quisesse me embrenhar na morte verde e me deixar pra lá. Por lá. As palavras também começam a pifar. Tenho sono. Dormi quatro horas essa noite e o ônibus voltando de Niágara está preso no trânsito. Amanhã eu volto pra casa. Acho que parou de chover. Você está dormindo?

Não pensei que fosse ficar tão abalada. Obrigada.

Faz diferença quando você pode colocar sua dor num pedestal e transformá-la em espetáculo? Quando você pode projetar o próprio rosto num telão e tentar se confessar em meias palavras à multidão. Quando parece que alguém escuta.

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