Debaixo da unha

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Já falei de silêncio. E já falei de vozes. Mas na verdade todo esse tempo eu queria era ter falado dessa coisa que fica no meio, entre silêncio e vozes. Dessa coisa que não se cala e não se cospe. Dessa madrugada engasgada.

Mas essa coisa não se fala. Esse é o problema dela. E essa coisa também não se cala, é óbvio. Então, minhas unhas mandam. Minha pele rasga. Hoje mesmo consegui um roxo na perna de tanto coçar e eu não sei por que. Parece que rompi uns vasinhos perto do joelho sem querer. Claro que foi sem querer. Eu acabei de apagar uma frase por me sentir culpada. Uma frase, como tantas outras coisas, que as pessoas guardam para não se sentirem culpadas. Culpa é isso. É carregar um monte de peso morto. É carregar as frases deletadas bem debaixo da unha. Da unha que arranha a pele e rompe os vasinhos.

Eu tinha um blog-diário anônimo. Comecei no primeiro dia desse ano e escrevi uma página por dia (eu dizia que era página mas era só um post, às vezes tinha um parágrafo ou uma linha, às vezes um pouco mais que isso) até maio. Consegui seguir com o diário por cinco meses quase completos. Mas agora sinto falta dele. Nele, poucas coisas restavam debaixo da unha. Mesmo assim, sinto que aqui posso ser mais eu mesma. Usar um outro nome e uma outra cara é uma ilusão de liberdade. Aqui, por mais que meus silêncios culpados recortem meus textos, pelo menos a cara é minha. O nome é meu. E isso vale mais que qualquer verborragia anônima.

No outro blog, eu falava muito sobre ser escritora. Sobre meu processo criativo. Sobre como é essa vida. Aqui, nunca falei disso. Não sei por que. Sempre me senti obrigada, aqui, a usar metáforas. E agora mesmo estou lutando contra elas. Sem metáforas para os vasinhos arrebentados. Sem qualidade literária. Mas com a constante pretensão que me escutem. Que eu me sinta menos sozinha, sem chegar a perturbar ou preocupar alguém.

Eu não tenho lâminas.

Exceto aquelas debaixo das minhas unhas.

Só que às vezes eu quero arrancar toda essa pele morta, me esquecendo que ela cai sozinha. (Até eu caio sozinha.) E tento acreditar no que dizem – eu acredito na ciência com a fé dos religiosos – que nossa pele se renova de tantos em tantos anos. E os meus vasos sanguíneos? Aqueles que se rompem. O que acontece com eles? Voltam à forma anterior, como se nada houvesse acontecido? Perdoem minha ignorância. Eu não sei falar de nada que preste pro mundo. Mal sei falar de coisa que presta pra mim. Mas eu preciso. Preciso tirar a pele morta. Não tenho paciência para esperar ela cair.

Queria escrever uns textos incríveis com opiniões e reflexões. A madrugada que dorme em mim durante o dia não me permite. As desculpas fajutas que eu crio para não fazer as coisas não me permitem. De manhã, o buraco metafórico no meu tecido conjuntivo vai ter aumentado. Cada dia ele vai aumentando. Cada dia, tem algo dentro de mim que vai se alastrando e eu não sei bem o quê. Por isso, poemas. Por isso, poesia morta em enredo e personagens. Mentira. Por isso, silêncio.

Por isso, vocês veem minha cara que não é bem minha cara e nunca vai ser. Tem alguém que mostra a própria cara algum dia? Deve ter. Enquanto isso, a gente vai vivendo nas frestinhas. Amando, mesmo que tudo dentro de si diga que não tem propósito. Acordando e respirando por que como não acordar e respirar? Arquitetando motivações e injetando-as nas veias – injetando metaforicamente nas veias metafóricas, claro. Arrumando frases novas e matutando palavras diferentes pra dizer as mesmas coisas. Lendo e relendo o texto pra ver se a frase de efeito mal trabalhada tem jeito de fim.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Falling-329301394 (editada)

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