Conto Noturno da Princesa Borboleta – o trecho esquecido

demolition_lovers_by_putrithewicked

O campo, o sol fraco, o vento frio, aquelas mãos brancas e ásperas… Tudo configurava uma história de princípio sem fim. Aqueles pequenos dentes que se mostravam num sorriso davam a ela uma esperança jamais sentida, a sensação de um futuro. Um futuro promissor ou frustrado, não sabia.
O campo deixava ver as montanhas e o céu limpo. Os ares eram muito mais respiráveis que na cidade dela. Mas isso não fazia muita diferença. Criança da poluição, da metrópole e do mundo virtual, criara um sistema imunológico forte. E um coração também. A partir dali, seu coração construiria um ninho onde repousar das flechas do mundo, dos gritos do mundo, das vozes do mundo. Eram muitos os chamados. Ela não tinha as respostas. Lembrou-se do rosto de sua mãe e sentiu-se triste por ela. Era ainda sua filha? Viu o homem à sua frente, ele não a olhava mais, virava-se para o abismo. Ela teria que morrer para vivê-lo. Jogou-se em seus braços como quem se lança ribanceira abaixo.
– E agora? – perguntou a ele, sem esperar instruções.
– E agora… – ele parecia não ter resposta.
– Vamos esperar o acaso decidir o que vai ser de nós?
– O acaso nunca fez parte da nossa história. Por tudo que vivemos, desde quando nos conhecemos, fomos nós os responsáveis. Desde quando você escolheu o meu cartão dentre os dos outros chapeleiros.
– Você quer dizer que eu não te escolhi por acaso? Então foi o quê? Destino?
– Não. Foi só uma escolha.
– Como assim?
– O que te levou a selecionar meu nome?
– Exatamente isso, o seu nome. Achei curioso por ser estrangeiro. E porque eu sabia o significado da palavra Way. Mas não sabia que existia o sobrenome Way. Achei curioso.
– Isso quer dizer que você escolheu me conhecer.
– Mas você me encontrou por acaso.
– Eu não usaria essas palavras. Prefiro dizer que fui responsável pela sua escolha. Eu tive algo que te atraiu.
– Isso te deixa à mercê do que chamam de destino, não?
– Você é muito romântica, menina.
Houve uma pausa.
– O que aquele seu namoradinho queria com a minha avó?
– Não sei, mas tenho uma suspeita. E ele não é meu namorado.
– Terminaram?
– Deixa de ser bobo.
– Só você pra me chamar de bobo, minha criança.
– Eu ainda pareço criança pra você?
Ele riu, jogando a cabeça um pouco para trás, como costumava fazer. Apertou a cintura dela entre seus braços e pôs a cabeça sobre seu ombro, abraçando-a.
– Há tanto que eu queria que você soubesse – começou ele. – Tanto que eu poderia dizer. Mas não sei como. Ou sei. Acho que sei, mas não consigo. Se eu morrer, quero que você saiba, todas essas coisas lindas que você fantasia e eu nunca disse… Considere-as ditas.
– Não sei que coisas são essas. Só sei que você não vai morrer.
– Pra você eu sou imortal, não sou? Acho que você ainda pensa que eu sou um vampiro ou algo assim.
– Enquanto existir a minha memória, você vai permanecer vivo.
Naquele momento, ele pensou que ela fosse perguntar seu nome. Mas ela não o fez. Contentou-se em chamá-lo pelo apelido preferido dentre os que inventara. Então, ela o ouviu fazer o que jamais havia feito perto dela. O rosto apoiado no ombro da menina, G. cantou. Bem baixo, com palavras entrecortadas e pouco compreensíveis.
– Ah, o que é isso? Você tá cantando? – ela o ouviu por algum tempo antes de falar.
– Alguma coisinha.
– Que bonitinho! – apertou-o contra seu corpo. – Vai me dizer que toca gaita de fole também?
– Um pouco.
– Há! Essa é boa! Toca pra eu ouvir.
– Vem cá.
Ele a conduziu até sua casa.

Imagem: http://www.deviantart.com/art/Demolition-Lovers-67274517

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s