OS CADERNOS DE FRANK: G.

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Hoje ouvi alguém falar de você. Foi durante o lanche e eu não estava pensando em você. Comia meu pão de forma recheado com queijo e presunto e lia um livro de contos do Julio Cortázar. Até que estava imerso na história e faltavam dois parágrafos para a conclusão do conto quando seu nome surgiu na boca de um colega qualquer de classe. Sinceramente, não lembro o que ele disse sobre você. Tampouco me recordo os dois últimos parágrafos do texto do Cortázar.

Quando terminasse de comer no pátio interno do colégio, me enfiaria no pequeno bosque perto da pista de atletismo, longe das vistas dos inspetores, e fumaria meu cigarro. Aquele cigarro que antigamente era acompanhado por você, e que há mais ou menos dois meses eu fumava sozinho. No momento em que ouvi seu nome, foi apenas nisso que pensei. Nos minutos que passávamos ali, fumando juntos e conversando sobre assuntos dos quais não consigo mais me lembrar, mesmo tendo se passado tão pouco tempo. Ou então quando você me ouvia tocar violão encostado a uma árvore, lendo seu quadrinho em silêncio, deitado na grama. É estranho como conseguimos nos apegar tanto às pessoas em tão pouco tempo. Mas eu não deveria dizer “pessoas” quando me refiro a você. Ao ver desconhecidos passarem na rua, ou mesmo os outros garotos e garotas do colégio, funcionários e professores, toda essa gente que me cansa só de olhar no meu dia a dia, começo a me perguntar como as pessoas possuem a incrível habilidade de serem tão iguais num mundo tão grande.

Mesmo antes de tudo acontecer, quando a única saliva que trocávamos era a que ficava no filtro do cigarro, eu já não me sentia mais tão sozinho. Quando estava com você, nesses breves momentos de clareza entre uma aula e outra, observava com atenção as finíssimas veias vermelhas em volta dos seus olhos cor de folha seca. Deve ser por isso que não me recordo de nenhum assunto específico sobre o qual falávamos então. Porque nunca prestei atenção. Porém, de qualquer maneira, não é como se eu não me importasse com o que você tinha a dizer. É só que seus olhos e seus lábios ficavam no caminho entre suas palavras e meu discernimento. Mesmo assim, julgo que consegui aprender bastante sobre você. Talvez seja pretensão minha afirmar isso. Não importa mais. Agora a única visão que tenho enquanto trago meu cigarro são meus tênis sujos e as barras compridas demais da minha calça.

Não sei pra onde você foi. Muito menos se vai voltar. Talvez ainda esteja perto. Ou, quem sabe, partiu de vez de volta pro seu país obscuro e longínquo. A minha impressão é que “ir embora” faz parte da sua natureza. Você me disse uma vez que não se importaria em morrer jovem. Mas o calor da sua mão suada enquanto apertava a minha me dizia o contrário. “Me segure aqui,” pedia ela, “mantenha meus pés presos no chão. Agarre meu braço como se fosse o barbante de um balão, de maneira que meu corpo não flutue para longe dessa terra”. E era o que eu fazia. O que fiz, por um período curto demais. Pode ser que tenha sido culpa minha você ter ido embora. Não tive força suficiente para segurar o fino barbante que o prendia aqui.

Imagem: http://th02.deviantart.net/fs27/PRE/i/2008/088/9/e/Sunsets_over_NJ_by_stylistic_division.jpg

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