[RESENHA] "Todas as cores do mundo", Giovanni Montanaro

Na terra dos peregrinos perenes
 
Teresa Sem Sonhos vive em Gheel, na Bélgica, cidadezinha conhecida como “terra dos loucos”. Ela não é louca, mas foi parida por uma e registrada como tal, de forma a ser abrigada pela abastada família Vanheim. A ela foi planejada uma vida confortável, com direito a dote e casamento com um homem trabalhador e justo. Até que lhe acontece Vincent Van Gogh. Ele é bem mais velho, e ainda não descobriu seus talentos como artista, mas Teresa logo se apaixona e reconhece nele seu destino como pintor.
 
Antes de continuar, preciso dizer que Van Gogh é meu pintor favorito. Por diversos motivos que não convém enumerar aqui, ele é um dos artistas que mais admiro. Saber que ele existiu neste mundo me perturba e me conforta. A primeira vez que me emocionei vendo uma pintura foi quando, ao vivo e em todas as cores do mundo, dei de cara com a Noite Estrelada no MoMA. É algo que nunca vou esquecer. Por isso, assim como Teresa, tenho certeza de que me apaixonaria por esse “andarilho de cabelos ruivos, esquivo, rude, de olhos acesos por uma febre desconhecida”. Apenas isso seria suficiente para me pôr na pele de Teresa e “viver” seus momentos com Van Gogh com o coração transbordando. Contudo, este livro me levou além do que eu esperava em razão da minha prévia paixão pelo pintor.
 
“Todas as cores do mundo” é um romance sobre transformações. Com Teresa, Van Gogh começa a se enxergar como o pintor que um dia se tornará. Da mesma forma, é através do amor e do desejo por Vincent que ela se percebe mulher. São dois caminhos sem volta. Duas estradas amargas e belas. Inescapáveis. Mas a loucura está presente o tempo todo, à espreita, aguardando a melhor oportunidade para se embrenhar no íntimo de ambos e corroê-los por dentro. E a loucura vive em Gheel.
 
Gheel é quase uma personagem da história. O lugar onde os loucos são livres e em que, algumas vezes, chegam a ser vistos simplesmente como pessoas. Assistindo à missa, caminhando pelas ruas, tendo aulas de pintura, frequentando festas – um cotidiano radicalmente oposto ao dos manicômios nas últimas décadas do século XIX. Teresa está habituada ao ambiente. Vincent, não. Ao mesmo tempo em que a cidade (cujo nome significa “amarelo” em holandês) é cenário para o seu despertar para as cores, Gheel escancara aos olhos de Van Gogh sua mais provável realidade futura: a loucura. A “peregrinação perene”.
 
O livro é uma delicada e insana carta de amor, que exprime a força das memórias como única forma de salvação e o poder das cores como meio de liberdade. Arte e amor se mesclam como as tintas nas pinceladas de Van Gogh. Desejo e pintura fundem-se, transformando-se em uma só coisa que habita a carne de Teresa e a liberta das cruéis amarras com que a sociedade a envolve. Durante a leitura, fui preenchida por uma sensação nostálgica, como se eu mesma tivesse vivido aquelas tardes com Vincent na Campine, como se ele estivesse me transformado e eu a ele. Mas, ao mesmo tempo, senti-me o próprio Van Gogh. Nas palavras dele, “uma pessoa a ignorar. Um instintivo, um homem de paixões, que não sabe se administrar”. Um louco. Fou roux.
 
É nítida a variação de claro-escuro que permeia a narrativa. A juventude, a despreocupação, a descoberta do dom e do amor. A decadência, a perseguição, a pobreza e a loucura. O claro é representado pela inocência, por acreditar que se pode ser tudo aquilo que se deseja ser. O escuro, pela ciência, por tornar-se ciente que nem sempre nosso destino nos pertence; que, muitas vezes, somos levados pela loucura. Ou pela sociedade que a renega e condena, mesmo a tendo criado e alimentado, por não saber como lidar com ela.
 
Alguns dos meus (muitos) trechos favoritos de “Todas as cores do mundo”:
 
“A todos acontecem o amor, a noite, o silêncio; a todos acontece a traição das coisas belas e desejáveis.” (Pág. 25)
 
“Até a morte tem uma cor própria, pensei. Toda coisa tem sua própria cor.” (Pág. 25)
 
“As lembranças se sucedem, se somam, se sobrepõem. Brincam comigo. Zombam de mim. Clareiam-se, desmentem-se, contradizem-se e, de repente, ameaçam: contam tim-tim por tim-tim tudo o que não nos tornamos. E depois de novo nos consolam, eliminam parte daquela dor, esquecem junto conosco, nos dão razão.” (Pág. 45)
 
“É pela cor que se compreende se os frutos estão maduros, se uma boca é saudável, se um melro é fêmea ou macho, se um inseto é perigoso, se um cogumelo é comestível, se o dia acabou e se a água pode ser bebida. Se a pessoa está feliz ou triste.” (Pág. 86)
 
“Eu sabia que era proibido, que estava ficando louca como minha mãe, mas a mão descia, era tão bom pensar que todo aquele corpo era meu, só meu, e que o senhor também, talvez, podia ser meu, daquele corpo, e suas pinturas podiam me mostrar aquilo que eu não sabia que era, suas palavras belas podiam me descrever, ser todas minhas.” (Pág. 93)


[LEIA AQUI MINHA HISTÓRIA INSPIRADA POR VAN GOGH]

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