[RESENHA] "Kafka à beira-mar", Haruki Murakami

À beira do mundo
 

“Kafka à beira-mar” tem dois protagonistas: o adolescente Kafka Tamura, que foge da casa onde vive com seu sinistro pai e parte em busca da mãe e da irmã, e o deficiente mental Satoru Nakata, um homem de sessenta anos capaz de falar com gatos. A exemplo dos protagonistas, o romance é repleto de personagens solitários, excluídos da sociedade moderna. “Sempre me interesso por pessoas que se põem à margem da sociedade, que se retiraram dela. A maioria dos personagens em Kafka à beira-mar está, de uma forma ou de outra, marginalizada. E Nakata, definitivamente, é uma dessas”, disse Murakami.

Meu corpo demorou a se recuperar deste livro. Cerca de uma hora depois de terminar de lê-lo, meus olhos ainda ardiam e meu peito conservava a sensação oca que vem depois do choro.

Li este livro em um mês e parece que, durante esse período, fui inconscientemente levada até a “borda do mundo”. Mergulhei de tal forma no universo deste romance que estava difícil me conectar com o mundo aqui de fora.

Quem me puxou primeiro foi o Menino Chamado Corvo, alter-ego de Kafka Tamura, com suas metáforas (a história, inclusive, é permeada com genialidade por metáforas – entretanto, na minha opinião, são as não-metáforas que fazem a grandiosidade desta obra). O rio de águas escuras. A tempestade de areia: “Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez o seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo”.

Depois, de forma breve porém marcante, vem Sakura com toda a vida das mulheres murakamianas. Forte e generosa sem deixar de ser delicada, com aquela pitada de destrambelhamento que dá a graça.

O brilhante Oshima me arrepiou até o último fio de cabelo. São dele as melhores frases do livro (e também a revelação mais surpreendente). Difícil falar mais sem dar spoilers, mas para mim Oshima é um símbolo. Um ícone de muita coisa em que acredito.

Quanto à Sra. Saeki… ah, como me identifiquei com ela! Ela, junto com seu reflexo de 15 anos, é o elemento lírico da narrativa. Pura poesia, puro amor, imagem de sentimentos que temos e não sabemos nomear ou classificar. (Curiosidade: o músico Strummer Swansong criou uma melodia para a canção intitulada “Kafka à beira-mar”, composta e cantada na história por Saeki quando jovem, ouça o resultado aqui)

Por último, Nakata. Eu poderia dedicar uma resenha inteira a ele. Este sem dúvida é um dos meus personagens literários preferidos (e ganhou uma tatuagem no meu braço esquerdo). Porque me fez chorar “sem motivo”, por se parecer fisicamente com meu avô, por ser o velhinho mais fofo do mundo. Em sua infância, Nakata, após ficar dias desacordado por razões misteriosas, deixa de ser o aluno brilhante que fora e perde a capacidade de ler e escrever, além de ficar “com a cabeça fraca”. Por isso, sua vida é simples e ele não se incomoda com isso. Nakata não sabe o que é se aborrecer. Mesmo assim, o velhinho desprovido de vaidade e ambição, não tem medo ser grande. É ele que costura a história quando aceita cumprir sua missão.

Percebi agora que deixei de falar sobre o protagonista, Kafka Tamura. À primeira vista, é um personagem não muito simpático e de difícil empatia. Mas não demorou muito e eu passei a sentir na pele a amplitude de seus desejos, sensações, emoções, prazeres, medos, etc. Comecei a “ser” Kafka Tamura. A amá-lo desesperadamente. Provavelmente, é ele que ainda sinto dentro do meu corpo, ele que se embolou com o que eu sou, emaranhando os fios da sua história, das suas lembranças com as minhas. Bom, acho deve ser assim com qualquer protagonista. Isso é só mais uma das faces do talento de Murakami.

Abaixo, alguns dos meus trechos preferidos do livro:

“É muito difícil distinguir céu de mar. Ou o próprio navegante do mar. As coisas reais das coisas emocionais.” (Pág. 33)

“Essas histórias disparatadas, inventadas e escritas há mais de mil anos, vêm ao meu encontro com muito mais vitalidade do que as dezenas de pessoas sem rosto que vi perambulando no interior da estação. Como é possível? A questão me parece um mistério.” (Pág. 73)

“Se eu dirigisse ouvindo uma execução perfeita de uma obra também perfeita talvez me viesse a vontade de fechar os olhos e morrer. Mas ao ouvir a ‘Sonata em ré maior’, detecto em vez disso os limites da diligência humana. E então compreendo que certo tipo de perfeição só se atinge pelo infinito acúmulo de imperfeições. E isso me dá coragem.” (Pág. 139)

“O que nós denominamos ego e consciência têm, como no caso dos icebergs, grande parte do seu domínio submersa em profundas trevas. E é essa dissociação que origina em nosso íntimo profunda inconsistência e confusão. […] Os sentimentos mais intensos que nós, humanos, experimentamos, são ao mesmo tempo particulares e negativos.” (Pág. 278)

“- Tchekov quis dizer o seguinte: a necessidade é um conceito soberano. É estruturalmente diferente da lógica, moral ou sentido. Ela apenas concentra funções de personagens. As desnecessárias a personagens inexistem, mas as necessárias devem existir. Isso é dramaturgia. Lógica, moral ou sentido se evidenciam não por si mesmos mas em sua relevância.” (Pág. 351)

“- Não consigo explicar direito. Mas percebo essa mudança. Na pressão atmosférica, na maneira como o som reverbera e a luz reflete, no modo como o corpo se move e as horas passam… Em tudo isso, gradualmente. Como se minúsculas gotas de mudança estivessem se juntando para produzir uma correnteza.” (Pág. 390)

“Nós todos somos destruídos e desaparecemos porque o mundo se estrutura sobre destruição e perda.” (Pág. 413)

 

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Um comentário em “[RESENHA] "Kafka à beira-mar", Haruki Murakami

  1. Adorei os seus comentários sobre essa obra peculiar. Bom ou ruim, Murakami sempre nos premia com algo diferente. Gostei bastante desse livro mas devo dizer que prefiro a melancolia das obras mais recentes dele.
    Tenho que te agradecer imensamente por ter postado a música também. Só melhora a minha experiência com o livro e que música fantástica!! Me evoca uma série de momentos e imagens da minha vida
    E fiquei bem curioso, você tem uma tatuagem do Nakata no seu braço???

    Mais uma vez, parabéns pelo texto

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