Sobre o momento em que percebemos uma mudança irreversível e outras formas de enlouquecer (ou crescer)

 
 
 
 
“Aquele que verdadeiramente só quer seu destino já não tem semelhantes e se ergue solitário sobre a terra, tendo a seu lado somente os gélidos espaços infinitos. […] Aquele que só quer seu destino já não tem modelos nem ideais, amores nem consolos.”
(Hermann Hesse – “Demian”)
Vejo pequenos seres alados tangenciando a porta da minha geladeira. Eles são criados por um defeito de comunicação entre meu olho e meu cérebro, não por drogas (a menos que você considere muitas horas seguidas de descolorante no couro cabeludo como drogas). Hoje, decidi ficar sozinha. Hoje, minha idade me disse que, se ela fosse um pouco menor, talvez eu enlouquecesse. Por isso, meu olho não viu muito a luz do dia e decidiu criar suas próprias distrações. Meu olho tem vida própria.
 
Nada nesta casa é o que parece.
 
Existem esses seres alados feitos de não-luz. Existe o macaco de pelúcia que parece um cadáver sobre a minha cama, a cabeça mole pendendo da cabeceira. Existem as vozes de algum lugar assustador dentro de mim que se manifestam, em sussurros infernais, mais ou menos uma vez a cada três anos. Faz tempo que não aparecem. Poucas semanas atrás, tentaram vir, mas eu acho que já aprendi a impedi-las. Não penso na próxima vez.
 
Há a chave que fica na fechadura do lado de fora do meu quarto. Há todo o meu trabalho que vai, por fim, terminar no ralo.
 
Hoje fiz para mim mesma um juramento que sei que vou descumprir. Jurei nunca mais falar a ninguém meus sentimentos, mantê-los apenas como matéria-prima da escrita. Assim não parece tão ridículo. Aceitei que devo seguir sozinha nesse mundo e que os espelhos nada significam. Meu rosto não é mostrado nos espelhos. Meu ser tornou-se apenas vontade. Aos poucos, vou me tornando inteiramente meu objetivo. Isso não significa que eu esteja repelindo as pessoas. Elas são o amor, o oxigênio responsável pela manutenção da minha existência física. Mas não devem me apontar o caminho, sequer me acompanhar nele. Eu me tornei meu caminho.
 
Posso estar partida, mas tenho todos os meus pedaços comigo.
 
 
 
 
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