Ainda sobre o silêncio

Nesses últimos dias, o silêncio tem sido meu maior inimigo. De certa forma, durante toda a minha vida. Mas nestes dias eu tenho pensado mais sobre ele (quase todos os meus textos mais recentes têm discorrido sobre o mesmo tema). Sobre o peso que exerce em quem eu sou. Sobre o modo como seu fio invisível perpassa toda a minha vida. É um fio que descostura ao invés de coser. Um fio que, no lugar de unir, afasta.
Meus pensamentos não verbalizados, ou seja, minhas percepções do mundo, meu sentimento de solidão, meu incômodo em relação a como sou tratada pelas outras pessoas, meus ciúmes infundados (e os fundados também), minha insatisfação comigo mesma e até meu desejo de dar carinho gratuito ou necessário àqueles que eu amo: tudo passa como uma nuvem que ninguém se deu ao trabalho de erguer a cabeça para o céu e olhar. Porque ficou lacrado dentro de mim. E talvez seja isso, este silêncio, que esteja me fazendo desaparecer (vide textos “Sou eu que estou desaparecendo ou é o mundo?” e “Espelho a 45º”).

Agora é muito provável que eu esteja falando sozinha. Isso quer dizer o seguinte: não ser capaz de provocar em quem lê alguma identificação com o que eu digo. De certa forma, é o medo que isso ocorra que me cala. Na escrita, não tenho (tanto) esse medo. Mas no dia a dia, na hora de abrir a boca e me posicionar, o receio de não criar uma empatia com o receptor me apavora. Não preciso nem ir tão longe. O medo da falta de compreensão já me faz recuar. E por que as pessoas não compreenderiam? Porque elas não me conhecem o suficiente. E por que elas não me conhecem o suficiente? Porque eu não falo. É um ciclo vicioso.

A dura verdade é a seguinte:

Não sou nem um terço do que eu realmente sou. Ou posso ser. E isso me causa dor.

Me causa dor não dizer que me senti ofendida, injustiçada, incompreendida, renegada, esquecida e – o pior de todos para esta esponja de amor que eu sou – preterida. Tudo isso, cada uma dessas palavrinhas, vai se acoplando, se mesclando, se dissolvendo no que eu sou. Cada uma dessas coisinhas que incomodam e eu deixo de falar acabam fazendo parte de quem eu sou. Isso dói horrores. Mas, pior ainda, isso insensibiliza. Estou fazendo de mim mesma uma pequena pedra de gelo. Pelo menos é o que o mundo externo deve enxergar. Só que aqui dentro de mim a temperatura é altíssima. Isso faz com que a pedrinha de gelo derreta. É assim que eu começo a desaparecer.

Sim, eu amo. Muito. Cada dia eu morro um pouquinho por quem eu amo. Era só isso que eu queria poder falar para o mundo. Mas tenho um pavor terrível que o mundo não entenda.

Principalmente, não quero deixar de amar por causa do silêncio.

Acho que não sou capaz.
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