sangrando flores

Ela estava acostumada às batalhas sem fim. A olhar pelo bocal do mundo e ver seus inimigos lá. Ela estava acostumada a ter as flores como única companhia, porque as flores são belas. Porque as flores não brigam. Ela se viu com um punhado de pregos nas mãos e, de repente, quis cravá-los nas flores. Quem sabe, pensou, quem sabe reajam. Quem sabe comecem uma guerra. Eu já estou lutando.
Ela chorou, pois não queria pelear com as flores. E, apesar de ser capaz de combater qualquer coisa, contra aquela vontade não podia lutar. Olhou os pregos compridos apertados contra a palma da sua mão pequena (pois era uma menina) e imaginou que seria capaz de derrubá-los no chão. De largá-los pra lá. Ela era uma menina. Mas a sua raiva era a de um monstro.
– Eu vou… – disse ela.
Eu vou deixar pra lá.
Tão logo disse isso, o primeiro prego caiu e atingiu-lhe o peito do pé. Perfurou o sapato e atravessou a carne e os ossos. Fincou-se no chão. Ela estava grudada ali para sempre. Seu choro cessou porque a dor o fez cessar. As flores sorriram. Ela esticou o braço com o restinho de força que possuía e fincou um prego em cada flor. Felizmente, ainda tinha pregos o suficiente. Seu pé milagrosamente se soltou do chão. Mas ainda estava doendo. Muito.
Estava sangrando.

 

As flores, porém, não sorriam mais.
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