que não me pertence (ou atelofobia)

We’re on the same side in the same war
Why stay ‘til you see blood?
(Anberlin – “Self-starter”)


O que me traz aqui de volta é, mais uma vez, uma ferida.

Um corte fino no dedo indicador da mão direita que eu não faço ideia de como consegui. Alguns minutos atrás ele não estava aqui. Agora está. Não consigo tocar o teclado com o dito dedo. Me pergunto se meu dedo machucado tem ideia do que se passa no meu peito, dentro dele, nesta fossa simbólica que chamam coração. As pessoas e as coisas perpassam minha consciência sem dizer a que vieram. Sou apenas arte. Fico feliz que me vejam dessa forma. Deve ser porque, entre a arte e o amor existem milhares de coisas que eu não consigo decodificar. E isso me faz sofrer.

Sinto esse peso físico. Ele está comigo o tempo inteiro. Na minha fronte, pressionando minha parede craniana e meus globos oculares. (Isso não é uma metáfora.) No meu estômago, reagindo de forma nada agradável com meu suco gástrico. E, mais uma vez, no meu peito. O coração parece bater certinho (pelo menos hoje, tem dias que descompassa), mas o pulmão está pesado e lamuriento. A garganta de vez em quando coça. E meu útero parece que quer abandonar meu ventre e sair voando por aí. Meu quadril pode se desatarraxar a qualquer momento. Este corpo e tudo que há nele (inclusive a alma) só queria ser bom.

No meio do amor e da arte, há tanta coisa.

Sinto-me burra, pois sou incapaz de compreender qualquer uma dessas coisas. É como se as informações passeassem ante meus olhos, mas não fincassem raiz no meu íntimo. É como se eu estivesse flutuando, procurando uma música, um livro, uma imagem, até um filme ou uma dança, onde me ancorar. Enquanto não encontro, sinto-me vagar. Tudo está solto por aí, todas as peças, os retalhos de uma vida que não me pertence. Não me encontro em lugar algum que não seja diegético.

Ainda, as palavras nunca estarão satisfeitas. Parece que minha dívida com elas se tornou imperdoável. Porque, ao mesmo tempo em que as mantenho cativas, libero-as a torto e a direito de maneira banal. O paradoxo é intolerável. Deus sabe quantas palavras permanecem trancadas dentro deste peito congestionado. Porque eu assim o quis (?). Ou por ser incapaz de decifrá-las verdadeiramente? Incapacidade ou covardia? Espero um dia saber. Textos não justificam minhas falhas, nem os mais carismáticos personagens, ou a mais intrincada história. Nada disso me redime com as palavras. Com o mundo. Comigo mesma. (E só Deus sabe como minha cabeça ainda dói.)

Um dia, tudo vai se esvair (não que eu creia nisso realmente, mas estou usando as palavras pra ver no que dá). Vai sair pelas úlceras, cicatrizadas ou não, que se abrem no meu corpo. Entre a arte e o amor, estão também o corpo e as palavras. (Pft! Não podia ficar pior, acabo de nomear meus dois maiores inimigos.) Está também, e uns diriam “principalmente”, o pragmatismo. Há os sonhos – e o que se faz deles. Há a derrota e, além da derrota, o aniquilamento lento, quase uma agonia. Estamos todos morrendo por dentro. Não há como impedir a derrocada. Sob este ponto de vista, sou uma suicida. Mas não do tipo que enfia uma pistola na boca e explode os miolos. Estou mais para o samurai que comete o seppuku e leva dias para morrer. Não se trata de honra. Apenas de amor por esta vida sangrenta que expõe nossas vísceras às moscas (Mama, we’re meant for the flies.)

Cada artista, indubitavelmente, vive em busca de uma verdade que seja a sua. Se possuir autêntico talento, cada uma de suas obras o aproximará ou, ao menos, o fará gravitar sempre mais perto desse centro, sol dissimulado, onde tudo deverá vir queimar-se um dia. […] Mas, na busca obstinada de um artista, os únicos que lhe poderão valer serão aqueles que o amam, e também aqueles que, amando ou criando por sua vez, encontram nessa paixão a medida de toda paixão e, por isso mesmo, sabem julgar.
             Sim, todo esse tumulto… quando a paz seria amar e criar em silêncio! Para isso, entretanto, é preciso que tenhamos paciência. Espera-se ainda um momento e, depois, o sol sela nossas bocas. (Albert Camus – “Núpcias, o verão”, págs, 110-111)



Imagem: http://mustangmaverick.deviantart.com/art/Harakiri-88418638
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