DE SANGUE – 2. (In)orgânico

Imagem: “Dishonest heart”, Audrey Kawasaki.
À tarde, o calor não tinha mais graça. Dominava preguiçosamente o pátio do colégio, o clima agradável da manhã já transmutado em ondas infernais. Ela descia as antiquadas meias três quartos que era obrigada a usar num dos poucos (se não o único) colégios da cidade que ainda mantinham aquele costume. As amigas haviam cansado de esperar. Ela estava sozinha no banco de concreto que ficava no caminho para a quadra. Calada. Quieta. Esperando.
Então ele veio. O peito nu, a camisa do uniforme jogada sobre um dos ombros, a pele suada e o rosto muito de menino, muito dela, transfigurado pela respiração cansada. Ele veio ignorando a presença dela, cercado de amigos, alguns também sem camisa. Mas o único peito nu que ela via era dele. Sem pelos, com uma ou duas cicatrizes de garoto arteiro. Todas as quintas ela esperava por ele, mais de uma hora depois do horário de saída, após a pelada dos garotos do segundo ano.
Quando ele veio, ela até se esqueceu de levantar as meias e ajeitar os cabelos. Pegou-se olhando pra ele de uma forma distinta à que estava acostumada. Sim, havia a mesma paixão. A mesma devoção. Mas suas mãos suavam tanto que ela teve de agarrar o tecido da barra da saia. Mantinha as coxas apertadas uma contra a outra, uma maneira inútil de disfarçar a invisível sensação que brotava do meio das suas pernas. Isso só por olhar pra ele, seu irmão, sem camisa. Ver seu braço deleitosamente delineado, as curvas discretas dos músculos do abdome… Ao se dar conta daqueles pensamentos, imediatamente teve vergonha. Sentiu-se desfeita, descabelada, desconjuntada, derretida pelo suor e pelo desejo. Seu peito arfava.
Agnes pressionou os dedos contra os lábios, numa tentativa de não deixar sair qualquer palavra, suspiro ou gemido que indicasse aquele desejo despropositado. Por mais que quisesse se levantar e envolver o pescoço do irmão com seus braços pueris, seu corpo não respondia a quaisquer estímulos além do próprio encantamento causado por Ângelo.
Ficou ali sonhando aquelas memórias inventadas, lembranças de útero, dum mundo puro, natural e só deles dois. Ela queria amar. Mas não podia fora do seu coração, fora dos seus olhos. Não compreendia, se aquele que amava era tão perfeito para ela! Tão perfeito que estava com ela desde as entranhas da mãe. E a amava desde então. E a desejava tanto que já estava ao seu lado desde antes da existência.
“Nós somos feitos da mesma matéria” – agradava-lhe pensar.
Estava surpresa e, acima de tudo, ofendida pela recente mudança de comportamento do irmão. Havia quase um ano ele parecia evitá-la, até mesmo hostilizá-la quando tinha a oportunidade. Isso fazia com que ela se sentisse ainda mais impotente em relação às sensações que a presença do irmão lhe causava. Vontades às quais a mocinha não estava habituada, as quais não fazia ideia de como saciar. Nunca se sentira tão sozinha. Tola. Mais uma vez, “desfeita”.
“Se pelo menos ele me olhasse, me desse um oi, me chamasse de maninha, Agui, cabeça de vento, qualquer coisa…”. Mas ele não o faria. Agnes, pela primeira vez, sem ao menos identificar a sensação, sentiu-se uma mulher rejeitada.
Em casa sua apatia crescia e, até nos fins de semana que Ângelo passava com ela e com a mãe, sua angústia velada não permitia que ela dissesse coisa alguma além do estritamente necessário. O silêncio abarcou os dois em seu navio de naufrágio.
Até que num domingo alguma coisa mudou.
Ela estava se penteando para ir à igreja quando ele parou à porta aberta do quarto dela, o ombro encostado ao portal.
– Por que você vai prender o cabelo? – perguntou.
– Porque ele não está bom hoje.
Ângelo não respondeu. Olhou-a. Agnes sentiu o peso dos olhos do irmão sobre si, percebeu que ali residia um padecimento bonito, um desejo pela flagelação típico dos mártires cujas vidas estudara no catecismo. Não compreendeu ao ver-se tão atraída por aquela mortificação. “Ai, como eu quero…”, pensou. Mas não sabia exatamente o que queria.
Talvez sugar todo o amor que havia nele. E havia muito, ela estava certa.
Alimentar suas artérias com aquele amor. Salvar-se por ele.
Salvar-se.
Em sua cabeça segura, uma vozinha dissidente sussurrava que não havia salvação.
Ele ainda estava ali a olhá-la. 
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