DE SANGUE – 1. "Asa da minha asa"

Imagem: “Blue”, Audrey Kawasaki.
De manhã, o ar era fresco e a claridade o deixava pensar que era feliz. Em silêncio, nunca dizia palavra durante aquelas manhãs de domingo que passava na casa da mãe, ele cortava o pão francês. Recheava-o com requeijão. Punha o café na caneca. Misturava o açúcar. Desejava que os cabelos de sua irmãzinha não barrassem a visão que ele teria da janela. Nem a vontade de se atirar por ela.

A irmãzinha tinha brutais olhos redondos. Cílios grandes, curvados sobre as pálpebras fundas. A irmãzinha tinha rosto corado, talvez por maquiagem, e lábios gordurosos de manteiga. Lábios grossos demais pra uma boca pequena, o que lhes conferia um aspecto de botão de flor. Os cabelos, aquela moldura maldita, eram volumosos e compridos. Recém-lavados, recém-secados, recém-penteados. Ela levava os dedos, as unhas longas pintadas de lilás, ao queixo pequeno para uma coçadinha. Suas mãos eram de boneca, dedos finos e curtos, regulares, de menina educada que não gosta de estalar as juntas ruidosamente.

Agnes.

O nome da irmãzinha.

Agnes.

Casta, pura, honesta, virtuosa.

Nada disso.

Significava “desgraça”.

Ele tinha vontade de matar. De destruir tudo o que via pela frente. Vontade de rasgar ao meio aqueles babacas do colégio, quebrar os caras mau-encarados que o zoavam na rua, arrancar os olhos dos garotos que olhavam para Agnes quando ela passava, socar a cara do pai deles até ela virar uma massa irreconhecível. Era uma vontade tão forte que tirava sua consciência. E, quando vinha essa vontade, era como se ele apagasse e acordasse num ringue de sangue e ossos fraturados.

Outra briga no colégio.

Mais um domingo de sermão da mãe.

Na frente da irmãzinha. No café da manhã. Antes da odiada missa.

Por que ele era obrigado a ir à missa? Sempre dava um jeito de sair na homilia e fumar escondido. Abusado, prostrava-se minutos depois ao lado da mãe, no banco da igreja, deleitando-se com a expressão de desgosto da mulher ao fungar o cheiro do cigarro na camisa do filho.

Ângelo.

Agnes e Ângelo.

Que par estúpido de nomes para gêmeos.

“Asa da minha asa”.

Ele olhou lá em cima, na cúpula da igreja, os anjos pintados em tons de azul e amarelo claros. Não se pareciam com ele em nada. Por mais que Ângelo enxergasse neles uma falta de santidade discreta, ainda assim, não tinham nada a ver com ele.

Ouviu a voz de Agnes cantar “Pie-da-a-de, pie-da-a-de, piedá-de de nós” num soprano tímido, mas orgulhoso. Desprezou-a por isso. Ele bem sabia que de santa a irmã só tinha o nome. Com a mãe no meio dos dois, era praticamente impossível olhar Agnes sem ignorar desavergonhadamente o padre no altar. Ângelo não se importava. Só baixou os olhos porque ela, Agnes, retribuiu o olhar sem educação.

Ângelo se perguntou se havia algum motivo para a mãe sempre se posicionar no meio dos dois. Aquelas desconfianças terríveis de que os pais sabiam de alguma coisa o arrepiavam. Ele estava pronto a se jogar na frente de um carro se eles demonstrassem tal conhecimento. O que era possível saber? Ângelo julgava jamais ter exibido atitude que o denunciasse.

A mãe não gostava muito dele. Era a sensação que tinha.

Não, a mãe o odiava.

Filho maldito que só dava problema.

Filho maldito que tinha o rosto, o corpo e a voz do pai.

Filho maldito de comportamento estranho e antissocial. Principalmente na frente da minha filhinha amada.

Antes da separação dos pais, quando pequenos, os gêmeos andavam juntos pra cima e pra baixo. Mas o divórcio, concomitante com a puberdade, fez com que Ângelo erguesse uma barreira entre os dois, independente de distâncias ou casas diferentes. Ele começou a perceber que o sentimento que nutria pela irmã, anteriormente aceito com naturalidade de criança, consistia na mais abjeta das imoralidades.

Ele queria explodir o mundo que o condenava. Queria se destruir, por causa de sua imundice, dos seus desejos nojentos e doentios.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s