EXÍLIO

A vida é muito misteriosa!… É um deserto e um exílio… mas no fundo da alma, sente-se que haverá um dia PANORAMAS infinitos, PANORAMAS que farão esquecer para sempre as tristezas do deserto e do exílio…(Thérèse de Liseux)

Tive medo de ir vê-lo. Foi no meu último dia na universidade, depois da defesa da monografia. Temia principalmente pela minha mente que começava a decantar, as ideias baixando na superfície do cérebro, após um conturbado fim de décimo período. Em breve, eu seria um advogado. Aparentemente curado das perturbações mentais da infância e da adolescência, eu me tornara o filho modelo.

Minha mãe me mantivera afastado dele durante a conclusão da monografia e assim pretendia que fosse enquanto eu me preparasse para o exame da Ordem.

Me recusei e fui vê-lo.

No hall do hospital, vi minha irmã e todo aquele drama que ela arrastava por aí. Minha trágica irmã de cabelos longuíssimos e pernas maiores ainda. Apesar do verão latente, era um dia nublado e ela havia aproveitado para vestir um blazer preto de veludo. Por dentro, o clássico espartilho também negro cobria uma blusa branca de babados na gola, acompanhada de uma gravatinha de laço. A calça escura de alfaiataria pescava um pouco, destacando os oxfords pretos envernizados. Até nisso eu tinha a sensação que nós dois competíamos: quem era o mais bem vestido.

Sentada na sala de espera vazia, minha irmã fitava o nada com os olhos secos e o corpo ereto. Quem visse, poderia até pensar que se tratava de uma mulher fria.

Sentei-me ao seu lado, sem esperar por um cumprimento.

Vislumbrei o vazio como ela e, por alguns instantes, fomos ambos esfinges. Discretamente, meus olhos escorregaram um pouco nas órbitas e capturaram o grosso rosário prateado com pedras brancas envolto em suas mãos unidas. Um sopro da honestidade que ela era me atingiu como um tornado. Minha irmã sempre dava um jeito de me fazer sentir uma farsa, mesmo que permanecesse calada e quieta ao meu lado. Era um poder exclusivo seu. Eu possuía uma sensação perene de estar fazendo a coisa certa, exceto quando ela estava por perto.

– Já deixou o nome e o documento na recepção? – perguntou, a voz baixa.

– O que você acha?

Ela ergueu a sobrancelha e deixou pra lá. Voltou a se concentrar no que possivelmente se tratava de uma reza silenciosa.

– Como ele está?

– Na mesma – ela fez uma pausa, mas logo tomou fôlego. – Só assim posso vê-lo em paz, quando ele está inconsciente.

Aguardamos a autorização para entrar. Em seguida, subimos juntos no elevador. Porém, à porta do quarto, o segurança nos instruiu a entrar um por vez. Fui primeiro.

Ele estava inconsciente, conforme o esperado. Cheio de tubos e com o batimento cardíaco piscando em números verdes num monitor grande, repleto de outros numerozinhos coloridos a mim desconhecidos. Não o encontrava há cerca de duas semanas e sequer me lembrava da última vez que vira seu rosto. Pensei que me chocaria ao vê-lo daquela maneira e todo meu tão suado autocontrole cairia por terra. Pensei que voltaria a chorar como uma criancinha. Entretanto, tudo o que pude fazer foi observar seu rosto familiar e seus olhos tão iguais aos meus. Meu velho pai japonês. Tão enérgico sempre, agora apenas uma sombra do que um dia fora, um ser em suspensão. Magro e macilento, cabelos grisalhos oleosos, mãos ressecadas. Quanto a essas características, ele continuava o mesmo. Por ele, eu havia me anulado com orgulho. Apenas para ser quem ele sempre amaria, tinha valido a pena ser quem eu não era. Toquei sua testa e aquele seu cheiro de japonês ficou nos meus poros. Era uma lembrança que eu carregaria por alguns minutos depois que o deixasse ali, uma prova de que ele existia, de que ele estava lá.

– A Sumirê vem te ver, pai – murmurei ao seu ouvido e percebi que seu batimento apresentou uma leve aceleração. – Não fique bravo com ela.

Esperei, só por esperar, por uma resposta. O sinal digital do monitoramento preenchia o ar de artificialidade.

– Volta, pai – pedi. – Preciso de você na minha formatura. Tirei dez na monografia.

Minhas palavras já tinham alcançado um nível alto de falta de conexão entre si.

– Volta, pai… Por favor.

Naquele momento, a felicidade foi inesperada, mas genuína. Ele existia. Era tudo que importava. Não havia necessidade de antecipar resultado algum, negativo ou positivo.

Apertei sua mão, mas logo a afrouxei. A fragilidade de sua situação me causava um medo imenso de soltar algum tubo ou causar um aumento súbito de seus batimentos cardíacos.

Pi.

Pi.

Pi.

Saí. Minha irmã entrou.

Olhei-a através do vidro da porta e assumi que ela estivera fazendo o mesmo durante a minha visita. Na verdade, queria testar por quanto tempo era capaz de olhar para ela sem desviar. Não durou muito. Larguei-a lá e voltei para casa.

Só voltei a ver Michaela na noite de Natal, uma semana mais tarde. Uma não-noite de Natal. A casa estava cheia de gente para chorar a ausência do meu pai e a sua, como eles pareciam ter prazer em crer, possível morte. Eram tantas tias japonesas com o mesmo tipo de roupa que podiam formar um exército de velhinhas cruéis e antipáticas. Os tios, também orientais, eram todos bem-sucedidos e formais demais. Apenas uma criatura se destacava ali, a única ocidental, minha mãe. Seu rosto pequeno e de traços delicados confundia-se facilmente com o de uma mulher japonesa, porém sua pele morena e seus cabelos ondulados e volumosos eram discrepantes. Michaela era sua cópia.

A monumental árvore de Natal no meio da sala estava repleta de presentes. Aquela era uma imagem que me transportava à minha infância, ao meu Papai Noel Japonês que me fazia exultar de felicidade toda vez que chamava meu nome e me entregava um embrulho colorido. Eu, agora com mais de 20 anos, chorava por dentro a ausência daquele velhinho. Não importava quantos presentes caros eu ganharia aquela noite, não tinha graça se não viessem das mãos do meu Papai Noel Japonês. Senti o olhar de minha mãe. Minha intuitiva mãe sabia exatamente no que eu pensava. Ela, que antigamente seria a única pessoa com alguma vida naquela sala, recentemente reduzira-se à metade por causa da doença do meu pai. Pensei ter visto um mínimo movimento de seu rosto, um gesto ínfimo que pareceu indicar a janela. Esperei alguns instantes e caminhei até a janela da sala. Obviamente, ninguém prestava atenção em mim. Com exceção de minha mãe que, no meio de uma conversa pseudo-simpática um uma das tias, me observava de soslaio.

Logicamente, minha irmã não havia aparecido para confraternizar com a família, Michaela era persona non grata desde que abandonara o respeitável seio familiar para ir morar com a namorada. Eu era tão gay quanto ela. Mas meus pais jamais saberiam disso. E lá estava ela na calçada do meu prédio, o rosto voltado para cima, esperando que eu a enxergasse do apartamento do terceiro andar.

Desci.

De vestido branco cinturado e cabelos soltos, ela parecia outra pessoa. Assemelhava-se à mulher que minha mãe fora um dia, aquela da minha infância. Por um momento, me vi agarrando suas longas pernas, escondendo meu rostinho choroso no tecido macio e perfumado de seu vestido, apenas para que ela acariciasse meus cabelos e murmurasse que tudo ficaria bem.

– Feliz Natal, Raphael.

– Feliz Natal, Sumire.

Ela me deu um sorriso conformado. Ao contrário de mim, Michaela detestava seu nome japonês.

– Como estão as coisas lá em cima? – perguntou.

– Vazias.

– Como sempre.

– Não… Não era assim com ele.

– Obviamente, nós não tivemos o mesmo pai – ela desviou o olhar.

– Não sei. Não posso falar por você.

Mas ele me fazia feliz. Como que afastando essas lembranças, continuei:

– Eu vi a mãe chorar de verdade. Não aquelas lágrimas ralas dos dramas que ela assiste na tevê. Mas o rosto inchado e vermelho, com direito a soluços de criança. Foi assustador.

Michaela me respondeu com reticências. Nunca hesitava em criticar o pai, porém era nítido como se sentia desconfortável em falar sobre a mãe.

– Nós somos lutadores. Insistimos em viver, em ser felizes, em amar. Mesmo que tudo nos leve a crer ser impossível. Nós, seres humanos, não desistimos. – disse, por fim.

– Alguns sim – com certeza ela havia se esquecido da história da falsa louca que cortara a própria garganta anos atrás no hospital onde eu estivera internado.

– Às vezes eu penso em nós dois…

– O que tem pra pensar?

– Nada. Mas deveria haver alguma coisa, você não acha?

Não respondi. Ela acompanhou meu silêncio. Essa foi a única hora em que eu pensei: deve haver algo em comum, alguma coisa que conecte nossa consciência. Afinal, somos irmãos. Raphael e Michaela. Shinichi e Sumire. Meu corpo queria se afastar, mas parecia que essa minha consciência estava amarrada à dela. Ela pegou minha mão e a sua era quente demais, queimava. Seria nosso sangue que se comunicava? Se eu exteriorizasse esses pensamentos, ela me responderia que não passavam de bobagens. Minha mão, antes reta e dura, logo tomou a forma da sua.

Michaela me abraçou. E era a primeira vez que nos abraçávamos na vida.

Arte: http://browse.deviantart.com/?qh=&section=&q=hospital#/d2ekq1v

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