Eu não te amo

– Eu não te amo mais.
Adele nem se deu ao trabalho de me olhar. Seu rosto de perfil me dispensava meia atenção apenas. Seu nariz empinado coberto de sardas, seus imensos cílios carregados de máscara, seus cabelos claros e lisos nos ombros pálidos, seu vestido preto de tecido aveludado, sua pequena bolsa antiquada, sua sombrinha rendada, suas meias brancas opacas, seus sapatos de salto grosso e bico redondo me diziam que ela estava indo embora.
E eu chorava, desesperada, a maquiagem escorrendo pelo rosto, o corset branco espremendo todo o meu sumo pelos olhos. Agarrei seu pé, mas só na minha imaginação. Eu me humilharia somente nos meus pensamentos, porque sabia que se o fizesse de fato de nada adiantaria.
Adele não tinha coração.
Nunca tivera.
– Não me importo se você não me ama, não me importo se você não vai mudar. – era mentira. Seu sentimento inexistente era pior que a solidão polar que me esperava.
– Michaela. – sua mão estava na maçaneta – Não tem jeito.
– Então pega suas luvas e sai! – gritei e joguei o par de renda preta que catei sobre a mesinha, sem me levantar do meu túmulo que era a poltrona da sala.
Olhei para o universo anacrônico sufocante que havíamos criado ao longo dos anos, eu e Adele. Móveis vintage não tão bem conservados, roupas gastas dos anos setenta misturadas com corsets e peças de inspiração vitoriana que eu costurava. Os cavaletes dela, seus quadros de cores desbotadas, seus pincéis espalhados pela minha mesa de corte. Nossa irônica vitrola tocava “Too dramatic” do Ra Ra Riot. Preferia que fosse a marcha fúnebre.
Adele parou à minha frente, eu afundada de vez na poltrona. Os lábios pintados de Snob da MAC se abriram um pouco. Ela não tinha mais o que dizer. Agarrei sua cintura fina e afundei o rosto no veludo sobre seu ventre.
Eu não ia chorar.
– Pode ficar com a vitrola. – disse ela, sem mexer o corpo. A frase foi como duas mãos que se agarraram aos meus pulsos e me empurraram para longe. A vitrola era nossa desde a época da escola.
Adele não tinha mais dezesseis anos. Eu não havia mudado nada. Quase dez anos, nenhuma outra boca além da dela. Amava sofrer por ela, mas não daquele jeito, apenas quando eu a irritava com minha teimosia e ela gritava comigo. Apenas quando me trancava em casa uma semana inteira, ao pensar que um dia ela deixaria de me amar.
– Você achou que eu ia aguentar isso por mais quanto tempo? Você não cansa? Você não quer viver de verdade? – continuou ela.
– Não. – senti minha infantilidade represada na borda dos meus olhos.
Não, não me tira daqui. Não me força a ver outras pessoas, eu tenho preguiça delas.
– Você não vai se matar, vai?
Não respondi. Ela se afastou novamente, retomou a mala de mão que havia largado no chão.
– Eu não te amo. – ela repetiu, os lábios semicerrados.
– Boa sorte. – disse eu, a raiva feito ganchos que mantinham minhas pálpebras arregaladas.
Por que ela não saia LOGO?
Foi então que eu chorei, mas só porque ela era linda. Os cabelos amarelos eram um clichê iluminado pelo sol da tarde da pré-primavera. Era difícil decorar a cor de seus olhos, porque mudava sempre. Porque não era uma cor de todo. E naquele momento ela estava indo, abandonando a necessidade de lembranças. Desejei que todas as minhas memórias se grudassem às solas vermelhas de seus sapatos e se embrenhassem no capacho do lado de fora. Seus estonteantes tornozelos brancos me deram adeus, naqueles passinhos graciosos e curtos, enquanto Adele e seu pequeno corpo infernal cruzavam a soleira.
Agora havia uma estaca de madeira atravessada na minha garganta. Um pedaço da porta que Adele batera. Um pedaço da nossa porta transpassada na minha goela. A agulha da nossa vitrola debaixo de uma das minhas unhas. Seus pincéis martelados entre as minhas costelas. Seus cavaletes imprensando minhas pernas. Suas tintas corroendo meu estômago. E a voz daquela que não estava mais preenchia os vincos do lençol sobre nossa cama. A colcha embolada no chão, assim como o resto da roupa de cama, ainda cheirava a sexo. Adele tivera a indecência de fazer amor comigo antes de ir. Sem vontade e sem paixão como um dia sem cafeína.
De súbito compreendi que ela me amava. Se não, os vestidos que eu fizera não estariam mais pendurados na arara, feito alminhas prontas para se lançarem no Hades. Os meus e os dela, misturados, recordando em sua pele-tecido os perfumes marcantes do meu shampoo e do hidratante dela. Compreendi que ela não voltaria. Não tão cedo, a probabilidade do nunca correndo na frente. Mas que, quando ela cuspia que não me amava mais, queria dizer que não entendia por que minhas células jamais deixariam seus poros. Compreendi que sua mente de adulta rejeitava o amor sem casal, etéreo e mortal. O amor diferente que eu também sentia, mas igualmente reprimia dentro do meu peito que não queria crescer.
– O que eu vou fazer com isso? – minha voz molhada saiu no limiar entre grito e murmúrio.
No quarto, não houve som algum que se parecesse com resposta. E, naquele momento, dentro daquela minha caixa vazia, entendi que o silêncio é um sinônimo de futuro.


Imagem: http://myiu14.deviantart.com/art/black-walls-230549096?q=boost%3Apopular%20lesbian%20couple&qo=662

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2 comentários em “Eu não te amo

  1. Ola, como prometido aqui estou eu para comentar sobre a relação destas duas personagens.
    Por onde começar?
    Bem, enquanto Frank me deixa sempre curiosa com sua vida, Adele e Michaela deixam principalmente confusa.
    Obviamente que tal como Michaela pensa, quando Adele diz que já não a ama mais, isso não é verdade. Foi uma daquelas coisas que as pessoas dizem para se convencerem a si próprias mais do que aos outros. Até porque ela actualmente mora num apartamento indicado pelo irmão de Michaela, o que a faz continuar meio ligada a ela.
    Mas, e esta parte é que me deixa confusa, Adele consegue manter aquele ar distante ao mesmo tempo que deixa Michaela para trás, abandonando-a ao fim de 10 anos juntas. O que me leva novamente á teoria que Adele procura alcançar algo.

    ” – Você achou que eu ia aguentar isso por mais quanto tempo? Você não cansa? Você não quer viver de verdade? “
    Também é notável neste capítulo a dependência de Michaela em relação a Adele, e a relação fechada que elas tinham, isoladas do resto do mundo, como que fechadas num globo de neve (não sei porquê mas me lembrei disso agora). Supondo que a teoria do globo de neve está certa, Adele pode ter curiosidade no mundo exterior, por muito bom que o interior seja, mas ela não pode ficar com os dois.

    Eu diria que Adele está, principalmente, com medo.

    Não sei bem ao certo se o que acabei de escrever está compreensível (acho que misturei uma série de teorias contraditórias), mas qualquer duvida é só perguntar. Entretanto se desvendar mais algum mistério acerca destas personagens logo lhe digo.
    Até Breve.

  2. Olá
    Sua confusão é perfeitamente compreensível. Que mulheres contraditórias essas duas! Até Michaela, que se apresenta de uma forma mais simples, consiste num emaranhado de experiências (algumas indicadas no conto “Exílio”) que lhe imprimem complexidade. Já Adele, mais misteriosa, tem “um rosto de sombra” como disse Frank. Sua teoria de que ela busca algo, em contraste à aparente convalescença de Michaela, parece avançar perigosamente a cada leitura! Com certeza, o fato de Adele morar num apartamento indicado por Shin demonstra sua necessidade de continuar ligada… Enfim, não posso continuar mais nessa linha ou vou acabar revelando o que não devo! =P

    Você diz que Adele está com medo. Não discordo. Mas não é preciso coragem para “quebrar o globo de neve” e ir para o mundo?

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