Sobre “O fascínio do poço”, de Virginia Woolf


O que Virginia Woolf viu e ouviu no poço, eu gostaria de dizer que é o mesmo que vejo nos rostos anônimos das ruas. Seria uma mentira. Ela, Virginia, necessita apenas de um espelho d’água para vivenciar aquilo que nem centenas de rostos humanos me oferecem. Vejo apenas o silêncio, quando deveria ver histórias. Eles não me dizem nada, os passantes. Elas não me contam nada, as histórias. E eu falho mais uma vez na minha função de roteirista. Falho porque escrevo não histórias, vidas. Não vidas comuns. Não gosto do comum. Não vidas extraordinárias. Não acredito no extraordinário. E também seria uma presunção abissal chamar “vidas” o que não passam de fiapos de mente e fibras de peito. Então me aproximo um pouco de Woolf, vislumbro o poço através de meus muitos graus de miopia.

E o que vejo no fundo são homens de chapéu e adolescentes bailarinas. Banal. Mas meu homem de chapéu é escocês e esquizofrênico, minha adolescente bailarina é mestiça e sofre de TOC. Eu vejo Alices de lábios pintados de negro, Alices que não caem pela toca do coelho, Alices bonecas de resina e olhos de vidro – Alices com coração de gente. Eu vejo a poesia, alada de uma só asa, que ninguém mais vê. E eu vejo a dor corroer uma tartaruga de madeira suicida. Ela me olha com seus olhinhos pintados, a tartaruga, e então ela sou eu. Um dia sobre a bancada de madeira, outro pendurada na beira. Numa tarde no topo da cereja de porcelana, noutra de barriga pra cima debaixo da cama.

O poço dela tem as cores da placa de “vende-se” refletidas: preto, vermelho e branco. Nisso estamos quites. Lembro-me dum poeta desconhecido: “o tom de cinza é branco, meu céu está tão vermelho”. Assim reproduzo a curta cartela de cores que compartilho com Woolf no meu guarda-roupa, nos meus figurinos, nos meus objetos preferidos. Minha boneca linda de cabeça imensa e olhos desproporcionais tem cabelo vermelho (dorme esquecida, respirando a poeira da caixa enquanto eu inalo todos os dias o odor da sua semi-vida). Meu brinquedo humano, irmã idolatrada, mais-que-amada, atriz e inspiração, tem madeixas negras como seu coração que jura não ter sonhos. E os meus próprios sonhos quase todos são brancos – porque o que reflete no meu crânio branco é o vazio da página não escrita, não ouvida. As vozes do poço são minhas inimigas. Em troca de histórias, diz a placa, vende-se uma vida. Ninguém quer comprar. Nem a Fazenda e Moinho Romford nem a minha vida. Eu mesma não a quero, por mais que tenha já me iludido. Achei que poderia apropriar-me desta que nunca foi minha de fato. Mas continuo sem lebre nem gato, nada de histórias, muito menos de vida.

Afastando-me do poço e refugiando-me do silêncio perfurante das ruas, conheci meu direito de ser confusa e meu dever de não explicar nada. Aprendi o prazer orgástico do “E por que não?”. E também que a depressão surge no momento em que as paixões dominam a lucidez – o que, confesso, me contrariou. Minhas paixões alimentam minha arte. Mas minha arte é em si minha maior lucidez.

Leia o conto de Virginia Woolf, “O fascínio do poço”, aqui: http://fictamors.blogspot.com/2010/04/virginia-e-o-poco.html

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